A vida eterna é um desejo antigo da humanidade, que tem movido cientistas ao longo dos séculos a investigar formas de conter o envelhecimento. Mas a ficção alerta para limitações da longevidade extrema e nos faz repensar o preço dessa condição

Uma das tábuas onde está escrita a Epopeia de Gilgamesh CRÉDITO: WIKIPEDIA

A mais antiga obra literária – a Epopeia de Gilgamesh – foi escrita na Mesopotâmia pelos sumérios por volta do ano 2000 a.C. Gravado em tábuas de argila e descoberto por arqueólogos, esse poema épico narra a vida e os feitos do rei da cidade suméria de Uruk na sua jornada em busca da imortalidade. 

De lá para cá, as civilizações mudaram profundamente em inúmeros aspectos, mas algo que definitivamente não mudou é a busca incessante pela vida eterna. 

Na Idade Média, os alquimistas dedicaram suas vidas à busca pela pedra filosofal, um artefato que lhes permitiria atingir dois de seus principais objetivos: a transmutação de um metal qualquer em ouro e a fabricação do elixir da longa vida. 

Como os registros dos alquimistas eram obras propositalmente herméticas (obscuras, enigmáticas), é difícil dizer com precisão o que significavam esses seus objetivos, mas sabemos que seu caráter é mais simbólico do que literal e que os alquimistas buscavam uma elevação e purificação espiritual por meio das suas práticas. 

Com a ascensão da ciência moderna no século 16, o prolongamento da vida seguiu sendo um norte das ciências da saúde. A expectativa de vida em todo o mundo nos anos 1800 não passava dos 35 anos de idade; nos anos 1900, chegava a 40 anos em países europeus; já nos anos 2000, ultrapassava os 70 anos em boa parte dos países do mundo. 

Com isso, podemos dizer que nós realmente aprendemos maneiras de prolongar a vida das pessoas, e esse aumento se deu universalmente – embora países subdesenvolvidos sempre mantenham uma expectativa de vida bem menor que outros países. Mas será que esse prolongamento tem limite?

 

A ciência contra o envelhecimento

Podemos dividir em três as circunstâncias que levam uma pessoa a falecer: doença, trauma físico e envelhecimento. 

Evidentemente, as ciências da saúde estão sempre buscando curas, tratamentos ou atenuação dos sintomas de uma doença. Mas é difícil imaginar que, em algum momento, estaremos seguros de toda e qualquer enfermidade, considerando que novos patógenos podem surgir – e surgem – o tempo todo. Além disso, a erradicação de doenças não depende somente do avanço da ciência, depende da adesão das pessoas às vacinas, aos tratamentos e às outras medidas protetivas. 

Os traumas físicos decorrentes de acidentes ou de situações onde houve intencionalidade também dependem mais dos indivíduos do que da ciência. 

Portanto, quando o assunto é longevidade, há uma grande atenção da ciência para o envelhecimento, em uma tentativa de retardar ao máximo – ou, para os otimistas, de interromper – esse processo.

Sabe-se hoje que o processo de envelhecer é constituído por um conjunto de fatores. Um desses fatores é a senescência celular (envelhecimento das células). 

No núcleo das nossas células, há uma estrutura chamada cromossomo, que é formada pelo nosso material genético (DNA). Os cromossomos têm um formato similar a uma letra ‘x’, e as suas pontas, que recebem o nome de ‘telômeros’, funcionam como uma proteção ao nosso DNA. Quanto mais vezes uma célula se divide – e ela faz isso para regenerar tecidos e órgãos – o tamanho dessas pontas do cromossomo diminui. Chega um momento em que os telômeros estão tão pequenos que a célula não consegue mais se dividir, atingindo o estado de senescência (velhice). Quando as células do nosso corpo vão chegando nesse estágio, vamos perdendo a capacidade de reparar nosso organismo e caminhamos para uma deterioração sem volta do corpo.

Há, no nosso organismo, uma enzima, chamada telomerase, que reconstrói os telômeros. Então você poderia imaginar que, se aumentarmos a quantidade de telomerase no nosso organismo, retardaremos o envelhecimento. Essa é, de fato, uma aposta de alguns cientistas. O grande problema é que, em excesso, essa enzima pode provocar uma multiplicação desenfreada das células, levando a diversos tipos de câncer. A célula tumoral é, por natureza, uma célula imortal, capaz de se multiplicar várias vezes sem envelhecer, e isso é o que a torna perigosa. Inclusive, alguns estudos têm mostrado que a inibição da enzima telomerase é uma forma viável de anular a imortalidade das células tumorais.

