Vírus Zika persiste como ameaça

Jornalista, especial para a Ciência Hoje

Referência no estudo da doença, professora visitante da UFPE e da Fiocruz-Pe alerta sobre possível surto, dez anos depois da epidemia de microcefalia, e defende continuidade de estudos sobre sequelas da síndrome da Zika congênita em crianças

CRÉDITO: FOTO: ACERVO PESSOAL

Ao menos metade dos municípios brasileiros está em alerta para o mosquito Aedes aegypti, revela um levantamento recente do Ministério da Saúde. A proximidade do verão e a previsão de intensificação das condições climáticas com a chegada de um super El Niño reforçam, ainda mais, a preocupação com uma nova explosão de doenças transmitidas por mosquitos no país. A Zika é uma delas: modelos matemáticos indicam que, dez anos depois da epidemia que assolou o país, e com circulação crítica do mosquito, a população estaria, de novo, suscetível ao vírus.
“Por isso, é tão importante termos uma vigilância ativa de combate ao vetor para evitar novos surtos. O combate ao Aedes aegypti é tão essencial para o Zika quanto para outras viroses de importância para saúde pública, como a dengue e a chikungunya. Até porque não sabemos quando e onde um novo surto de Zika acontecerá”, afirma a epidemiologista Celina Turchi, professora visitante da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora do Instituto Aggeu Magalhães, da Fiocruz. Em conversa com a CH, a especialista, cujos estudos foram determinantes para descobrir a relação entre o vírus Zika e o surto de microcefalia em bebês infectados na gestação, defende que as redes de pesquisa permaneçam fortes e atuantes na vigilância e na investigação das consequências da infecção pelo vírus Zika no neurodesenvolvimento e de outras alterações em crianças ao longo da vida.

CIÊNCIA HOJE: Passados dez anos da maior epidemia de Zika no Brasil, qual é a situação da doença no país e quais riscos ela representa?

CELINA TURCHI: Desde a introdução do vírus Zika no Nordeste, em 2015 e 2016, o vírus se dispersou para vários estados do país. Mas a transmissão foi especialmente alta no Nordeste, a ponto de os estudos populacionais de soroprevalência indicarem que mais de 50% da população de algumas cidades da região foi exposta ao vírus Zika após o primeiro surto. Era uma população urbana suscetível, vivendo em áreas amplas e densamente povoadas e com abundância de vetores transmissores de arboviroses. Era o cenário perfeito para um surto. Foi um tsunami. Isso explica a ocorrência de muitos casos de microcefalia em neonatos e a decretação do Estado de Emergência Nacional em Saúde Pública (2015), seguida de uma redução abrupta dos casos nos dez anos seguintes. Modelos matemáticos elaborados por cientistas indicam que, dez anos após o surto inicial, voltaremos a ter uma população suscetível ao vírus. Ou seja, há possibilidade de novos surtos. Por isso, é tão importante termos a vigilância funcionando para evitar novos surtos. O combate ao Aedes aegypti é tão essencial para o Zika quanto para outras grandes viroses de importância para a saúde pública, como a dengue e a chikungunya. Sabemos que os municípios com alta presença de Aedes aegypti e com casos positivos de infecção por Zika, onde crianças nasceram com malformações relacionadas à doença, têm grande potencial de serem novamente afetados, mas são muitos os locais, e estão dispersos. Por isso, precisamos estar atentos e manter nossas instituições de pesquisa funcionando.

Há possibilidade de novos surtos. Por isso, é tão importante termos a vigilância funcionando para evitar novos surtos. O combate ao Aedes aegypti é tão essencial para o Zika quanto para outras grandes viroses de importância para a saúde pública

CH: Que alertas vêm com o fato de a Zika seguir como ameaça epidemiológica e o que isso diz sobre nossa vigilância em saúde?

