‘É hora de colocar a ciência na dimensão das políticas públicas’

Jornalista, especial para a Ciência Hoje

A presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, destaca a importância de aprimorar o financiamento científico, reduzir as desigualdades regionais no investimento em pesquisa e ampliar o diálogo com a sociedade

CRÉDITO: JARDEL RODRIGUES/SBPC

De 26 de julho a 1º de agosto, a cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, recebe pesquisadores, professores, alunos e público em geral para a 78ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). É um momento de difundir os avanços da ciência para a população e debater políticas públicas para a área, com um foco específico em 2026: uma ciência centrada em soberania, desenvolvimento e inclusão. Esse é também o mote da gestão da primeira mulher nordestina a presidir a SBPC, a paraibana Francilene Procópio Garcia, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande.
“Mostrar que benefícios importantes para a população existem porque existe uma ciência por trás é essencial para o engajamento da sociedade e a compreensão da importância da ciência no dia a dia das pessoas”, afirma. Em entrevista à CH, a presidente da SBPC defende a melhoria da engenharia financeira para investimentos em ciência, com aprimoramento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), aborda a filantropia científica e o poder da diversidade na produção científica, com menor desigualdade regional e maior aproximação entre sociedade e cientistas. “O fato de eu estar no Nordeste, ser nordestina e presidir a SBPC é significativo. Traz um contexto de reflexão e de mudança. Mas precisamos de mais honestidade e generosidade como nação para saber usar da melhor forma todas as capacidades que temos, sem discriminações nem afirmações de baixo valor”, diz.

CIÊNCIA HOJE: A SBPC escolheu o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão” como central para a reunião geral deste ano. Qual é a importância desse enfoque num evento desse porte?

FRANCILENE GARCIA: A reunião anual da SBPC acontece há 78 anos e é o maior evento científico da América Latina, muito conectado aos momentos históricos do país. O tema escolhido para esta edição claramente merece atenção num ano eleitoral, quando serão tomadas decisões para composição do Executivo, no ambiente federal e nos estados, e para composição do Congresso e das Assembleias. É hora de colocar a ciência na dimensão das políticas públicas. O Brasil precisa assumir os investimentos em educação e em ciência como política de Estado de fato. E é preciso que a população entenda que suas escolhas implicam diretamente na possibilidade disso se transformar em realidade. Se temos vacinas, é porque existe uma ciência nacional que permite que ela chegue ao braço das pessoas. Se temos agricultura familiar orientada a uma produção mais sustentável, com segurança alimentar e que tira o Brasil do mapa da fome, é porque temos ciência. Precisamos mostrar que a ciência é para todos. É um investimento com um retorno essencial para a sociedade de um país ainda tão cheio de desigualdades. Esse debate, claro, tem que estar na reunião anual da SBPC, com as mais de 160 sociedades científicas afiliadas, um evento aberto ao público e gratuito, num momento tão decisivo para o país.

Precisamos mostrar que a ciência é para todos. É um investimento com um retorno essencial para a sociedade de um país ainda tão cheio de desigualdades. Esse debate, claro, tem que estar na reunião anual da SBPC, com as mais de 160 sociedades científicas afiliadas

CH: Quais são os principais obstáculos para que o financiamento científico seja de fato assumido como política de Estado?

FG: No cenário atual das universidades, responsáveis por 95% do conhecimento produzido no Brasil, ainda vivemos escassez de recursos no fomento à pesquisa em determinadas áreas. Há também a necessidade de aprimoramento do modelo de governança do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que é o principal instrumento público de financiamento de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Mas vivemos um momento novo. Na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2024, 14 anos depois do último evento do tipo, saiu a primeira Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação decenal – para o período de 2024-2034. Na prática, significa passar de um horizonte de governo de quatro anos para uma estratégia que deve mobilizar planos de ciência, tecnologia e inovação plurianuais. Uma política de Estado requer, entre outras coisas, que essa lógica seja estabelecida. Com isso, é possível começar a reconstruir um modelo de fomento com dimensão financeira assegurada, mesmo que demande melhoramentos. Hoje, o Brasil direciona cerca de 1,2% do PIB para a ciência. Ainda é muito pouco se compararmos com os países da OCDE {Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), cuja média de investimento é cerca de 2,5% do PIB. No fim desta década, devemos chegar a pelo menos 2% do PIB de investimento. Para isso, o financiamento precisa ser organizado com metas claras de crescimento, com continuidade, projetos estruturantes de médio e longo prazo. Também é necessária uma legislação favorável. A sanção do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, que ocorreu em 2016, e sua regulamentação em 2018 foram fundamentais para introduzir regras mais flexíveis para o fomento à pesquisa e reduzir a insegurança jurídica. A compreensão da importância da produção científica local é crucial para que o Brasil lide com a crise climática, a crise sanitária e outras que vivemos. Sem uma ciência aberta, plural, colaborativa, que não sofre retaliação, não se lida com nada disso.

