Resistência e memória no Museu Nacional dos Povos Indígenas

Estagiária de jornalismo, Instituto Ciência Hoje*

Diretora da instituição, que está em obras mas aberta à visitação, defende uma nova visão museal, com a criação de um espaço vivo de valorização dos saberes tradicionais, desconstrução de preconceitos e aproximação da sociedade

CRÉDITO: FOTO: DIVULGAÇÃO MMA

Na entrada do número 55 da Rua das Palmeiras, endereço no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, uma grande placa sinaliza com destaque uma mudança histórica: o antigo Museu do Índio, agora é o Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI). Inaugurada em 1953, a instituição teve seu nome oficialmente alterado em 2025, o que representa uma luta maior do que somente a denominação. Fechado em 2016, o museu reabriu em 2024 para visitação de seus jardins, mas seu casarão principal, construção do século 19, permanece fechado para obras. Ao assumir a direção do MNPI em outubro de 2025, Juliana Tupinambá, indígena do território Tupinambá de Olivença, em Ilhéus (BA), e mestre e doutoranda em antropologia social pela Universidade de Brasília, tem como objetivo transformar o espaço em um local vivo, preservando e disseminando a memória coletiva dos povos originários.
Apesar das obras que impedem o pleno funcionamento, o MNPI não está parado, avisa Juliana: realiza uma série de ações e eventos culturais, como atividades com escolas, pesquisa e mostras temporárias. Tudo isso, ela ressalta, com o fortalecimento da presença dos povos indígenas na reconstrução do museu e na recuperação da própria história. Em 2024, por exemplo, o MNPI recebeu uma coleção de cerca de 600 artefatos indígenas, repatriados do Museu de História Natural de Lille, na França, para integrar o acervo etnológico e museológico. Um marco de resistência para os povos, avalia a diretora: “Os nossos acervos não são somente objetos, nunca devem ser olhados como objetos. Eles são seres vivos também, são corpos vivos. É entender o museu como um território indígena.”

CIÊNCIA HOJE: O antigo Museu do Índio recentemente se tornou o Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI). Qual é a importância dessa mudança de nome e sua ligação com a missão que o museu pretende exercer?

JULIANA TUPINAMBÁ: Um ponto importante para entender essa questão é a formação da sociedade brasileira, principalmente falando da educação básica. Não é colocado o que realmente aconteceu em 1500, com o processo da colonização. Não é colocada a questão de que esse termo pejorativo “índio” veio de os portugueses acharem que estavam chegando à Índia. Ele não é um termo que contempla a diversidade dos povos indígenas que somos. Além de ser um conceito pejorativo que não representa os povos indígenas. Essa mudança ocorreu devido à presença maior dos povos indígenas nos espaços administrativo e legislativo mais recentemente. Eu trago a memória da Joenia Wapichana, a primeira mulher indígena eleita deputada federal do Brasil. Ela foi a autora do projeto de lei que propôs a mudança do “Dia do Índio” para “Dia Nacional dos Povos Indígenas”. Propôs também a mudança da nomenclatura da Funai, de Fundação Nacional do Índio para a Fundação Nacional dos Povos Indígenas. E o museu faz parte da Funai, é o seu órgão científico e cultural. Entendemos também que não é somente uma mudança do conceito índio para indígenas. Mas sim que o termo indígenas, originários da terra, representa essa diversidade que somos enquanto povos indígenas. Nós somos ainda uma diversidade dentro do conceito indígenas, que ainda é muito pequeno para nós, mas é uma estratégia também em relação à garantia de direitos. Nós, povos indígenas, nos chamamos de parentes, porque somos unidos também pelo movimento, com o mesmo objetivo: o bem-viver e a demarcação dos nossos territórios. Então, isso nos une como parentes, e o conceito “indígenas” também vai se encontrar nesse lugar e no almejo de luta. Temos um objetivo de transformar o museu em um lugar de movimento, um espaço vivo.

Quando entra a primeira gestora indígena, Fernanda Kaingang, um dos passos dela é abrir a porta do museu, em 2024. E dando continuidade, o museu ainda permanece aberto. A questão é que o nosso orçamento não consegue fazer a reestruturação do casarão, que tem um custo de cerca de 12 milhões de reais

CH: O museu tem mais de 70 anos de história, mas passou muito tempo fechado e seu principal casarão permanece dessa forma. Por quê? Como vem sendo feita a reestruturação?

