Declínio da megafauna marinha no Brasil

Laboratório de Macroecologia Marinha e Conservação
Departamento de Ecologia e Evolução
Universidade Federal de Santa Maria (RS)
Rede Programa de Pesquisa em Biodiversidade IntegraMAR
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Avistar uma baleia esguichando água ou um peixe-boi nadando perto da superfície do mar na costa brasileira é, sem dúvida, um fato surpreendente. Mas isso já foi algo corriqueiro. Prova disso são os relatos feitos por cronistas, naturalistas e viajantes do passado. Mas, exercida ao longo de séculos, a pesca predatória de nossa megafauna marinha deixou um legado nocivo que perdura até hoje: ecossistemas menos complexos, cadeias alimentares alteradas e biodiversidade reduzida. É nosso dever proteger o que restou.

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Imagine-se navegando, com seu barco cortando suavemente as ondas, a espuma da água do mar subindo e escorrendo lentamente pela proa. Seguindo sua embarcação, imensos cardumes de grandes peixes e golfinhos, centenas deles.

No horizonte, uma dezena de baleias espirram água ao subir à superfície para respirar e, mais adiante, em calmas águas costeiras, um grupo de peixes-boi, mães com seus filhotes, nadam na direção de um estuário.

Esse cenário encantador poderia ser uma fiel descrição dos mares que banham a costa brasileira. Hoje, porém, essa paisagem está longe de ser a realidade.

Centenas de anos atrás, quando europeus aportaram no Brasil, a quantidade de peixes e tubarões, bem como de mamíferos, como baleias, golfinhos e peixes-boi, atingia a casa dos milhares de indivíduos.

O relato do naturalista e explorador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), escrito em 1587, ajuda a reconstruir a imagem de como eram nossos mares – especialmente, na região da Bahia: “[…] enquanto as baleias andam na Bahia, foge o peixe do meio dela, para os baixos e recôncavos onde elas não podem andar […] acompanham-se (as baleias) em grupos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam […], porque andam urrando, e em saltos, lançando a água mui alta para cima […]”.

Continua Soares de Sousa: “Entram na baía, no tempo das baleias, outros peixes muito grandes […] espadartes, os quais têm grandes brigas com as baleias, e fazem tamanho estrondo quando pelejam, levantando sobre a água tamanho vulto e tanto dela para cima, que parece de longe um navio a vela […]”.

Relatos como os de Soares de Sousa cumpriam uma função estratégica: descrever as riquezas da colônia, enviar informações à coroa portuguesa e orientar futuros ocupantes europeus. Esse primeiro contato dos portugueses com a exuberância da floresta tropical e com os povos originários que aqui viviam costuma aparecer nos livros didáticos.

Mas essa história é mais ampla e complexa do que aquela que aprendemos na escola.

Durante a ocupação de nossas terras ‘exóticas’, produziu-se uma vasta documentação: tratados que descreviam o território; cartas relatando as desventuras das viagens ultramarinas; narrativas sobre o encontro com povos indígenas; e obras que registravam costumes locais, incluindo alimentos, plantas medicinais, técnicas de preparo e formas de vestir.

Obras de arte, como pinturas e gravuras, funcionavam como verdadeiras fotografias de um novo mundo. Um dos conjuntos mais ricos de registros sobre a natureza brasileira surgiu durante o chamado Brasil Holandês. Entre 1630 e 1654, no período de domínio neerlandês no Nordeste, o governo de Maurício de Nassau, em Pernambuco, reuniu e trouxe ao Brasil cerca de uma dezena de artistas e estudiosos (entre eles, naturalistas, botânicos e médicos) que se dedicaram a documentar, de forma sistemática e inovadora, a fauna, a flora, as paisagens e os povos da região, bem como seus costumes.

