A costureira, o polvo e a invenção do aquário

Laboratório de Biologia de Anaeróbios
Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

A francesa Jeanne Villepreux-Power desenvolveu técnicas inovadoras para a biologia marinha e solucionou um mistério que intrigava até os antigos gregos

Ilustração de Argonauta argo feita por Jeanne Villepreux-Power, em 1839

CRÉDITO: FLICKR.COM/FOTO DE EVE GOODSON/ CC BY 2.0

As praias da cidade de Messina, na Sicília, são deslumbrantes. Suas águas, do Mar Mediterrâneo, têm tonalidade verde cristalina que mesmeriza os turistas. A costa é marcada pelo encontro entre montanhas e as águas do Estreito de Messina, salpicada de pequenas enseadas que se alternam com extensas faixas de areia. Esse belo cenário é um dos hábitats de um animal curioso, o náutilo-de-papel (Argonauta argo), um molusco cefalópode, que, apesar do nome, é efetivamente um polvo – e não está relacionado aos náutilos da família Nautilidae.

Sua anatomia gera curiosidade desde muito tempo. As fêmeas têm um par de braços modificados, mais longos e com extremidades achatadas que lembram raquetes de tênis. Além disso, elas produzem um tipo de concha que não é típica de cefalópodes (como as conchas dos Náutilos verdadeiros): uma inovação evolutiva exclusiva do gênero Argonauta. Os gregos da antiguidade acreditavam que esses polvos nadavam pela superfície do oceano, usando as conchas como um barco e seus braços modificados como velas. Por isso, o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 AEC) os chamava de argonautas, que, na mitologia grega, eram os marinheiros que acompanharam as muitas aventuras do herói Jasão em seu barco Argo.

Essa criatura idílica inspirou a cientista autodidata Jeanne Villepreux-Power (1794-1871) a desenvolver métodos para o estudo dos animais marinhos à frente do seu tempo, que a tornaram uma pioneira na pesquisa em biologia marinha. Entre seus feitos, está a invenção do aquário e ser uma das primeiras pessoas a sugerir que o uso da aquicultura poderia proteger e recuperar populações de peixes e outras formas de vida marinha. Mas até encontrar a ciência percorreu caminhos tortuosos.

Jornada acidentada

Jeanne nasceu na pequena vila de Juillac, no sul da França. Seu pai era um sapateiro e sua mãe costureira, ofício que ela ensinou às suas filhas. Como muitas meninas daquela época, Jeanne não podia frequentar a escola, mas sua mãe era letrada e a ensinou a ler e escrever. Em 1805, aos 11 anos, ficou órfã de mãe, mas seguiu o ofício materno e se tornou exímia costureira e bordadeira. Em 1812, foi convidada para ser costureira em Paris, e Jeanne prontamente aceitou a oportunidade. Como ainda era menor de idade e não podia viajar sozinha, um primo, que conduzia rebanhos de ovelhas, ficou responsável por conduzi-la. A viagem foi longa, 16 dias e 480 quilômetros a pé! No meio do caminho, foi agredida e roubada pelo próprio primo que a conduzia. Todos os seus documentos foram roubados, e Jeanne foi obrigada a morar em um convento por alguns meses, até que novos documentos chegassem. Quando conseguiu completar a viagem até Paris, sua vaga de emprego havia sido preenchida. Por sorte, uma outra grande costureira da cidade a acolheu como aprendiz, e logo percebeu seu talento.

Nesse novo emprego, Jeanne auxiliou na confecção do vestido de casamento da princesa Maria Carolina de Bourbon (1798-1870), vinda da Ilha de Sicília, e que iria se casar com o sobrinho do então rei da França. Foi nessa ocasião que ela conheceu e se apaixonou pelo rico comerciante inglês James Power. Os jovens se casaram em 1818, em Messina, na Sicília, onde Jeanne passou a morar.

Rica, sem precisar mais trabalhar como costureira, Jeanne passou a se dedicar a outra paixão, as ciências naturais. Ela era uma ávida leitora e aprendeu sozinha sobre biologia e química. Fascinada com a riqueza natural da região, explorava as praias de Messina e colecionava espécimes de todos os tipos de animais e plantas, que eram mantidos em frascos em um laboratório que montou em casa. Além de autodidata, ela desenhava com muita habilidade, e suas ilustrações da vida marinha eram apreciadas pelos cientistas da Accademia Gioenia di Catania, a mais prestigiosa sociedade científica da Sicília.

Entre todos os seus espécimens, Jeanne ficou particularmente fascinada pelo polvo náutilo-de-papel, o Argonauta argo. Apesar de muito estudado, o polvo ainda era, sob muitos aspectos, um mistério para a ciência, seu ciclo de vida era desconhecido, assim como sua forma de reprodução e outros detalhes da sua biologia. Os cientistas já sabiam que a concha, era na verdade uma ooteca (um compartimento onde o polvo fêmea deposita seus ovos), porém ninguém sabia de onde vinha essa concha. Eram produzidas pela fêmea do polvo ou eram conchas abandonadas por outros animais, da mesma forma que o caranguejo-eremita (Calcinus laevimanus)?