JT: Eu acho importante dizer que o museu não está fechado. Ele está com o espaço do casarão, que é o prédio maior, onde faziam as grandes exposições, fechado. Depois da última exposição, “Caminho das Miçangas”, em 2016, o museu fechou as portas. Quando entra a primeira gestora indígena, Fernanda Kaingang, um dos passos dela é abrir as portas do museu, em 2024. E dando continuidade, o museu ainda permanece aberto. A questão é que o nosso orçamento não consegue fazer a reestruturação do casarão, que tem um custo de cerca de 12 milhões de reais. Na gestão atual, nós já contemplamos um acordo de cooperação com o Instituto Pedra, que vem fazendo a reestruturação de vários outros patrimônios culturais. Ele irá fazer a captação de recursos para fazermos a reestruturação do prédio principal do museu. Nós temos um orçamento para manutenção prévia, que está em torno de 2 milhões, mas o que não foi feito foi a manutenção durante esses 10 anos em que o museu ficou fechado. Isso veio a agravar a situação, porque estamos em um lugar muito úmido. Então, a reforma exige recurso. É um projeto amplo.

CRÉDITO: FOTO PAULO MÚMIA/ACERVO DO MUSEU DO ÍNDIO

CH: Qual foi o cenário encontrado ao assumir a direção do MNPI? Como a sua trajetória, como mulher indígena e pesquisadora, se encontra com essa posição?

JT: Eu cheguei ao museu com uma nova estruturação da Funai, em 2025. Então, nós somos a construção de um novo regimento da própria Funai. Isso impactou na questão da organização funcional do museu. Temos muito poucos servidores, e eu chego, também, com as pessoas acostumadas com o museu fechado. Hoje, só temos o cargo da gestora, que é indígena. Isso também dificulta nesse processo de construção de entendimento dos não-indígenas para que eles compreendam um pouco da cultura dos povos indígenas nesse espaço. Quando nós, enquanto indígenas, assumimos esses cargos, existe o próprio racismo institucional. E isso não podemos levar em silêncio. Eu tenho quase 12 anos de concursada pelo estado da Bahia, e sou do primeiro concurso na categoria professor indígena. Sou liderança dentro do meu território, venho do sul da Bahia, território Tupinambá de Olivença. Atuei muito no movimento dos povos indígenas, tanto a nível regional, estadual, como também nacional. Fui diretora do departamento de mulheres do movimento Unidos dos Povos da Bahia, e também atuei na assessoria de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). Na minha trajetória acadêmica, sou geógrafa, pedagoga e antropóloga. Há a questão também de entender que nós, indígenas, somos a verdadeira expressão cultural, porque nós carregamos a cultura do nosso povo. Estar nesse espaço, como antropóloga e indígena, também é poder desconstruir esse lugar, é mostrar que é realmente um museu para nós.

Estar nesse espaço, como antropóloga e indígena, também é poder desconstruir esse lugar, é mostrar que é realmente um museu para nós

CH: Como o museu pode se mostrar um lugar de história e memória, mas também vivo na construção de futuro para os povos indígenas?

JT: O museu não é só um lugar de salvaguardar e proteger os acervos, mas sim de um potencial enorme para nós, povos indígenas, inclusive na retomada de técnicas que já não fazemos mais. Por exemplo, você contatar um povo sobre uma peça de cerâmica que hoje já não é mais feita significa reativar a sua memória, também reativando costumes que hoje já não são mais praticados. O espaço do museu é muito rico, porque os nossos acervos também estão relacionados às nossas próprias línguas e comunicações, tanto no campo espiritual, como também na retomada linguística. Por termos tantos acervos etnográficos e museológicos, tudo isso contribui, por exemplo, para o museu também ser um lugar de entendimento e de subsídio na luta pela demarcação das nossas terras. É também fortalecer a memória coletiva de vários povos indígenas que têm aqui os seus patrimônios materiais e imateriais. Porque os nossos acervos não são somente objetos, nunca devem ser olhados como objetos. Eles são seres vivos também, são corpos vivos. É entender o museu como um território indígena.

Os nossos acervos não são somente objetos, nunca devem ser olhados como objetos. Eles são seres vivos também, são corpos vivos. É entender o museu como um território indígena

CH: Qual é a importância da valorização do saber tradicional indígena e como é integrado às atividades do museu?

