As crianças leitoras e a construção do Brasil

Estagiária de jornalismo, Instituto Ciência Hoje

Historiadora e autora do livro O público infantil: intelectuais, mídias e divulgação do conhecimento aborda a relação de meninos e meninas com os meios de comunicação na Primeira República e afirma que, ainda hoje, a chave para incentivar a leitura na infância é a interlocução

CRÉDITO: FOTO: DIVULGAÇÃO MMA

No início do século 20, os meios de comunicação passaram a apostar nas crianças para divulgar conhecimento e valores de um Estado Nacional brasileiro recém-nascido. Iniciativas como a coluna Gazeta das Crianças, do jornal Gazeta de Notícias, a revista O Tico-Tico e o programa Quarto de Hora Infantil, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foram os pioneiros, utilizando essas mídias, a produzir conteúdo voltado para o público infantil, influenciando na formação de pequenos leitores. A recepção das crianças e a forma como elas interagiam com os meios de comunicação é o que a historiadora Angela de Castro Gomes, professora titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), investiga em seu novo livro “O público infantil: intelectuais, mídias e divulgação do conhecimento”, publicado pela Editora Fiocruz em junho de 2026.
Em entrevista à CH, a pesquisadora ressalta a importância de entender as crianças como um público diferente, mas que não pode ser visto como inferior ao adulto. “Esse público infantil é absolutamente leitor no sentido de intérprete, no sentido de que ele reinventa, ele se apropria e pensa de uma maneira imaginativa, distinta do que um adulto pensa, porque seu ‘mundo mágico’, vamos dizer assim, já se fechou, e esse mundo da criança é muito forte, tendo uma fronteira fluída entre realidade e fantasia. O público infantil ‘fura a bolha’ em que o adulto vive”, afirma a historiadora, que também acredita que formar e manter crianças leitoras é um grande desafio, principalmente nos dias atuais. A resposta está sempre na interlocução, em também mergulhar nesse mundo maravilhoso infantil: “Cada vez mais, na medida em que a competição é enorme em termos de suportes, é preciso estar atento às demandas do público infantil e às características daquilo que queremos, como mídia, sociedade ou escola, oferecer, não no sentido de cima para baixo, mas junto, de forma coletiva, construída com as próprias crianças.”

CH: Como surgiu essa pesquisa e por que ela é importante?

ANGELA DE CASTRO GOMES: Todo livro tem uma história. Esse começou como um capítulo. Quando eu comecei a trabalhar com o tema do público infantil, eu percebi que, embora o meu material, como eu previa, fosse escasso, podia render muito mais do que eu imaginava. Eu pensei: “Eu tenho muito mais de 30 páginas para escrever”. E entendo que há importância em despertar a atenção dos estudiosos e do público para a temática da recepção, porque ela não é tão frequentada, compreensivelmente, aliás. Nesse livro, estou trabalhando com a recepção numa faixa etária que envolve o público infantojuvenil. Estudos de recepção na área da história do livro e da leitura, da história da educação, das ciências humanas e sociais, em geral, são difíceis de fazer. E são difíceis porque há uma escassez de fontes, que geralmente se perdem. Encontram-se registros sobre recepção, mais comumente, no que chamamos fontes memoriais, quer dizer, em biografias, autobiografias, memórias e na correspondência. No meu caso, havia uma dificuldade a mais, porque eu queria trabalhar com crianças, e elas deixam muito menos registros do que os adultos, porque dependem desses adultos guardarem sua produção. Aliás, quando encontramos registro, é do adulto falando do que ele lia quando era criança. Mas, eu queria trabalhar com a produção das crianças, como público leitor, naquele momento que estava estudando. Eu não queria a memória de um adulto sobre algo de sua vida no passado. Eu queria a interatividade do público infantil com as mídias e com os produtos culturais a ele oferecidos, no momento que eu estava estudando, para mostrar que as crianças contribuíam, desde o início do século 20, como sujeitos ativos e que se tornavam, além de leitores, autores desses produtos divulgados pelas novas mídias.

Eu não queria a memória de um adulto sobre algo de sua vida no passado. Eu queria a interatividade do público infantil com as mídias e com os produtos culturais a ele oferecidos, no momento que eu estava estudando, para mostrar que as crianças contribuíam, desde o início do século 20, como sujeitos ativos e que se tornavam, além de leitores, autores desses produtos divulgados pelas novas mídias

CH: Por que os estudos de recepção são importantes quando falamos da mídia? E qual a relação disso com o público infantil?