CT: O vírus Zika permanece como uma ameaça epidemiológica devido à sua circulação críptica e à necessidade de intensificar a vigilância viral e vetorial. Temos uma vigilância epidemiológica passiva, baseada na notificação de casos. Há poucas áreas no país com vigilância ativa, capazes de atuar rapidamente na identificação de locais específicos onde ocorram potenciais novos casos ou onde haja possibilidade de ocorrência. É verdade também que, na área da saúde, temos várias crises sobrepostas. Depois da emergência do vírus Zika, surgiu outra grande emergência, a covid-19. Isso nos mostra como a mobilidade populacional, a circulação de pessoas e os movimentos migratórios, além das mudanças climáticas, são cada vez mais importantes no âmbito da saúde. E cada crise nos traz lições importantes. O que aprendemos com o vírus Zika, por exemplo, nos ajuda na pesquisa sobre outro arbovírus, o vírus Oropouche. Esse vírus, inicialmente localizado na região amazônica, disseminou-se para outras regiões do país e pode causar alterações congênitas. Vale lembrar que a rede de pesquisadores sobre o vírus Zika, chamada ZBC (Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika), continua estudando os efeitos do vírus Zika em crianças afetadas que nasceram há 10 anos. Esses dados foram utilizados de forma harmonizada para estabelecer um perfil do espectro de malformações ou de dificuldades de desenvolvimento em crianças afetadas. O vírus Zika apresenta neurotropismo, ou seja, causa danos estruturais significativos no cérebro das crianças expostas, principalmente durante os primeiros meses da gestação. Mas, ao acompanhar as crianças expostas, vemos que mesmo as que não tiveram dano inicial podem desenvolver distúrbios posteriormente ou enfrentar dificuldades na aquisição de habilidades importantes nos primeiros anos de vida e na entrada na adolescência. Para esse tipo de avaliação, também se compara com o grupo de crianças da mesma faixa etária que não foram expostas ao vírus durante a gestação. Essa pesquisa de coorte continua, com o apoio de múltiplas especialidades, sob a coordenação dos pesquisadores Ricardo Ximenes e Demócrito de Barros Miranda-Filho, da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade de Pernambuco, ambos membros do ZBC e do IATS-Care (Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde).

CH: A senhora teve uma atuação destacada na emergência sanitária causada pelo vírus Zika, liderando um grupo de pesquisadores que comprovou a ligação entre a infecção e os casos de microcefalia em bebês recém-nascidos. Quais são as principais lições daquela época?

CT: Vivíamos uma emergência de saúde pública nacional e, devido ao potencial de expansão do vírus e à transmissão por mosquitos, tornou-se também um evento internacional, com alerta máximo da Organização Mundial da Saúde (OMS). A epidemia foi seguida de casos neurológicos graves em adultos, a chamada síndrome de Guillain-Barré, mas o que foi absolutamente novo e surpreendente foi a possibilidade de que filhos de gestantes infectadas pelo vírus Zika pudessem apresentar malformações cerebrais e outras alterações congênitas. Foi a primeira vez que constatamos que um arbovírus — ou seja, um vírus transmitido por mosquitos — poderia causar anomalias congênitas. O exemplo foi o surto de microcefalia ao nascimento, que surgiu após a epidemia do vírus Zika entre adultos. Eu me lembro das incertezas sobre as consequências de curto e de longo prazo da infecção congênita pelo vírus Zika ao longo da vida das crianças e de seus familiares. Sou médica, com atuação na área de doenças infecciosas, e já lidei com diversas epidemias ao longo da minha carreira. Mas uma epidemia de microcefalia de causa desconhecida até então, já que não havia na literatura nada que associasse os casos à infecção pelo vírus Zika, era um pesadelo e um desafio.

Ao acompanhar as crianças expostas, vemos que mesmo as que não tiveram dano inicial podem desenvolver distúrbios posteriormente ou enfrentar dificuldades na aquisição de habilidades importantes nos primeiros anos de vida e na entrada na adolescência

CH: O que, na sua visão, fez diferença para conter a epidemia?

CT: O Brasil conseguiu responder rapidamente a essa emergência. Os pesquisadores brasileiros se organizaram em diferentes institutos e formaram redes. Tenho orgulho de ter participado de uma pesquisa de ampla repercussão no Nordeste do Brasil, em Pernambuco, na qual monitoramos oito maternidades. Trabalhamos em parceria com as instituições de pesquisa e as secretarias de saúde, e tivemos o apoio fundamental do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde. Foi uma força-tarefa multidisciplinar, composta por especialistas em pediatria, doenças infecciosas, neurologia e oftalmologia, além de laboratórios de referência e de serviços de saúde. As unidades de saúde tiveram um papel fundamental ao emitir alertas sobre a gravidade. Em Pernambuco, por exemplo, foram neuropediatras que deram o primeiro sinal de aumento dos casos de microcefalia, atuando no sistema público de saúde da cidade. Todos trabalharam em conjunto para entender essa nova doença, posteriormente denominada Síndrome da Zika Congênita. Naquele momento inicial, formou-se um QG no Instituto Aggeu Magalhães, da Fiocruz, em Pernambuco, com a participação de pesquisadores de universidades e a colaboração da London School of Hygiene and Tropical Medicine, do Reino Unido. Essa crise de saúde pública foi uma tragédia, mas também possibilitou o avanço do conhecimento sobre a transmissão congênita do vírus Zika. Daí a importância de manter os núcleos de excelência em pesquisa sempre em funcionamento para propiciar respostas às emergências em saúde pública.