CH: A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) prevê investimento de 2% do PIB em ciência até 2034, subindo a 5% em 2050. São metas viáveis? Que estratégias têm sido adotadas para alcançá-las?

FP: São metas totalmente viáveis. Cada vez mais pessoas reconhecem a importância do investimento em ciência, inclusive para reduzir os custos da máquina pública. Por exemplo, o maior sistema universal de saúde do mundo, que é o SUS, para transformar o atendimento básico da saúde nos mais de 5 mil municípios brasileiros, requer investimento em tecnologia, em pesquisa e em ciência. Se o SUS operar de forma mais qualificada, os custos para o governo caem. Outro exemplo: na Universidade Estadual da Paraíba, existe um núcleo de tecnologias estratégicas da saúde que trabalha com manufatura avançada e imagens 3D para melhorar a capacidade de intervenção cirúrgica dos traumatizados de acidente de moto. A ideia é que os pacientes saiam sem sequelas ou com as menores sequelas possíveis. Assim, também serão menos dependentes de outros tratamentos e benefícios. São exemplos que mostram que, onde a ciência chega, com investimento, sobram mais recursos para investir em outras áreas. É importante ressaltar, porém, a necessidade de haver uma engenharia financeira mais clara sobre os recursos destinados à educação e à ciência nos estados. É algo crucial para que essa meta de investimento possa ser alcançada. Essa engenharia financeira precisa racionalizar os investimentos de olho na dimensão de retorno, não com as restrições orçamentárias do arcabouço fiscal de hoje. Por exemplo, quando lidamos com uma ciência que garante segurança alimentar, por meio de investimentos na Embrapa e em universidades, cálculos mostram que cada R$ 1 investido nessa área gera R$ 27 em resultados. O investimento em áreas em que o país tem protagonismo, como a prospecção de petróleo em águas profundas, eleva a Petrobras a outro patamar. A aposta na formação e na geração de conhecimento de indústrias nacionais, como o complexo de aviação em São José dos Campos (SP), é outro exemplo de que escolhas pela educação e pela ciência dão retorno. Pensando então em 2050, qual é o melhor investimento que pode ser feito senão em educação de qualidade e em ciência soberana?

A compreensão da importância da produção científica local é crucial para que o Brasil lide com a crise climática, a crise sanitária e outras que vivemos. Sem uma ciência aberta, plural, colaborativa, que não sofre retaliação, não se lida com nada disso.

CH: A filantropia científica seria uma opção plausível e adequada ao contexto brasileiro, garantindo que não afete as obrigações do poder público?

FG: O Brasil possui instituições filantrópicas que atuam num conceito mais abrangente de grandes heranças fazerem doações em prol de propósitos específicos. Na educação e na cultura isso é mais comum, e, mais recentemente, na ciência. Porém, precisávamos ter resolvido algumas questões de legislação, porque, por vezes, a filantropia disputa espaço com o pagamento de impostos. E é preciso que o possuidor de grandes fortunas seja incentivado a fazer essa contribuição. Um desses incentivos seria a diminuição de impostos sobre o valor doado a um determinado propósito. Isso foi resolvido recentemente, e considero que hoje o ambiente é muito mais favorável a essa filantropia no país. O país começou a ter mais fundos baseados em endowments (ou fundo patrimonial). Inclusive, integro o conselho científico do Instituto Serrapilheira, que é um desses fundos que investem em ciência desde 2017. Seria ótimo ter mais desses exemplos, mas ainda precisamos organizar melhor algumas fragilidades para que o ambiente seja mais favorável. As ações não dizem respeito apenas aos doadores, mas também à própria confiança nas instituições. Na pandemia, por exemplo, vimos muitas universidades, como a UFRJ, que já tinha um fundo de doação constituído e recebeu doações para rapidamente produzir EPIs e outros equipamentos, que foram extremamente importantes. A SBPC tem um grupo de trabalho sobre esse tema, para formação de potenciais gestores de fundos de endowment voltados para a ciência, e isso tem sido discutido nas nossas reuniões, com a ideia de amadurecer e ampliar essa linha de atuação no país.