AG: É impossível pensar em um produto cultural, seja ele qual for ou em que suporte estiver, sem pensar que existe um público e que esse público é absolutamente determinante para os formatos, conteúdos, linguagens e ilustrações etc usados no produto. A ideia de que se faz algo para um “outro de cima para baixo”, havendo uma espécie de domínio de quem faz o produto cultural, e que os sentidos e os valores propagados serão assimilados como tais, e ponto final, é um grande equívoco. Esse público infantil é absolutamente leitor no sentido de intérprete, no sentido de que ele reinventa, ele se apropria e pensa de uma maneira imaginativa, distinta do que um adulto pensa, porque seu ‘mundo mágico’, vamos dizer assim, já se fechou, e esse mundo da criança é muito forte, tendo uma fronteira fluída entre realidade e fantasia. O público infantil ‘fura a bolha’ em que o adulto vive.

CH: Qual o foco da investigação para encontrar e entender esse público?

AG: Foquei em três produtos culturais que eram mídias modernas para sua época, sobretudo, considerando o público infantil. O jornal Gazeta de Notícias, um grande jornal do Rio de Janeiro, que vinha do século 19, e, no início do século 20, foi um dos primeiros a ter uma coluna dedicada às crianças, a Gazeta das Crianças, iniciada em 1906 e publicada de segunda a sábado. A outra mídia inovadora era a revista infantil O Tico-Tico, criada em 1905, que era semanal e fazia parte do grupo empresarial O Malho, alcançando a tiragem de 27 mil exemplares! A terceira iniciativa, é o rádio. A referência maior é a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, criada em 1923 e cujo grande líder é Edgar Roquette-Pinto (1884-1954). Em 1924 já existia um programa da Rádio Sociedade chamado o Quarto de Hora Infantil. Como o nome diz, era um programa de 15 minutos. Então, eu escolhi essas três iniciativas bem no seu início, porque queria observar, com muita atenção, um processo, na verdade, de aprendizagem. Quem faz a coluna, a revista e ou o programa de rádio está aprendendo a se comunicar com as crianças, e as crianças, por sua vez, estão aprendendo a se comunicar com esses veículos. A minha pergunta era: ‘Quem são essas crianças que leem jornal e revista, que ouvem rádio e que dão novos sentidos às mensagens das novas mídias?’ Então, fui em busca delas.

Esse público infantil é absolutamente leitor no sentido de intérprete, no sentido de que ele reinventa, ele se apropria e pensa de uma maneira imaginativa, distinta do que um adulto pensa, porque seu ‘mundo mágico’, vamos dizer assim, já se fechou, e esse mundo da criança é muito forte, tendo uma fronteira fluída entre realidade e fantasia. O público infantil ‘fura a bolha’ em que o adulto vive

CH: Por que os meios de comunicação decidiram apostar nas crianças no contexto da Primeira República?

AG: Aproveito para lembrar que a abolição ocorreu em 1888 e a proclamação da República em 1889. Então, nesse momento da Primeira República, estamos há cerca de 20 anos desses marcos, o que é muito pouco tempo. Com o fim da existência legal de escravizados e o início de um regime político republicano, todos, em princípio, podem ser cidadãos. Não estamos mais numa monarquia onde há cidadãos, mas há escravidão, e há um rei, cuja família tem direito hereditário ao poder. Com a república, mesmo com todos os problemas para se exercer a cidadania, há um regime com eleições, inclusive para o chefe de Estado, que é o presidente da República. Esse é um momento de construção de um Estado Nacional, significando não só transformações no aparelho administrativo do Estado, mas também investimentos na construção de um “povo”. Esse “povo” não está definido, ele não existe a priori. Então, havia a necessidade do novo Estado Nacional republicano se legitimar, o que significava trabalhar para a “formação de um povo”, que o reconhecesse e fosse brasileiro, e não paulista, pernambucano, baiano etc. Isso devia começar na infância. Há um longo processo que produz esse pertencimento a um grupo social que é a “nação imaginada”, onde há determinados conhecimentos, valores e crenças em comum, distinguindo esse “povo brasileiro”. Esse é o momento inicial da República, em que o regime começa a se voltar para a educação. A nação não está pronta. Ela tem que ser construída, o que envolvia o compartilhamento desses conhecimentos e valores, porque você tem que conhecer a sua nação para amá-la. A pátria é a nação que se conhece e, principalmente, que se ama. Essas duas coisas vêm juntas. E a escola é uma instituição fundamental para tal processo formativo, mas também já se sabia que esse processo precisava avançar para além da escola. Para muito além dela.