Frontispício da Historia Naturalis Brasiliae. Produzida sob o mecenato do conde João Maurício de Nassau, quando governador das possessões holandesas no nordeste brasileiro, a obra é um marco não apenas para os estudos da flora e da fauna, mas também para a etnografia e a etnolinguística dos povos originais da região

CRÉDITO: HISTORIA NATURALIS BRASILIAE (PISO & MARCGRAVE 1648)
https://www.flickr.com/photos/nimuendaju/4315309250/in/album-72157623211417269

Mas essa história é mais ampla e complexa do que aquela que aprendemos na escola

Como um quebra-cabeça

Foi nesse contexto que surgiu, em 1648, Historia Naturalis Brasiliae, considerada a primeira grande obra científica dedicada à natureza brasileira, escrita por dois naturalistas, o alemão Georg Marcgrave (1610-1644) e o neerlandês Willem Piso (1611-1678).

Esse tipo de material guarda informações preciosas não apenas para historiadores, mas também para biólogos e pesquisadores que estudam a biodiversidade e conservação. A partir desses registros, é possível reconstruir – ou, ao menos, tentar reconstruir – o passado dos oceanos, como em um grande quebra-cabeça em que pequenas peças ajudam a formar uma imagem mais ampla e complexa.

Quando organizados e analisados de forma sistemática, esses documentos revelam quais organismos eram encontrados em nossas águas, seus tamanhos, seus usos, se serviam de alimento e os ambientes onde ocorriam.

Mas traduzir relatos históricos nem sempre é simples. A linguagem da época – marcada por um estilo descritivo e, muitas vezes, ornamentado – é rica em detalhes, mas que, nem sempre, são essenciais para a ciência. É preciso filtrar, interpretar e contextualizar.

Além disso, os nomes vernáculos eram registrados nas línguas locais (principalmente, em tupi-guarani), o que exige um cuidadoso trabalho de tradução: primeiro para o português e, depois, para a nomenclatura científica.

Para montar esse grande quebra-cabeça, vasculhamos acervos de importantes museus e bibliotecas do país, bem como consultamos centenas de documentos disponíveis em coleções digitais, em busca de registros históricos de animais marinhos na costa brasileira.

No total, foram mais de 100 registros da fauna de norte a sul do país, entre pinturas, gravuras e trechos de livros produzidos ao longo de 500 anos. Esse material conta a história de baleias, peixes-boi e garoupas no Brasil.

Essa história, você vai conhecer a seguir.

Figura 1. Pintura Pesca da Baleia na Baía de Guanabara (1785), de Leandro Joaquim

CRÉDITO: LEANDRO JOAQUIM/COLEÇÃO MUSEU HISTÓRICO NACIONAL

Esse tipo de material guarda informações preciosas não apenas para historiadores, mas também para biólogos e pesquisadores que estudam a biodiversidade e conservação

Baleias e peixes-boi

A história contada em trechos de livros, gravuras, pinturas e cartas não deixa dúvidas: as baleias eram muito abundantes na costa brasileira cerca de cinco séculos atrás. Nas descrições, aparecem grandes grupos desses mamíferos aquáticos acasalando, bem como fêmeas com filhotes, além de interações com outras espécies e até encalhes.

Essa abundância rapidamente se transformou em oportunidade econômica, e as baleias passaram a ser alvo da exploração. Praticamente, todas as partes desses gigantes do mar eram aproveitadas. A carne era consumida por populações litorâneas; o óleo – o produto mais importante extraído desses animais – era usado para iluminação pública e doméstica, bem como combustível; as barbatanas, aproveitadas para conferir estrutura a corseletes e chapéus.

Em 1614, a coroa portuguesa estabeleceu o monopólio da pesca da baleia na colônia e regulamentou a atividade por meio das armações baleeiras, que funcionavam com base em contratos de arrendamento.

A exploração de baleias de forma organizada não só garantiu o pagamento de volumosos impostos à coroa, mas também o declínio de populações desses animais na costa brasileira. Abrolhos e o Recôncavo Baiano figuravam entre as principais áreas de captura de baleias no período colonial – apenas em Abrolhos, estima-se que cerca de 40 animais fossem abatidos anualmente.

Ao longo de toda a costa brasileira, os registros indicam capturas entre 80 e 100 indivíduos por ano – pelo menos, até meados do século 18. Segundo relato do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), a captura de baleias atingiu 7 mil toneladas em 1820.

