Historiadora e diretora-geral do Arquivo Nacional analisa como a região entre a área portuária e o centro do Rio de Janeiro guarda locais de memória, resistência e disputa de um passado escravocrata que o país insiste em silenciar
Historiadora e diretora-geral do Arquivo Nacional analisa como a região entre a área portuária e o centro do Rio de Janeiro guarda locais de memória, resistência e disputa de um passado escravocrata que o país insiste em silenciar
CRÉDITO: ACERVO PESSOAL

A partir do maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, ergueu-se uma África em miniatura. Localizada entre a zona portuária e a área central da capital carioca, a região revela uma diversidade de locais de memória, resistência e disputa da população negra-africana. Seu mapeamento é complexo, e a especulação imobiliária ameaça a continuidade da presença da população local. Na contramão do apagamento de suas histórias e personagens, o livro Pequena África: histórias, memórias e personagens num museu de território (Letra Capital, com o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos) é um convite a adentrar essa região por dois eixos: um de dor e sofrimento e outro, de transformação e protagonismo – ambos a partir do tráfico atlântico de pessoas africanas escravizadas, o maior crime já cometido contra a humanidade, como reconhecido recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU).
“Frente a um crime, é necessário ter políticas compensatórias, e isso vale para essa população longamente vitimizada, mas não por isso transformada num objeto inerte. Foi uma população que sofreu muito, e aquela imagem do tronco fica colada na retina da nossa memória, mas também uma população que reagiu, lutou, se posicionou e criou o tempo todo”, afirma a historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Monica Lima, coautora do livro com a historiadora Martha Abreu.
A publicação propõe um roteiro com conteúdo detalhado por 15 locais de memória da “Pequena África” carioca. “É um livro pelo não esquecimento e pelo fortalecimento dessa memória. Essa é uma forma de reparação. Não é a única, nem deve ser. Há muito mais a se fazer, mas é uma afirmação da existência negra-africana”, explica a também diretora-geral do Arquivo Nacional e editora científica da CH. Confira na entrevista a seguir.
CIÊNCIA HOJE: O que é a “Pequena África” no Rio de Janeiro e como surgiu essa expressão?
MONICA LIMA: A “Pequena África” é uma região localizada entre a área portuária e a área central da cidade do Rio de Janeiro. O nome nasceu de uma expressão formulada pelo músico e artista plástico multitalentoso Heitor dos Prazeres (1989-1966), que se refere a essa região como uma África em miniatura. Ali havia muita circulação de africanos oriundos do tráfico atlântico de pessoas africanas escravizadas e seus descendentes diretos, mas sobretudo de uma cultura de matriz africana. Essa expressão ficou marcada nos anos 1980, quando alguns acontecimentos sinalizaram a africanidade desse lugar de presença e permanência da cultura negra. Um deles foi o tombamento da Pedra do Sal, que se tornou patrimônio estadual ligado à herança negra. Outro marco foi a criação do Centro Cultural José Bonifácio, onde funcionava uma antiga escola, a Escola José Bonifácio. Ambos os logradouros se situam na região portuária, dentro desse território da “Pequena África”. Houve também a colocação da estátua de Zumbi dos Palmares no centro da Avenida Presidente Vargas, em frente ao local onde havia sido a antiga Praça Onze. Ali moraram pessoas importantes da cultura negra carioca, como Tia Ciata (1854-1924). Era lugar também dos festejos de carnaval e dos desfiles antes da construção do Sambódromo e da Passarela do Samba. Esses marcos assinalam a existência dessa “Pequena África” que posteriormente seria mobilizada em diferentes textos, discursos e políticas públicas. Mas seu mapeamento é complexo. Como a história é viva, a “Pequena África” é também um conceito em permanente redefinição.
CIÊNCIA HOJE: Por que demorou para que essa região fosse reconhecida como espaço de referência negra, e o que isso diz sobre como o país trata sua história?