CH: Qual foi o impacto das inovações tecnológicas nesse processo de construção do povo brasileiro?

AG: Esse é um momento de modernização das mídias. E isso acontece junto com transformações tecnológicas. Há máquinas, por exemplo, que passam a imprimir em muitíssimo menos tempo, e em quantidade muito maior. Os jornais e periódicos passam a ser mais baratos, o que significa que precisam ter mais público consumidor. Então, se eu quero esse público, tenho que diversificá-lo, porque, para eu ter mais leitores, eu vou oferecer produtos para públicos novos e segmentados, em idade e gênero, por exemplo. Então, as crianças entram no radar como um público promissor. E deu muito certo, mais certo do que esses empresários e mesmo os intelectuais mediadores que se dirigiram às crianças imaginaram que pudesse dar. O Tico-Tico, por exemplo, é muito inovador, porque a revista apresenta um tipo de história que, na época, era uma novidade, do tipo das chamadas histórias em quadrinhos. Além disso, há muito uso de cor, tornando a revista mais atraente, em um momento em que, nos impressos, tanto o uso da cor quanto o uso da fotografia ainda não eram tão comuns.

Havia a necessidade do novo Estado Nacional republicano se legitimar, o que significava trabalhar para a “formação de um povo”, que o reconhecesse e fosse brasileiro, e não paulista, pernambucano, baiano etc. Isso devia começar na infância

CH: Como era feita a divulgação do conhecimento para esse público e de que forma a escola entra nesse cenário?

AG: Havia uma clara intenção de que a revista, por exemplo, pudesse não só chegar às casas, mas às escolas. E as escolas queriam dialogar com a revista. Por exemplo, encontrei uma notícia de um uma escola do Ceará, em que usaram uma história publicada na O Tico-Tico para fazer uma redação com alunos. E mais do que isso, eles selecionaram os resultados avaliados como melhores e mandaram para a redação da revista. Não só a revista quer se aproximar da escola, como a escola também está se aproximando da revista. Além disso, as crianças são vistas como fundamentais para a construção do Estado Nacional; verdadeiras “sementeiras da nação”. E esse é um momento em que, internacionalmente, para se ter o direito de voto, era preciso saber ler e escrever, daí a centralidade da luta contra o analfabetismo, que alcançava cerca de 70% da nossa população. O conhecimento começava pelo domínio do saber ler e escrever. O entendimento é que a leitura se torna algo absolutamente decisivo na vida dos cidadãos e dos futuros cidadãos. Uma sociedade que se quer moderna precisa ter um povo que saiba ler e escrever. A leitura é a chave mestra; é o carro chefe de tudo que se faz para a circulação do conhecimento. Por isso, ler e escrever histórias, resolver as adivinhas propostas, fazer exercícios de recorte e colagem, para tudo isso há instruções que devem ser lidas pelas crianças. Isso existia na coluna Gazeta das Crianças, em O Tico-Tico e na rádio. É um momento especial no diálogo entre intelectuais mediadores e o público infantil, tanto dentro como fora da escola, que foi o que mais me interessou. Ao mesmo tempo, um novo modelo de pedagogia ganha força: uma pedagogia científica. Era importante entender que há um novo modelo de infância: a criança não é um pré-adulto, não é um adulto em miniatura. Mas ela, sendo diferente, não é menos importante que os adultos, ao contrário. As crianças vivem num mundo diferente e para se fazer um trabalho de educação científica, bem feito, não se deve considerar que esse mundo, que mistura realidade e fantasia, seja um obstáculo, mas muito ao contrário, que essa seja a possibilidade de se dialogar com o público infantil. Essa nova pedagogia considerava que a criança aprende através dos seus sentidos. Ela aprende pela observação, pela experimentação; ela aprende pelo que se chamava na época do método das ‘lições de coisas’, que trabalhava a partir do mundo das crianças, de como elas experimentavam a ‘realidade’ dos adultos .

As crianças vivem num mundo diferente e para se fazer um trabalho de educação científica, bem feito, não se deve considerar que esse mundo, que mistura realidade e fantasia, seja um obstáculo, mas muito ao contrário, que essa seja a possibilidade de se dialogar com o público infantil

CH: Como era a interação do público infantil com os veículos? De que forma ele era alcançado?

