Um debate quente sobre a Amazônia

Ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão esclarece como funciona o monitoramento de desmatamento e queimadas, alertando para a ‘savanização’ da floresta.

Voltar à universidade depois de quase três anos à frente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é, para o físico Ricardo Galvão, uma mistura de sensações. A parte positiva, ele diz, é o retorno ao laboratório que ajudou a criar, de Física de Plasmas, o Tokamak, na Universidade de São Paulo (USP). “Estive muito envolvido em gestão, e isso me afastou da pesquisa científica. Agora posso dedicar mais tempo a trabalhar, dar aula, voltar a fazer ciência”, afirma. Por outro lado, o retorno à USP acontece depois de um desgaste público com o atual governo e o Ministério do Meio Ambiente, em decorrência da divulgação de números alarmantes sobre o desmatamento da Amazônia. Na conversa com a Ciência Hoje, Galvão detalha como é feito o acompanhamento das queimadas e desmatamento pelo Inpe, e exalta o conhecimento brasileiro como um dos maiores ativos para defender a floresta.

Ciência Hoje: Recentemente, o dia virou noite em São Paulo. Além de uma frente fria, o fenômeno seria também derivado de partículas de fumaças de queimadas. O que aconteceu?

Ricardo Galvão: O aumento de queimadas foi intenso nos meses de junho e julho, e o Inpe mostrou isso. Existem várias razões para as queimadas. Podem ser de combustão espontânea, em época de seca, ou pela ação do homem. Geralmente, quando se desmata, primeiro se faz um corte sobre o topo das árvores. Aos poucos se aumenta o corte, e se deixa as árvores secando, à espera da estação da seca para queimar. As queimadas desse ano foram muito grandes, e não só na Amazônia. Esses gases provenientes das queimadas, principalmente CO2, são poluentes particulados. Eles não sobem muito na atmosfera e, quando são arrastados, podem se misturar com as nuvens. Aparentemente, o que houve em São Paulo foi uma nuvem muito grande de fumaça das queimadas. Isso existia antigamente em São Paulo, com a queima de cana. E a chuva que caía era também muito escura, trazendo esses particulados para baixo. Desta vez, com o alto número de queimadas, eles se juntaram com a nuvem. É a indicação de uma situação drástica. Aconteceu em São Paulo e pode acontecer em outros lugares também.

Elisa Moreira

Jornalista, especial para o Instituto Ciência Hoje

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