Para romper o ciclo da leishmaniose

Instituto Aggeu Magalhães,
Fundação Oswaldo Cruz, Recife-PE

Investigar as espécies de animais envolvidas no ciclo de transmissão da doença para humanos, principalmente a participação de cães domésticos, pode auxiliar na adoção de novas medidas de controle dessa endemia no Brasil e nas Américas

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma doença infecciosa causada por várias espécies de protozoários do gênero Leishmania que afeta a pele e as mucosas. Ela é transmitida de animais para humanos por meio da picada de insetos flebotomíneos e tem ampla incidência nas Américas. Segundo o Ministério da Saúde, de 1990 a 2021, houve 768.685 casos no Brasil.

Nos ciclos de transmissão da LTA, os mamíferos silvestres sinantrópicos (que convivem com humanos) são os hospedeiros reservatórios primários dos protozoários. O hospedeiro reservatório é a espécie que representa a fonte de infecção para certo patógeno e que permite sua manutenção por um longo período e sua transmissão para outros hospedeiros, incluindo humanos.

A eficiência de certo mamífero em manter espécies de Leishmania na natureza é determinante para seu papel como hospedeiro reservatório, assim como a capacidade de infectar flebotomíneos e, consequentemente, permitir a transmissão do patógeno a outro animal ou ao ser humano. Os hospedeiros naturais ou primários raramente apresentam sinais da infecção ou doença. Mas, em regiões do Brasil, animais domésticos como cães, gatos e equinos podem ser encontrados com úlceras na pele, a forma clínica mais comum da doença em humanos, o que leva à suspeita de que possam atuar como reservatórios secundários.

Os ciclos de transmissão da LTA variam de acordo com a região geográfica. Para que uma espécie seja considerada um reservatório, ela deve ser suficientemente abundante em um intervalo de tempo, ter longa ou efetiva duração de vida e ser capaz de sobreviver durante o período em que não ocorre transmissão. Uma grande proporção de animais é infectada durante seu tempo de vida e permanece infectada, abrigando o parasito sem desenvolver sintomas ou sinais da doença. Ao picarem esses animais, os flebotomíneos se infectam, fechando o ciclo natural de manutenção do parasito. Algumas espécies de flebotomíneos têm preferência por certos hospedeiros e hábitats, o que favorece as chances de infecção durante esse ciclo.

Na maioria dos estudos sobre hospedeiros reservatórios de Leishmania, várias espécies de mamíferos foram indicadas como provável reservatório apenas pela evidência de infecção natural, obtida por meio da simples visualização microscópica ou detecção de DNA do parasito, sem terem sido feitos o isolamento e a identificação da espécie. Em áreas endêmicas para LTA, entre as várias espécies de mamíferos silvestres naturalmente infectadas por alguma espécie de Leishmania, predominam roedores, marsupiais, edentados (grupo que inclui tamanduás e preguiças), poucos primatas e carnívoros. Para Leishmania (V.) braziliensis, principal espécie responsável pela LTA no Brasil, verifica-se também a hipótese da relevância de animais domésticos, especialmente cães, como possíveis reservatórios, devido à frequência com que são infectados e à superposição dessas infecções com a incidência de casos humanos da doença em uma mesma área endêmica.

Mas é importante ressaltar que o achado de um animal infectado não implica, a princípio, seu papel como reservatório; isso vai depender de vários fatores associados. São necessários estudos sobre a capacidade desse animal como fonte de infecção para os flebotomíneos vetores, evidenciada por ensaios de infecciosidade, por seu comportamento ecológico, pela dinâmica populacional da espécie em relação à população de flebotomíneos e pela incidência da infecção e da doença na população humana residente na área. Da mesma forma, uma só espécie pode não ser a única responsável por manter o ciclo de transmissão para humanos. Em uma mesma região, um grupo de espécies pode estar envolvido, como mostrou estudo em área endêmica para LTA em Pernambuco publicado em janeiro de 2023.

Mais estudos sobre a efetiva participação dos animais domésticos, especialmente cães, no ciclo de transmissão da leishmaniose causada por L. (V.) braziliensis devem ser encorajados. É possível que, em áreas com grande população de flebotomíneos no ambiente doméstico ou em seu entorno, a presença de cães infectados represente um fator de risco adicional de transmissão de L. (V.) braziliensis ao humano. A comprovação dessa hipótese auxiliará na adoção de novas medidas de controle dessa importante endemia no Brasil e nas Américas. Assim, estudos com essa abordagem mais ligada à parasitologia básica e à ecoepidemiologia mostram sua relação com a pesquisa translacional, pois podem contribuir para uma ação de intervenção em saúde pública.

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