JT: A academia sempre foi um lugar de apropriação, em que a gente, enquanto indígena, era objeto de pesquisa. Sempre houve muito interesse no conhecimento tradicional dos povos indígenas, mas ele foi utilizado de uma forma que invisibiliza quem realmente é o detentor do conhecimento. O que temos, na verdade, é esse lugar de uma universidade robótica que colocou sempre o conhecimento, que é dado como ocidental, como superior aos demais. Esse é um modelo que começamos a desconstruir a partir da presença indígena. Levando a compreensão de que não somos mais objeto de pesquisas, mas somos pesquisadores protagonistas, defendendo os nossos direitos por meio de nossos trabalhos. Hoje, ainda há leis que não garantem o nosso conhecimento tradicional como um coletivo. Não compreende-se que um cântico do povo do Tupinambá, ele não é de Juliana Tupinambá, ele é do povo. Ainda temos esse lugar de sempre alguém precisar validar a nossa identidade como povos indígenas. Precisamos entender que esses projetos foram construídos no tempo colonial, por meio do imperialismo. Porque a partir do momento que os nossos territórios são invadidos e desmatados, nós perdemos o nosso conhecimento tradicional. Então não há cultura e não há garantia de continuidade de passagem e de geração dos nossos conhecimentos tradicionais. No museu, todas as atividades realizadas têm como pauta principal a questão indígena. Tudo que está aqui sob a nossa guarda também é envolvido no diálogo. Tudo o que fazemos no museu tem base no plano museológico, que foi construído pelos próprios povos indígenas. Acho importante falar sobre o trabalho que o museu está fazendo na gramática para muitos povos indígenas. Por exemplo, temos um acordo com a Unesco que nos possibilitou construir vários materiais com a gramática de línguas de alguns povos, principalmente de povos com contato recente e povos isolados.

Tudo o que fazemos no museu tem base no plano museológico, que foi construído pelos próprios povos indígenas

CH: Quais atividades o museu realiza?

JT: Como não estamos com o casarão, onde faríamos grandes exposições, nós temos uma pequena galeria onde há mostras menores. Em relação ao atendimento ao público, de pesquisa, por exemplo, temos recebido muitas pessoas para fazerem suas teses e seus trabalhos acadêmicos com material do museu. A gente recebe algumas visitas institucionais nos nossos acervos. Eu destaco que as portas do museu estão abertas. Inclusive, nós recebemos muita visitação de estrangeiros. Temos a educação museal, em que os nossos acervos são utilizados. Entendemos o papel do museu em aproximar o conhecimento dos povos indígenas a mais pessoas. Em relação à educação básica, queremos levar o conhecimento dos povos indígenas e contribuir para que as escolas façam o processo de desemparedar, tirar as crianças desse lugar de quatro paredes e colocá-las para terem vivências aqui, por meio dos nossos espaços de jardins, de visitação da nossa galeria e conhecer um pouco do nosso acervo. Temos também a qualificação, que são os indígenas vindo e tendo contato com os seus acervos. O museu é referência nesse processo, em que os indígenas identificam as peças, do que são feitas, se realmente são do povo deles. Temos também o Tainacan publicado, onde você consegue ver imagens de peças dos nossos acervos. E contamos com algumas exposições virtuais no site do museu, para o público ter acesso ao nosso material.

CH: De que forma o museu pode ajudar na sensibilização da sociedade e na construção de políticas públicas de valorização dos povos indígenas e de sua história?

JT: Os espaços que criamos no âmbito do museu levam para a sociedade a diversidade dos povos indígenas que somos. Convidamos indígenas de vários povos para participarem das nossas atividades, entendendo que é um espaço também de desconstrução. O museu proporciona a salvaguarda da memória dos povos indígenas. Mas para nós, como povos indígenas, essa memória causa reativações. Então, esse lugar que falamos da retomada da língua, de rituais e de técnicas, também é de levante de povos. Hoje falar dos acervos do museu é falar de corpos vivos, de memórias coletivas que têm ali o seu papel fundamental de fortalecimento da identidade dos povos indígenas a que pertencem. Esse lugar de sensibilizar a sociedade é de entender o acervo não como um mero objeto. Um colar do povo do Pombal é, também, a memória daquele povo, sua ciência. Na técnica que é usada, no tipo de semente, você vê um pouco do próprio território do povo. É a memória do território, é a memória do conhecimento tradicional. Ao mesmo tempo, os nossos acervos, que estão no âmbito do museu, servem também como lugar de resistência para os povos indígenas. Porque acionando esses acervos, eles também têm esse poder de lutar pelos seus direitos. Temos aqui o “relatório Figueiredo”, que foi encontrado no museu, que reúne documentos sobre o processo de violência contra povos indígenas na ditadura militar. São documentos que podem implicar uma reparação histórica e ambiental. Nesses espaços conseguimos contribuir para dar embasamento para projetos futuros de implementação de políticas voltadas à questão cultural indígena. Entendemos que o nosso público não é formado somente por povos indígenas, mas os não-indígenas também. Queremos que ele seja um espaço de desconstrução de uma sociedade que é preconceituosa e racista para com os povos indígenas. O museu tem esse papel cultural, social e também político.

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