A pintura Pesca da Baleia na Baía de Guanabara, feita em 1785 pelo brasileiro Leandro Joaquim (c.1738-c.1798), não é apenas uma cena pitoresca do período colonial. A obra documenta, com riqueza de detalhes, a organização da atividade baleeira na Baía de Guanabara: embarcações em plena perseguição, armações instaladas na costa, navios ancorados e pequenos barcos revelam a logística da captura e do processamento.

Mais do que um registro artístico, a pintura funciona como evidência histórica da escala e intensidade da exploração das baleias naquele período (figura 1).

A partir do início do século 19, a chegada de embarcações baleeiras vindas da América do Norte e do Reino Unido, equipadas com ferramentas de captura mais eficientes, intensificou ainda mais a exploração desses animais.

Ao longo de séculos, a morte de grande número de fêmeas e filhotes comprometeu a reposição natural das populações. O resultado foi seu declínio acentuado na costa brasileira, que acabou tornando a pesca economicamente inviável e levando, posteriormente, ao fim das armações baleeiras.

As baleias, porém, não foram as únicas vítimas desse ciclo de exploração. Outros grandes vertebrados marinhos também sofreram reduções drásticas em suas populações em decorrência da caça.

Documentos históricos indicam que os peixes-boi eram abundantes ao longo da costa brasileira, com distribuição que se estendia do Amapá ao Espírito Santo. De comportamento dócil e hábitos costeiros, a espécie era facilmente capturada em águas rasas e estuarinas.

Sua carne era consumida localmente e também exportada; a gordura, usada como um tipo de manteiga na cozinha; e o couro, empregado na fabricação de utensílios e vestimentas.

Relatos dos séculos 17 e 18 descrevem capturas recorrentes de peixes-boi – frequentemente, envolvendo vários indivíduos de uma única vez, indício de que eram então abundantes em determinadas regiões.

À semelhança do que ocorreu com as baleias, a exploração contínua exerceu forte pressão sobre essas populações, provocando declínios acentuados e culminando no desaparecimento da espécie em parte de sua área de ocorrência original.

Mais do que um registro artístico, a pintura funciona como evidência histórica da escala e intensidade da exploração das baleias naquele período

Garoupas e camurupins

As garoupas, peixes tão apreciados na culinária brasileira, também fazem parte dessa história de exploração e declínio. Em algumas regiões, os registros históricos relatam a captura de milhares de indivíduos em um curto intervalo de tempo – um retrato da intensidade da pesca já nos períodos colonial e imperial.

Em 1815, o naturalista alemão Maximilian zu Wied-Neuwied (1782-1867) descreveu a atividade pesqueira nos arredores de Abrolhos voltada à captura de ‘garoupa’ e ‘mero’, evidenciando a importância econômica desses grandes peixes recifais desde o início do século 19.

Segundo ele, cada barco retornava com uma grande quantidade de peixes, que eram exportados anualmente para outras localidades: “[…] Isto é realizado por cerca de quarenta pequenas embarcações de dois mastros chamadas ‘lanchas’, que saem em busca de ‘garoupa’ e ‘mero’, […] cada uma com uma carga de 1.500 a 2.000 peixes salgados, dos quais a cidade exporta anualmente entre 90.000 e 100.000.”

Esses grandes peixes recifais crescem lentamente e atingem a maturidade sexual apenas depois de vários anos de vida – características biológicas que os tornam especialmente vulneráveis à pesca excessiva.

Depois de períodos de capturas volumosas, os registros passam a indicar uma redução acentuada no número de garoupas desembarcadas ao longo do tempo – sinal de que a exploração intensa não se sustentou por muitas décadas e levou ao esgotamento dos estoques. Com o avanço das técnicas de captura e o aumento da demanda, os grandes exemplares se tornaram cada vez mais raros.

A pressão da pesca desde o período colonial também deixou marcas no tamanho dos peixes (figura 2). No caso do camurupim, os dados históricos mostram que indivíduos de grande porte eram mais comuns no passado, enquanto registros mais recentes apontam para a diminuição do tamanho corporal da espécie.

Hoje, encontrar peixes com as dimensões descritas nos relatos antigos é exceção – um contraste que revela o quanto os ecossistemas marinhos brasileiros mudaram ao longo de cinco séculos.