Foto de conchas de náutilo-de-papel (Argonauta argo). À direita, Jeanne Villepreux-Power, fotografada por André-Adolphe-Eugène Disdéri

CRÉDITO: (FOTO À ESQ.) © BRUNO MANUNZA/STOCK.ADOBE.COM. (FOTO À DIR.) DOMÍNIO PÚBLICO

Pesquisa no aquário

A pesquisadora teve ideias inovadoras e muito à frente do seu tempo para estudar a biologia do náutilo-de-papel. Ela acreditava que a simples observação e dissecação de animais adultos não traria as respostas para suas perguntas, e era necessário estudar os diferentes estágios da vida desse animal. Assim, criou tanques de vidro, que enchia com água do mar, e colocava seus espécimes. Esses foram os primeiros aquários, tornando Jeanne a fundadora do aquarismo.

Em seus aquários, Jeanne observou filhotes desde a eclosão do ovo, acompanhando o crescimento do náutilo-de-papel desde o seu estágio larval. Ela percebeu que poucos dias após a eclosão dos ovos, as fêmeas começavam a produzir uma fina estrutura: era a tal concha. Jeanne havia solucionado o primeiro mistério cercando o náutilo-de-papel. Ela também criou uma gaiola para moluscos de maior porte, que poderia ancorar a diferentes profundidades no mar. Com esses equipamentos, ela fez outra descoberta: percebeu que se furasse as conchas com uma agulha, o animal era capaz de remendá-las, utilizando uma substância secretada por uma estrutura membranosa nos braços modificados. Ela publicou seus resultados nos anais da Accademia Gioenia di Catania, em 1837.

Hoje, sabemos que essas conchas são compostas por calcita e 7% de carbonato de magnésio, e são secretadas por estruturas especializadas pelos dois braços modificados. Essa concha funciona como um ninho para os ovos da fêmea, que vive ali dentro protegendo os ovos de predadores até a eclosão. Ela também usa a concha para flutuar na água, enchendo-a de ar para equilibrar com o peso do seu corpo enquanto nada sob a água.

Aqui um parêntese na saga Villepreux-Power: os polvos não têm tentáculos! Essas estruturas são encontradas em outros animais marinhos, como lulas e águas-vivas. Os polvos têm braços. A diferença entre braços e tentáculos está na forma, no uso e na origem. Os braços têm ventosas ao longo de toda sua extensão e são utilizados para locomoção e manipulação de objetos. Já os tentáculos têm ventosas apenas na extremidade e são utilizados principalmente para capturar presas.

Ao longo de suas pesquisas, Jeanne trocou correspondências com diversos cientistas europeus, notoriamente o famoso naturalista britânico Richard Owen (1804–1892) que considerou os experimentos dela muito conclusivos e os apresentou à Sociedade Zoológica de Londres em sessão de 1839, concluindo que a questão da origem da concha do náutilo-de-papel estava resolvida, e ressaltando a importante contribuição científica da pesquisadora.

Como era de se esperar, poucos anos depois dos experimentos de Jeanne com seus aquários, outros inventores passaram a reivindicar a invenção. Richard foi rápido em remediar a situação, e, em uma contribuição para a Encyclopedia Britannica, reconheceu que o mérito da invenção do aquário e de seu uso no estudo dos moluscos deveria ser atribuído unicamente a Jeanne Villepreux-Power.

Uma “gaiola à la Power” de madeira, desenhada por Jeanne Villepreux-Power

CRÉDITO: DOMÍNIO PÚBLICO

Naufrágio e legado

Com o intuito de preservar seus achados, Jeanne enviou para Londres toda a sua coleção científica, incluindo os móveis de seu laboratório, manuscritos, ilustrações e grande parte dos espécimes preservados que havia reunido ao longo de mais de 25 anos de pesquisa. No entanto, o navio que transportava esse valioso acervo naufragou, resultando na perda irreparável de praticamente todo o legado científico material. Em 1842, Jeanne e seu marido se mudaram para França, onde ela viveu até seu falecimento, em 1871.

Com o passar do tempo, o nome e as contribuições científicas de Jeanne acabaram caindo no esquecimento. Felizmente, nos últimos anos, suas pesquisas e a invenção do primeiro aquário ganharam maior reconhecimento, muito devido aos esforços de pesquisadoras da Accademia Gioenia di Catania. Em 1997, uma cratera em Vênus, descoberta pela sonda Magellan, recebeu o nome Villepreux-Power em homenagem a ela.

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