ML: Já na década anterior à 1850, pouco antes do fim do tráfico de pessoas africanas escravizadas, era visível um projeto de apagamento. A referência à existência da escravidão e à presença negra era feita de forma envergonhada, não assumida, talvez porque àquela altura as grandes potências, que se pretendiam arautos da civilização, condenassem explicitamente a escravidão e o tráfico. O Brasil foi encontrando formas de mascarar esse racismo e fazer com que essa presença predominante negra e africana ficasse apagada dos livros de história, dos nomes de logradouros. Um exemplo é o Hino à República, escrito logo após a Proclamação da República, em 1890, dois anos depois da lei que aboliu a escravidão, e que traz uma estrofe que diz que mal se podia recordar que outrora houve escravos neste país. Como outrora, se fazia pouco do fim da escravidão, e as pessoas que tinham sido escravizadas estavam ali, pulsantes e presentes? Havia já uma política oficial de apagamento da história dessa presença negra africana e da importância da escravidão para a construção do Brasil. Esse processo incluiu as referências ao território de presença negra e da história negro-africana e sua importância. Incluiu, também, um projeto de remodelação da cidade. No início do século 20, houve uma série de reformas urbanas no Rio de Janeiro, com a alteração de traçado de ruas e abertura de grandes avenidas, o que derivou na expulsão da população africana e de origem africana das áreas centrais. Casas foram derrubadas, cortiços foram destruídos para a abertura de ruas. Essa população teve de migrar das áreas centrais e perto do porto, onde trabalhavam, e se instalar ao longo da linha férrea em direção à então periferia da cidade, ocupando os morros, como o morro da Mangueira, que é a estação primeira porque era a primeira estação de trem. Muitos foram para as áreas de subúrbio, buscando onde pudessem ter uma casinha e uma “roça”, para poderem produzir gêneros de sobrevivência.
Como a história é viva, a “Pequena África” é também um conceito em permanente redefinição
CIÊNCIA HOJE: Qual é a importância de manter essa memória viva? Como o livro “Pequena África: histórias, memórias e personagens num museu de território” se encaixa no objetivo de marcar as referências históricas, indicando um roteiro a ser sinalizado e reconhecido nessa região?
ML: O território da “Pequena África” hoje é um produto valorizado como referência turística. Há toda uma mobilização do capital de turismo de memória que engloba visitantes, bares, restaurantes, atividades culturais com visibilidade. O desvelamento e a patrimonialização do Cais do Valongo produziram um novo movimento para a região, tornando a “Pequena África” um grande produto do turismo carioca, mas com alto risco para a população local, que, apesar de reduzida, nunca deixou de existir. Começou o conhecido processo de gentrificação: a moradia e a vida ficaram caras. As pessoas começaram a receber ofertas para venderem suas residências, que seriam transformadas em hostel, patrimonializadas ou derrubadas, num processo que repercutiu naqueles que são os guardiões daquela memória. Não dá para pensar a “Pequena África” sem seus habitantes. Por outro lado, surgiram também projetos de criação de espaços museais, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio, na Praça Mauá. O livro “Pequena África” surgiu do sonho de demarcar esse território, e de que os lugares de memória tivessem placas identificadoras, com seus personagens. Partiu de uma iniciativa da Unesco para construir um projeto para o Museu de História e Cultura Afro-Brasileira, o Muhcab, junto com a Secretaria de Cultura do Rio, há alguns anos. A historiadora Martha Abreu e eu fizemos toda a parte de conteúdo histórico. Infelizmente, a etapa de concretização dessa sinalização e demarcação do museu de território não foi concluída pelo governo na ocasião. Mas plasmamos no livro esse conteúdo, para que todas as pessoas interessadas, pesquisadores, professores, guias de turismo, lideranças locais, se apropriem dele, com a esperança de que algum dia isso se realize de fato.
CIÊNCIA HOJE: O livro aborda o conceito de “museu de território”. O que significa pensar um território vivo como museu, e como isso desafia a ideia tradicional de museu?
ML: O conceito de museu de território vem da teoria museal e dos estudos de museologia. E já estava presente na época de produção do Muhcab, que seria o núcleo irradiador desse museu de território. Antes dele, as pessoas já faziam um percurso pelos lugares de memória da região, com um projeto chamado Passados Presentes, e com iniciativas do Instituto de Pretos Novos. Já existia um mapa com esse roteiro que explicava a região do entorno do Cais do Valongo, passando por diferentes pontos do território. Mas a proposta de nomear como museu de território era, de fato, reconhecer um movimento que vinha acontecendo. Cada lugar ali conta uma parte dessa história de presença negra, e essas partes se relacionam, ainda que muitas vezes em diferentes épocas no tempo. E isso dá a perspectiva de um museu, mantendo o eixo da presença negra-africana e de suas manifestações culturais. Foi natural, então, pensar num museu de território. Martha Abreu e eu trouxemos dados de pesquisas, em diálogo com a museóloga Gegê Leme Joseph, uma brasileira há muito tempo radicada na África do Sul e que trouxe o ponto de vista da Museologia, e em diálogo com pessoas do território e de fora dele referenciadas no movimento negro. Constatamos que aquela região contava várias histórias por meio de seus personagens, que são nossos guias por esse museu de território que é vivo e é mutante.