Figura 2: Trajetória histórica da megafauna marinha brasileira: da abundância no período colonial ao declínio acentuado causado pela caça e pesca, mostrando reduções populacionais de até 90% e diminuição do tamanho corporal de espécies, como o camurupim. Destaque para os principais marcos legais de proteção a partir da década de 1970.

CRÉDITO: CEDIDO PELAS AUTORAS

Hoje, encontrar peixes com as dimensões descritas nos relatos antigos é exceção

Enfrentando o legado

Ao reunir relatos de cronistas, naturalistas, viajantes e documentos oficiais, nosso estudo revela algo desconfortável: o oceano brasileiro que conhecemos hoje já é, em muitos aspectos, um oceano empobrecido.

Séculos atrás, baleias ocupavam a costa em grandes grupos; peixes-boi eram descritos como abundantes ao longo de extensas áreas; e garoupas de tamanho impressionante sustentavam pescarias que exportavam dezenas de milhares de indivíduos por ano.

Com o passar do tempo, a exploração intensa não apenas reduziu populações, mas também eliminou os maiores exemplares e remodelou a própria estrutura dos ecossistemas marinhos.

A diminuição no tamanho corporal de espécies, como a do camurupim, é um sintoma claro de sobrepesca: ao removermos sistematicamente os maiores indivíduos – justamente, aqueles com maior potencial reprodutivo e papel ecológico desproporcional –, comprometemos a reposição das populações e enfraquecemos as dinâmicas que sustentam a vida no mar.

Ao mesmo tempo, espécies, como o peixe-boi, desapareceram de trechos inteiros do litoral onde antes eram comuns. O resultado é um fenômeno silencioso: cada geração passa a considerar como ‘normal’ um mar que já perdeu parte significativa de sua abundância original.

Esse deslocamento de nossa referência histórica limita a ambição das políticas de conservação e reduz o horizonte do que acreditamos ser possível recuperar (figura 2).

Reconhecer que a exploração começou muito antes da industrialização da pesca muda a narrativa sobre responsabilidade e restauração. Não se trata apenas de conter impactos recentes, mas de compreender que carregamos um passivo ecológico acumulado ao longo de cinco séculos.

O legado da exploração da megafauna marinha não está apenas nos números do passado, mas também na forma como moldou o presente: ecossistemas menos complexos, cadeias alimentares alteradas e uma biodiversidade que persiste, mas em níveis reduzidos.

Enfrentar esse legado exige mais do que proteger o que restou. Exige revisitar a história, redefinir metas e admitir que o oceano brasileiro já foi muito mais rico em vida, tamanho e abundância do que estamos acostumados a imaginar.

Reconhecer que a exploração começou muito antes da industrialização da pesca muda a narrativa sobre responsabilidade e restauração

BENDER, Mariana G.; FERREIRA, Carlos E. L.; HANAZAKI, Natalia; ZAPELINI, Cleverson; GIGLIO, Vinicius J. Como eram os recifes brasileiros? Mudanças na percepção individual do ambiente e da diversidade marinha. In: ZILBERBERG, Carla et al. (org.). Conhecendo os Recifes Brasileiros: Rede de Pesquisas Coral Vivo. Rio de Janeiro: Museu Nacional/UFRJ, p. 205-220, 2016.

COSTA, Luisa. Carta náutica do século 19 revela perda de até 49% dos recifes em Abrolhos (BA). Superinteressante, 24 jun. 2022. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/carta-nautica-do-seculo-19-revela-perda-de-ate-49-dos-recifes-em-abrolhos/?utm_source=chatgpt.com

FOGLIARINI, Carine O.; BENDER, Mariana G. Historical evidence of marine megafauna declines along the Brazilian coast. Ocean & Coastal Management, v. 272, 108016, 2026.

OLMOS, Fabio. Peixes-bois em fuga e linhas de base mutáveis. ((o))eco, 13 out. 2016. Disponível em: https://oeco.org.br/analises/peixes-bois-em-fuga-e-linhas-de-base-mutaveis/?utm_source=chatgpt.com

VIEIRA, Nina. Desvendando as baleias do Brasil, fantasmas na história global da baleação. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 19, n. 2, e20230021, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/Y8YZFp5V5H6FzzjjyDXhscn/?lang=pt

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