CH: Ainda há muitas questões não esclarecidas sobre as sequelas da infecção no desenvolvimento das crianças? Novos impactos continuam sendo identificados?

CT: Esse é um longo caminho. A Síndrome da Zika Congênita apresenta um espectro de gravidade. As crianças que foram afetadas congenitamente pelo vírus Zika nos primeiros meses da gestação podem apresentar quadros como paralisia cerebral. Apresentam dificuldade de deglutição, epilepsia grave de difícil tratamento e mortalidade elevada. Daí a importância de continuar o acompanhamento de longo prazo das crianças e de entender como as famílias são afetadas. As mães das crianças com SZC, desde o início da epidemia, se mobilizaram, formaram associações, se apoiaram e desempenharam um papel muito importante nos cuidados de saúde. São também a primeira fonte de informação para os grupos de epidemiologia e de ciências sociais, que seguem muito ativos. Desde 2016, criamos o MERG (Grupo de Pesquisa sobre a Epidemia de Microcefalia). O nome veio do absurdo que era ter uma epidemia de microcefalia, algo totalmente inimaginável. O MERG continua ativo, mantendo vínculos com instituições de pesquisa nacionais e internacionais, monitorando a evolução da doença em vários países.

Sou médica, com atuação na área de doenças infecciosas, e já lidei com diversas epidemias ao longo da minha carreira. Mas uma epidemia de microcefalia de causa desconhecida até então, já que não havia na literatura nada que associasse os casos à infecção pelo vírus Zika, era um pesadelo e um desafio

CH: Como a aproximação do verão e as condições climáticas intensificadas pelo super El Niño podem favorecer uma maior proliferação do mosquito e, consequentemente, o número de casos?

CT: As mudanças climáticas são uma preocupação importante para a área da saúde como um todo. Sabemos que as regiões de clima quente estão mais sujeitas ao surgimento e à persistência de arboviroses. Por exemplo, a epidemia de dengue que recentemente afetou áreas antes não atingidas das regiões Sudeste e Sul. França, Espanha e outros países europeus também registram arboviroses. E isso tem a ver com o aumento da temperatura. Há um aumento no número de locais que, no passado, eram considerados não propícios à transmissão de doenças transmitidas por mosquitos e que agora se tornaram propícios. Esses mapas de risco vêm se modificando, ampliando as áreas de risco para a ocorrência de arbovírus com as mudanças climáticas. Fazemos parte do IATS-Care, que reúne mais de 20 instituições brasileiras. Um dos estudos busca compreender as ligações entre as secas, o aumento da temperatura, as chuvas abundantes e a circulação dos vírus associados a arboviroses. Há muitos grupos no Brasil trabalhando diretamente com os aspectos relativos à mudança climática e ao aumento de casos de dengue e chikungunya, que, devido ao número de casos graves e mortes, têm maior foco e preocupação na saúde pública. O vírus Zika, embora tenha menor carga de doença, traz riscos e consequências importantíssimos do ponto de vista da saúde pública. Então, não pode ser esquecida a sua importância. Em 2015 e 2016, ainda tínhamos dúvidas sobre as consequências do vírus Zika na gestação, mas agora temos evidências de efeitos graves no feto e, portanto, não temos desculpas para não manter uma vigilância ativa. O vírus Zika representa um risco potencial para a saúde reprodutiva e saúde pública.

CH: Como avançam os estudos de desenvolvimento de uma possível vacina contra a Zika? Quais são os principais obstáculos científicos para que exista uma vacina disponível para a população, como temos a da dengue?

CT: Existe um grupo de especialistas da OMS que define as prioridades de desenvolvimento e produção de vacinas em situações de surto, e a vacina contra o vírus Zika não está nessa lista. Temos poucos estudos iniciais de vacinas contra o vírus Zika, mas nenhum deles ainda passou da fase pré-clínica. Agora, do ponto de vista de alguém que viveu e teve sua vida mudada pela emergência do Zika, considero essencial termos uma vacina para ser testada em humanos, caso haja um aumento na circulação do vírus e novos surtos com transmissão materno-fetal. Pode-se pensar em vacinas que poderiam estar disponíveis como contingência estratégica, a serem mobilizadas e testadas caso haja necessidade. A circulação do vírus Zika ainda é um desafio e deve ser considerada uma ameaça em áreas com abundância do vetor Aedes aegypti, especialmente diante das mudanças climáticas.