A professora Monica Lima em visita guiada com estudantes na região da Pequena África
CRÉDITO: PEDRO MARRECA / ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Casas foram derrubadas, cortiços foram destruídos para a abertura de ruas. Essa população teve de migrar das áreas centrais e perto do porto, onde trabalhavam, e se instalar ao longo da linha férrea em direção à então periferia da cidade
CIÊNCIA HOJE: O roteiro é composto por 15 pontos. São locais de resistência, memória, disputa ou tudo ao mesmo tempo?
ML: Tudo combinado, e o livro divide esses lugares em dois eixos. O primeiro é de dor e sofrimento. Traz apenas três lugares, mas muito densos, que dão um significado profundo a essa região: o Cais do Valongo com o Armazém Docas André Rebouças, o Mercado de Escravizados e o Cemitério dos Pretos Novos, descoberto em 1996 no subsolo da casa de Mercedes e Petruccio Guimarães dos Anjos. São locais que denunciam essa face da presença negra africana no nosso país e que ancoram a identidade do lugar com os espaços de afirmação, transformação e protagonismo do eixo dois. Neste eixo, são 12 lugares de presença viva da memória, da cultura, da criação e da inteligência negras. Estão a Pedra do Sal, onde se reuniam Donga, Pixinguinha, João da Baiana, local de nascimento do samba carioca. Está o Centro Cultural José Bonifácio, um centro de cultura de reunião e exposição de artistas negros. A cabeça de Zumbi dos Palmares é também um símbolo da resistência negra. Está o edifício Docas André Rebouças, e o Mirante da Pequena África, no Morro da Conceição, em frente ao Mercado de Escravizados, um lugar que mira para outros processos de afirmação e de criação. Fica perto da Rua Barão de São Félix, onde havia a Associação Chora Macumba, uma associação carnavalesca, onde também houve o Terreiro de João Alabá. O roteiro conclui com a Praça Mauá, que era conhecida como Prainha, e já teve até uma forca. Hoje é um lugar de encontros e desencontros, feiras e museus vivos, como o Museu de Arte do Rio, com tantas exposições afro-referenciadas, e o Museu do Amanhã. São locais que não têm a ver apenas com a história do Rio de Janeiro, mas com a história da presença negra africana em outras áreas do Brasil. Na época de funcionamento do Cais do Valongo, nas três primeiras décadas do século 19, a população africana escravizada que chegava partia dali para toda a região Sudeste, Minas Gerais, sobretudo, mas também para São Paulo e para a região Centro-Oeste. Às vezes, um mesmo navio que chegava ao Rio levava as pessoas para Porto Alegre, Montevidéu, Buenos Aires.
CIÊNCIA HOJE: O roteiro proposto inicia justamente pelo Cais do Valongo. Por que ele é tido como eixo central do percurso?
ML: A população negra africana que entra pelo Cais do Valongo e que é levada para o interior do estado do Rio, para Minas Gerais ou São Paulo, para as plantações de café, também volta para o Valongo. É um lugar de idas e vindas. Quando ocorre o declínio do café no Vale do Paraíba, parte das famílias retorna, e isso também alimenta a presença negra na região portuária e seu entorno. Era uma população já liberta, não mais escravizada, com certa mobilidade. E o porto do Rio de Janeiro naquele momento era importante, havia trabalho para descarregar navios, transportar mercadorias. Dali surgiram vários movimentos que marcam a cidade. Muitos dos mais reconhecidos artistas, criadores de escolas de samba e do samba carioca e das agremiações negras eram nascidos no interior do estado do Rio ou em Minas Gerais que migraram para a cidade com suas famílias. Clementina de Jesus e Martinho da Vila, por exemplo. Ela de Minas, ele do interior do Rio, de famílias que haviam sido escravizadas, que tinham entrado pelo Cais do Valongo, e foram levadas ou tinham migrado para o interior e depois voltado para a cidade em busca de melhores condições de remuneração e trabalho.
O desvelamento e a patrimonialização do Cais do Valongo produziram um novo movimento para a região, tornando a “Pequena África” um grande produto do turismo carioca, mas com alto risco para a população local, que, apesar de reduzida, nunca deixou de existir
CIÊNCIA HOJE: Como foi o processo de reconstruir as trajetórias dos personagens retratados no livro e associados a cada lugar de memória?