CH: Os recursos, porém, continuam concentrados no eixo Sul-Sudeste. Como enfrentar essa desigualdade regional na produção científica brasileira?

FG: O Sudeste representava mais de 70% dos investimentos em programas de pós-graduação, bolsas e infraestrutura laboratorial. Com a interiorização das universidades, isso vem mudando. Se compararmos os números do FNDCT de 2021 com os de 2025, hoje 40% da destinação de recursos é para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Nos programas de pós-graduação, as assimetrias reduziram ainda mais, com uma agenda ambiciosa da Capes. Porém, quando olhamos para grandes infraestruturas de pesquisa, por exemplo, para os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, os INCTs, que são redes de excelência nas grandes áreas de conhecimento no Brasil, ainda estão concentrados no Sul e Sudeste. Por que um INCT que estuda a Amazônia fica em São Paulo, e não num dos estados amazônicos? Ainda precisamos resolver problemas para que essas assimetrias regionais persistentes sejam reduzidas, e olhar para uma maior integração de programas de financiamento. É uma demanda que a SBPC tem debatido. Talvez o FNDCT possa oferecer, por um tempo, uma cota mínima para investimento em diferentes áreas nessas regiões que detêm menor investimento, até que o cenário mude. No âmbito dos estados, as Fundações de Amparo à Pesquisa têm evoluído, mas ainda há disparidades. Alguns estados possuem um percentual da receita corrente líquida do orçamento voltado para o investimento em ciência, enquanto outros não mantêm investimentos com regularidade ou sequer têm essa dotação vinculada. Falando de empreendedorismo inovador, o crédito incentivado operado pela FINEP com a NIB, a Nova Indústria Brasil, ainda está muito concentrado nas regiões Sul e Sudeste. Não há avanços no campo de ciência, formação e pesquisa nesse caso. E não serve como justificativa uma suposta dificuldade para as indústrias serem inovadoras e investirem em pesquisa fora desse eixo. Na verdade, falta clareza sobre a necessidade de ter mestres e doutores em todos os lugares do Brasil, e sobre a existência de formação qualificada de pessoas nesses lugares. Mesmo os fundos investidores, que são recursos importantes na linha de desenvolvimento de startups e crescimento de negócios inovadores, estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. São assimetrias que refletem discriminação e desconhecimento do país. É só pensar nas capacidades da região Centro-Oeste para a agroindústria, na capacidade dos biomas das regiões Norte e Nordeste para lidar com a mudança do regime climático, nas possibilidades de tratamento de doenças com base nos ativos dessas biodiversidades. A ciência tem lutado por uma representação mais igualitária e maior presença nas políticas públicas. O fato de eu estar no Nordeste, ser nordestina e presidir a SBPC é significativo. Traz um contexto de reflexão e de mudança. Mas precisamos de mais honestidade e generosidade como nação para saber usar da melhor forma todas as capacidades que temos, sem discriminações nem afirmações de baixo valor.

quando lidamos com uma ciência que garante segurança alimentar, por meio de investimentos na Embrapa e em universidades, cálculos mostram que cada R$ 1 investido nessa área gera R$ 27 em resultados

CH: A presença de mais mulheres presidindo grandes instituições científicas, além da SBPC, na Academia Brasileira de Ciências, na Capes, no próprio Ministério da Ciência, é sinal de mudança efetiva ou ainda são casos pontuais?

FP: Confio na mudança, só não acho que exista uma postura de equidade já instalada. Sou professora de Computação e, na área de exatas na universidade, menos de 30% são mulheres. Isso quer dizer que as lideranças dos próximos anos continuarão sendo, principalmente, homens. Na área de STEM de modo geral, mulheres ainda somos minoria. Ainda temos salários inferiores. Ao mesmo tempo, não existe nada que distinga a capacidade das meninas em relação aos meninos na escolha por um curso da área de exatas. Muito pelo contrário. É só olhar o Prêmio Carolina Bori, da SBPC, que reconhece meninas e mulheres cientistas. Talvez se nos próximos dez anos mantivermos mulheres ocupando cargos de liderança poderemos dizer que se está estabelecendo um real padrão de mudança.