Manter as redes de pesquisa e de vigilância em saúde integradas é crucial para agir rapidamente caso surjam novos casos de Zika e de anomalias congênitas

CH: Na sua visão, o país estaria preparado para enfrentar uma nova epidemia de Zika? E, se ela surgisse, a resposta brasileira seria diferente? Em que aspectos ainda poderíamos falhar?

CT: Manter as redes de pesquisa e de vigilância em saúde integradas é crucial para agir rapidamente caso surjam novos casos de Zika e de anomalias congênitas. Assim, é essencial não esquecer as lições aprendidas com as diferentes crises de saúde pública. Em 2015/2016, os órgãos de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde, as secretarias de saúde e as instituições públicas de pesquisa do Brasil foram fundamentais para organizar o conhecimento que hoje temos sobre as causas da infecção pelo vírus Zika e sua associação com anomalias congênitas. Consideramos que o risco de novos surtos persiste e que é importante que essas redes não sejam desmontadas. Sem financiamentos adequados, com menos pesquisas e com a redução do número de pós-graduandos, a produção científica fica limitada ou até inviável. As doenças infecciosas, em geral, constituem uma questão de segurança nacional. A área científica deve estar sintonizada com as instituições de prestação de serviços de saúde e de vigilância para atuar rapidamente em situações de crise na saúde pública. Deve-se pensar a pesquisa como parte estratégica da resposta às epidemias.

Nas últimas décadas, fomos surpreendidos positivamente pela capacidade da ciência de responder a problemas, mas também pela falta de entendimento ou, por vezes, pela negação das evidências científicas. A divulgação científica é essencial nesse caminho do esclarecimento

CH: Como epidemiologista, o que mais a preocupa hoje? Que recomendações daria para autoridades e próximos governantes em relação à preparação e a respostas que devem ser dadas diante de uma nova eventual epidemia, seja de Zika ou outra arbovirose para a qual ainda não tenhamos imunidade nem ferramentas de diagnóstico?

CT: Quando acontece um surto, é como se uma luz acendesse e tudo ficasse sob aquele holofote. Mas, quando o surto termina, a luz se apaga e se esquece do assunto. O grande risco na produção científica é o desmonte das instituições ou a falta de continuidade do aporte financeiro à pesquisa. Interrupções, em geral, implicam fuga de cérebros e descontinuidade. Sabemos que a população depende não apenas de uma rede de atendimento adequada, mas também da retaguarda do conhecimento. Precisa de um grupo de pesquisa que possa ser acionado a qualquer momento, previamente treinado e organizado para lidar com emergências. E os governantes e a comunidade precisam conhecer e reconhecer o papel das instituições de pesquisa. Existe na sociedade uma onda negacionista e uma dificuldade de compreensão em relação a métodos científicos já estabelecidos. Por isso acho fundamental ter uma perspectiva da educação científica desde muito cedo. Todos precisam entender como se produzem evidências robustas, como interpretá-las e quais são suas limitações. Quais são os mecanismos de transmissão das infecções e suas formas de controle. O que se pode fazer quando uma doença é transmitida por um vetor. Ou quando pode ser transmitida da mãe ao feto, causando potenciais efeitos adversos, e suas formas de controle. São conhecimentos muito importantes, ainda mais considerando que, nesse novo contexto de aumento da temperatura, novos agentes podem surgir, inclusive causando novas anomalias congênitas. Por isso acho a ciência tão necessária e fascinante. Nas últimas décadas, fomos surpreendidos positivamente pela capacidade da ciência de responder a problemas, mas também pela falta de entendimento ou, por vezes, pela negação das evidências científicas. A divulgação científica é essencial nesse caminho do esclarecimento.

Outros conteúdos desta edição

725_480 att-103456
725_480 att-103429
725_480 att-103351
725_480 att-103316
725_480 att-103299
725_480 att-103292
725_480 att-103308
725_480 att-103346
725_480 att-103283
725_480 att-103383
725_480 att-103374
725_480 att-103368
725_480 att-103362
725_480 att-103269
725_480 att-103275

Outros conteúdos nesta categoria

725_480 att-83108
725_480 att-103115
725_480 att-102401
725_480 att-102020
725_480 att-101495
725_480 att-100931
725_480 att-100653
725_480 att-99862
725_480 att-98589
725_480 att-97745
725_480 att-96790
725_480 att-96178
725_480 att-95623
725_480 att-95332
725_480 att-94764