ML: A “Pequena África” só pode ser entendida se olharmos a história das pessoas dali. Para o livro, começamos colhendo as histórias que conhecíamos um pouco mais, a partir de pesquisas científicas e de histórias que os próprios moradores referenciavam, pela oralidade local. Lideranças locais e lideranças do movimento negro também deram suas contribuições. Um personagem que eu conhecia pouco é o José Angola, que vendia objetos de madeira e que olhava o Valongo lá do alto do Corcovado. Ele dizia que o Valongo era o lugar que ia levar a saudade dele para a África. Ele entendeu que o Valongo era também o caminho em direção ao continente africano. Outro personagem interessante é a Dona Florinda Gaspar, que morava na rua Barão de São Félix e era uma africana rica, filha de um chefe em Benguela. Ela nunca foi escravizada e andava pelas ruas do Valongo elegantemente vestida. Está também a diretora e professora negra da escola José Bonifácio, onde passou a ser o Centro Cultural José Bonifácio e onde está também o Muhcab. E ainda a figura de Hemetério dos Santos, um professor e intelectual negro de prestígio numa época em que o racismo científico era tido como verdade. Essas histórias tinham de estar no livro. Falam de uma população africana e afrodescendente que produz afirmação e beleza até hoje, e alertam que essa herança é nossa, da população brasileira.

A “Pequena África” só pode ser entendida se olharmos a história das pessoas dali. Para o livro, começamos colhendo as histórias que conhecíamos um pouco mais, a partir de pesquisas científicas e de histórias que os próprios moradores referenciavam, pela oralidade local
CIÊNCIA HOJE: Na contramão do apagamento dessas histórias, o livro é construído sob a perspectiva da história pública. Qual é a importância de reivindicar essa história que interfere nas representações públicas sobre o passado? O Brasil ainda resiste a encarar seu passado escravocrata?
ML: A história pública é um termo que tem se fortalecido nas últimas décadas e que tem a ver com o sentido da própria história. É uma história comprometida com a divulgação do conhecimento histórico para o grande público e com a ampliação do conhecimento sobre ela própria. Por isso que ela é pública, pois é feita pensando no diálogo da pesquisa com esse público, incorporando as histórias das pessoas. Nem toda história pública tem como resultado esperado o fortalecimento da demanda por reparação. Mas no caso em questão, certamente, tornar essa história conhecida, e que a população visite essa região, conheça essa história e passe a sentir a importância de uma política de reparação é um desdobramento necessário. Os três lugares de memória do primeiro eixo, o Cais do Valongo, o Mercado de Escravizados e o Cemitério dos Pretos Novos denunciam a violência sofrida pela população africana trazida para cá, nossos ancestrais. A dimensão que essa denúncia adquire aos nossos olhos fortalece a demanda por reparação. Recentemente, a ONU reconheceu que o tráfico atlântico de pessoas africanas escravizadas foi o mais grave crime cometido contra a humanidade. E esses lugares são prova disso. Visitá-los e transitar por eles ajuda a não esquecer.
A história pública é um termo que tem se fortalecido nas últimas décadas e que tem a ver com o sentido da própria história. É uma história comprometida com a divulgação do conhecimento histórico para o grande público e com a ampliação do conhecimento sobre ela própria
CIÊNCIA HOJE: Como as pessoas podem “aprender a ler” esses locais nem sempre visíveis na paisagem urbana? A escrita do livro também é um gesto de reivindicar essa memória e pedir ação?
ML: Contar a história com o museu de território é uma forma de reivindicação. Primeiro, por políticas públicas para a divulgação dessas histórias, dessas memórias, para que as pessoas do lugar sejam incorporadas aos processos de criação de espaços culturais e museais na região. Para lembrar que temos de fortalecer o ensino de história da cultura africana e afrodescendente no Brasil. É um dever do Estado brasileiro e da sociedade brasileira consigo mesma e em especial para com essa população negra. Ao mesmo tempo, a existência dos roteiros na região da “Pequena África” carioca já despertou a vontade em outros lugares do Brasil de também criarem seus próprios roteiros. Isso é legal na história pública, porque ela deflagra nas pessoas o reconhecimento de suas próprias histórias. Isso brota como uma força que não é só emotiva, mas que também gera vontade de saber mais. Esse é o objetivo.
A existência dos roteiros na região da “Pequena África” carioca já despertou a vontade em outros lugares do Brasil de também criarem seus próprios roteiros. Isso é legal na história pública, porque ela deflagra nas pessoas o reconhecimento de suas próprias histórias. Isso brota como uma força que não é só emotiva, mas que também gera vontade de saber mais
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