AG: Para estudar o público infantil, eu busquei por essas crianças. Quem eram elas? E as encontrei com nome, sobrenome e até endereço. No caso da revista O Tico-Tico, especialmente, eram do Brasil inteiro: tinha leitor do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul e até de fora do Brasil. A revista tinha uma dimensão nacional. Para encontrar as crianças, no jornal, eu privilegiei uma seção da Gazeta das Crianças chamada ‘Bilhetes’, com comentários dos leitores. Já na revista, havia a seção ‘Gaiola d ‘O Tico-Tico’, e eu tive acesso às respostas às cartas enviadas pelos/as leitores/as, o que me revelou um pouco sobre quem eram essas crianças. Foi possível entender, às vezes, o sentimento que movia aquele menino ou menina que escrevia. Isso me mostrou, de fato, que as crianças acompanhavam com muita atenção todas as propostas a ela dirigidas, porque, de vez em quando, aparecia uma carta assim: “Na revista número tal, no concurso tal, vocês não publicaram o meu nome”. O modelo dessas iniciativas incluía, de forma ativa, a participação do público infantil. Ele mandava sugestões e também reclamava do atraso da publicação de suas contribuições: de uma história não ter sido publicada em um número da revista, do nome não ter saído na página dos concursos etc. Ou seja, as crianças também escreviam histórias e as enviavam para as redações e cobravam. Elas participavam não só lendo, mas borrando a fronteira entre leitor e autor, porque as crianças se tornavam leitores/as e autores/as de história, adivinhações, sugestões e críticas da coluna de jornal e da revista O Tico-Tico. Já os concursos foram muito poderosos na Gazeta das Crianças. Eles funcionavam da seguinte forma: eram feitas perguntas que envolviam áreas do conhecimento como geografia e história, por exemplo, com adivinhações divertidas. “Qual é a capital do estado cujo nome nos faz pensar numa fruta muito gostosa?”. A resposta era Aracaju. Os concursos normalmente ofereciam brinquedos como prêmios, e os sorteios eram feitos aos domingos. Para participar, as crianças tinham que seguir as regras: comprar o jornal ou a revista, recortar o cupom e enviar à redação. Isso levou centenas de crianças a participarem desses eventos que, no caso do jornal, foram verdadeiras festas na cidade do Rio de Janeiro. Já no programa da Rádio Sociedade, eu acessei o público, diretamente, por meio de apenas oito cartas que encontrei no acervo. As crianças deviam ter escrito muito para os locutores do programa Um Quarto de Hora Infantil, mas tudo se perdeu.

CH: Atualmente, a mídia impressa perdeu força e o digital tomou conta da vida das pessoas, incluindo das crianças. Quais são os principais desafios hoje para formar e manter um público infantil leitor no Brasil?

AG: O desafio é a interlocução com o público leitor infantil e em geral. É preciso dialogar com os públicos, em particular, com o infanto-juvenil, porque ele interage, vivendo em seu mundo de fantasia, mas sem prejuízo do que nós adultos, chamamos de realidade. A criança sabe perfeitamente e com seriedade fazer o jogo do faz de conta. O tempo passa, e o mundo se transforma, as possibilidades tecnológicas são muito mais desafiadoras, mas esse mundo do faz de conta continua existindo; é só olhar para ver uma criança brincando. Eu vivi num mundo que não tinha telefone celular, internet e – nossa! – inteligência artificial era algo inimaginável. Esse desafio de trabalhar para a formação de leitores é permanente. Não é um desafio simples e, a meu ver, ele não vai passar. No caso das crianças, é preciso se aproximar delas, entendendo e mesmo ‘vivendo’ em seu mundo mágico. Cada vez mais, na medida em que a competição é enorme em termos de suportes, é preciso estar atento às suas demandas e às características daquilo que ela quer. Também não oferecer algo no sentido de “cima para baixo”, mas com interlocução com as crianças, que respondem, muitas vezes, rapidamente e extraordinariamente bem. Precisamos de iniciativas comunicativas múltiplas, que estejam produzindo diálogo e construção conjunta, de forma que possamos buscar esse grande objetivo, de formar leitoras e leitores intérpretes, que nunca são passivos.

*Sob supervisão de Valquíria Daher

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