Outra solução para a longevidade que vem sendo investigada é o uso das células-tronco. Essas células surgem na fase embrionária, antes mesmo do nascimento, e não sofrem diferenciação, ou seja, não se transformam em uma célula específica. Por serem capazes tanto de se reproduzirem, quanto de se especializarem em outros tipos de célula, elas podem reparar tecidos danificados e participar do tratamento de uma série de doenças.

Existem precedentes de animais imortais (ou quase) na natureza. É o caso da hidra, um animal aquático bem pequeno da família das águas-vivas, corais e medusas. As hidras têm a capacidade de reverter a diferenciação celular (fazer com que uma célula adulta e especializada regrida para o estágio de indiferenciação e volte a ser capaz de se transformar novamente em outro tipo de célula). Com isso, a hidra pode reparar qualquer dano ao seu corpo e anular seu envelhecimento. Potencialmente imortal, a hidra atrai a atenção de muitos cientistas e é alvo de muitas pesquisas.

Hidra, um animal aquático bem pequeno da família das águas-vivas, corais e medusas CRÉDITO WIKIPEDIA

Mesmo que sejamos capazes um dia de anular o envelhecimento humano (o que é, por si só, bastante complexo e difícil de acreditar), a imortalidade completa é totalmente inalcançável, pois doenças e traumas físicos são quase impossíveis de serem evitados. Mas e se pudéssemos realmente alcançar essa imortalidade absoluta? Estaríamos preparados para ela?

 

O problema da imortalidade

CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

A ficção já nos mostrou várias vezes que a imortalidade (ou a extrema longevidade) pode levar a um absoluto tédio. Podemos observar esse tédio – bem como uma completa ausência de pressa e motivação para fazer quaisquer coisas – em personagens como os elfos da saga Senhor dos Anéis. Isso nos leva a crer que a efemeridade da vida talvez seja um motor importante para o ser humano. 

No recente filme da Marvel Eternos, conhecemos um pouco da trajetória de seres imortais que acompanharam toda a história da civilização da Terra, protegendo os humanos dos monstros ‘deviantes’. Há uma síndrome que acomete os eternos, denominada ‘Mahd Wy’ry’. Essa condição é fruto da enorme quantidade de memórias que um eterno acumula em sua longa vida. Seus sintomas, similares aos da demência, são gradativos e incluem perda de memória, mudanças de humor e de personalidade e esquecimento de pessoas próximas. 

A única solução para um eterno acometido por Mahd Wy’ry é o apagamento total da sua memória. E, diante disso, poderíamos nos perguntar: se você tivesse sua memória completamente apagada, você continuaria sendo você? Nós somos fruto da nossa biologia, mas também das nossas experiências. Nossos gostos são resultado das nossas vivências, como mostram estudos da área da sociologia do gosto. Portanto, curar-se de um Mahd Wy’ry é o mesmo que nascer novamente, é o mesmo que não ser imortal, certo?

Trazendo para o mundo real, é claro que as doenças ligadas ao estado de demência (como Alzheimer, Parkinson e Huntington) têm causas mais complexas do que um simples acúmulo de memórias. Mas sabemos que nosso cérebro tem limitações intrínsecas. Assim, é de se esperar que, quanto mais longevos, menor será a proporção entre eventos que lembramos e eventos que esquecemos em nossa vida. Valeria a pena vivermos infinitas experiências, sabendo nossa capacidade de armazená-las em nossa memória é limitada? Esse é um problema com o qual precisaríamos lidar.

Por fim, quando colocamos o foco na longevidade a todo custo, esquecemos de coisas essenciais e inexoráveis, como o próprio processo de morrer. A psiquiatra e tanatóloga Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004) incomodava-se ao ver a quantidade de pacientes terminais que morriam em leitos de hospital, distantes da família, pelo mero desejo clínico de se prolongar um pouco mais as suas vidas. A médica relata que, enquanto a família e os médicos negavam a chegada morte e lutavam pelo prolongamento da vida, o desejo de muitos pacientes era apenas vivenciar esse processo terminal de forma mais humanizada.

Assim, tratar o envelhecimento e a morte como derrotas, como assuntos sobre os quais não se deve conversar, apenas faz com que seja mais difícil lidarmos com esses eventos que são – e provavelmente continuarão sendo – inescapáveis. É evidente que nunca pararemos de perseguir a imortalidade ou o prolongamento da vida. Mas, se aprendermos a viver melhor e a lidarmos melhor com a morte, talvez sejamos capazes de aproveitar mais a nossa finitude.

Lucas Mascarenhas de Miranda
Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

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