O fato de eu estar no Nordeste, ser nordestina e presidir a SBPC é significativo. Traz um contexto de reflexão e de mudança. Mas precisamos de mais honestidade e generosidade como nação para saber usar da melhor forma todas as capacidades que temos

CH: Como a valorização da diversidade na ciência influencia também sua popularização? O que precisa ser feito para uma ciência mais acessível e que se comunique melhor, para além da academia?

FP: Tem havido avanços, com várias iniciativas da SBPC, mas não só, que trabalham a necessidade da ciência se comunicar com a população. Isso inclui trabalhar com diferentes formatos de veículos, linguagens mais acessíveis e, sobretudo, sem parar no tempo. Temos que estar nas plataformas que as pessoas usam. Se tivermos que combater fake news e ser assertivos no TikTok, é lá que temos que estar. Inclusive a SBPC criou uma premiação de divulgação científica que este ano é só com o TikTok, mas deve se estender a várias plataformas na próxima edição. Precisamos levar essa ciência de qualidade a mais gente, construir junto com divulgadores de ciência, incentivar a juventude, pesquisadores, alunos de mestrado e doutorado a pensarmos em como alimentar o bom jornalismo científico. É algo fundamental não só para combater campanhas de desinformação como para incentivar as pessoas a consumirem bons conteúdos, entenderem a importância de se investir em ciência e construirmos uma ponte para que esse engajamento aconteça. O TikTok não foi escolhido à toa. Existe uma geração hoje que faz pesquisa nessa plataforma, não usa outros buscadores. É uma geração extremamente conectada, que se apropria do conhecimento de outra forma. Faço parte de uma geração mais antiga, a própria SBPC é uma senhora de quase 80 anos, mas precisamos saber dialogar com essa juventude, que é quem vai determinar destinos futuros do planeta.

Como um presidente da Câmara tem orçamento para emendas maior do que o de vários ministérios, inclusive do MCTI? O desafio não é apenas o negacionismo da crise climática, mas também a recusa de se alterar o status quo

CH: Falando em futuro, existe um distanciamento entre a produção científica e as decisões políticas concretas relacionadas a clima e meio ambiente. Como ciência e sociedade podem chegar efetivamente aos tomadores de decisão? Que ações seriam mais urgentes?

FP: É importante lembrar a população num ano de eleições gerais que os rumos da vida humana no planeta não serão para a geração que está aqui, mas dependerão muito das decisões tomadas agora. O primeiro ponto, então, é não delegar decisões importantes a quem não tem capacidade para tomá-las. Vivemos um momento anticiência, basta olhar para o presidente dos Estados Unidos. Enquanto as escolhas estiverem sob liderança de pessoas equivocadas, por mais que a ciência esteja presente, dando alertas, essas evidências serão ignoradas. Isso precisa ficar claro em ano eleitoral. Quando o Congresso Brasileiro derruba dezenas de vetos da lei ambiental, mostra que os parlamentares que nós colocamos lá têm grande impacto na construção de um ambiente de risco, num país já com inúmeros exemplos de destruições causadas por decisões erradas e precipitadas. Precisamos esbravejar. E o papel dos veículos de comunicação também é fundamental para mostrar que, se essas pessoas continuarem sendo eleitas, continuarão tendo a mesma atitude. Mais uma vez, a sociedade precisa ser informada, se engajar, escolher bem seus representantes e cobrar deles. Falta um plano de metas que diga claramente para quando será o carbono zero no país. Morei na China e volto lá com muita frequência. Nos anos 1990, havia dias que acordava em Beijing e só via aquela nuvem escura. Hoje, a maior parte dos carros na China são elétricos. A política de descarbonização nos meios de transporte foi adotada com metas específicas e investimento. Agora é o momento de implementação do Mapa do Caminho, depois da COP-30 no Brasil, e o país pode ser protagonista. Mas precisa ter metas mais ambiciosas. Ao mesmo tempo, há questões complexas que vão além da ciência. Como um presidente da Câmara tem orçamento para emendas maior do que o de vários ministérios, inclusive do MCTI? O desafio não é apenas o negacionismo da crise climática, mas também a recusa de se alterar o status quo. Quando era jovem graduanda, eu tinha sonhos. O brasileiro se identifica com o futebol, mas falta uma identidade sobre um sonho de país. Pode ser o sonho com um país com a melhor qualidade de vida, porque daí virá o resto: um país com a melhor saúde pública, o melhor ensino, que forma bons cientistas, explora bem sua biodiversidade e respeita os limites da natureza. Não é um projeto de um setor ou de uma pessoa. É algo significativo que deve conectar várias gerações na construção dessa identidade de país.

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