A fronteira tênue entre heróis e vilões

A sociedade moderna se identifica mais facilmente com personagens controversos e, muitas vezes, na vida real, eleva ao posto de herói figuras cujos erros e defeitos morais – por piores que sejam – são ignorados em prol da luta contra um suposto inimigo

CRÉDITO: WALTER WHITE DA SÉRIE BREAKING BAD/FOTO DIVULGAÇÃO

O conceito de herói está profundamente ligado à cultura que o criou e a quando foi criado, o que significa que ele varia muito de lugar para lugar e de época para época. Mesmo assim, a figura do herói aparece nas mais diversas sociedades e eras, sempre atendendo a critérios morais e desejos em comum de determinado povo. 

Na mitologia grega, o herói era uma semidivindade que estava entre os deuses e os humanos. Veja o exemplo de Hércules, Aquiles, Ulisses, Teseu, entre outros, cujos feitos evidenciam a sua enorme disposição de se sacrificar em nome do bem-estar dos seres humanos.

Com a ascensão do cristianismo na Europa da Idade Média, quando Deus e a religião passam a ser a bússola moral de muitas pessoas, os feitos humanos considerados heroicos tinham relação com a temência e a fidelidade a este Deus. Assim, heróis eram os mártires e missionários, que também entregavam suas vidas a essa causa, que julgavam a mais nobre.

Hoje, no início do século 21, uma era marcada pela exposição na internet e privacidade mínima, o status de herói é bastante diferente. Não é raro uma figura pública ser alçada ao posto de herói, a despeito de seus erros e defeitos morais amplamente expostos e conhecidos. Talvez por uma necessidade psicológica de adotarmos heróis, frequentemente escolhemos heróis falhos, demasiadamente humanos, muito mais similares a nós mesmos do que a heróis de outros períodos históricos.

Você já deve ter notado o sucesso das obras que colocam anti-heróis como protagonistas. Diferentemente do herói infalível, bom, que se sacrifica em nome de causas nobres, o anti-herói é um personagem que erra, toma atitudes que julgamos imorais e não possui virtudes geralmente atribuídas aos heróis (como coragem, resiliência, justiça). 

É natural que tenhamos mais facilidade de nos identificarmos com um anti-herói como Deadpool – que fala palavrão e é egocêntrico, sarcástico e vingativo – do que com o Super-homem, que sequer é deste planeta. Os heróis modernos erram muito, mas geralmente os perdoamos, pois acreditamos na causa que defendem, mesmo que os meios para alcançá-la sejam altamente questionáveis.

A fronteira que separa um anti-herói de um vilão é tão imprecisa que não é raro torcermos para personagens controversos, como os assassinos em série Dexter e Hannibal (das séries de mesmo nome), o traficante e produtor de drogas Walter White (da série Breaking Bad) e os ladrões de La casa de Papel.

 

O poder de fabricar vilões

Apesar do protagonismo do herói, o que seria dele se não houvesse um vilão? Nas narrativas, o vilão costuma ser o antagonista (ou seja, o adversário direto do protagonista). Os vilões representam aquilo que é errado, injusto, que foge à moral defendida pelo herói, em suma, representam o próprio mal. 

Por não carregar o protagonismo das histórias, o vilão costuma ser um personagem sem profundidade, sem dilemas, sem uma história que nos explique o porquê de suas ações. E isso reforça sua vilania.

No entanto, quando o Coringa, por exemplo, deixa de ser apenas o ‘inimigo do Batman’, quando a Malévola deixa de ser a mera vilã de A Bela Adormecida e ganha seu próprio filme, quando conhecemos a história de Cruella de Vil pelo seu ponto de vista e não pelo ponto de vista de Os 101 Dálmatas, estamos dando a oportunidade de o vilão contar sua história. 

Conhecer a história de alguém é um processo humanizador, capaz até de revogar a alcunha de vilão e conferir ao personagem o título de herói, de anti-herói, ou só de uma pessoa comum que tem seus defeitos e qualidades.

Assim, uma maneira de fabricar vilões é não deixar suas histórias serem contadas, é criar uma imagem sobre esses personagens e mantê-los em silêncio. Esse processo de vilanização é muito poderoso e pode levar as pessoas a odiarem esse personagem, a linchá-lo e até a quererem matá-lo.

O episódio ‘Engenharia Reversa’, da série Black Mirror, faz uma crítica ao controverso projeto conduzido pelo exército estadunidense. Após entrevistar milhares de combatentes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o historiador, jornalista militar e brigadeiro-general S. L. A. Marshall chegou à conclusão de que somente entre 15% e 25% dos soldados realmente atiravam para matar. Os demais não o faziam nem mesmo em situações de perigo. 

Depois dessa descoberta, o exército mudou seu treinamento, para tornar seus combatentes “menos humanos”, a ponto de estudos relatarem que, na Guerra do Vietnã (1954-1975), o número de soldados que atiravam para matar subiu para 90%.

No episódio da série britânica, os soldados utilizam máscaras implantadas nos olhos (que afeta o que eles enxergam) e são designados a perseguirem e matarem as chamadas “baratas”, seres monstruosos, nojentos e com o corpo deformado, que trazem problemas para a população. Mais tarde, devido a algumas falhas na máscara do protagonista, descobre-se que a figura monstruosa que os soldados enxergavam eram, na verdade, humanos comuns, humanos indesejáveis, que foram monstrificados para se tornarem corpos matáveis para os soldados, sem que ninguém se sentisse culpado.

 

Criminosos e políticos 

O processo de fabricar heróis e vilões é amplamente utilizado no mundo real. Quando, por exemplo, traficantes e outros criminosos são vilanizados – e colocados em oposição ao chamado ‘cidadão de bem’ (que, supostamente, não comete nenhum crime), esses indivíduos estão sendo transformados nas ‘baratas’ de Black Mirror, em corpos que devem ser temidos, vigiados, controlados e até eliminados.

Por outro lado, quando parte da população heroifica um político que está alinhado às suas ideologias, há uma tendência de aceitar seus erros – por piores que sejam – como algo justificável, como um mal necessário para se atingir um bem maior. 

Quando um político-herói recebe o aval de uma parcela importante da população para fazer o que quiser, quando a população ‘o autoriza’ a fazer o que quer que seja para atingir seus fins, esse indivíduo passa a ter um poder muito maior do que o que ele deveria ter, muito maior do que aquele conferido pela Constituição. 

Esse poder é tão grande que nem mesmo as muitas falhas do político-herói são capazes de derrubá-lo. Em outros tempos, poderíamos achar que é impossível que pessoas totalmente ineptas, com graves dificuldades de estabelecer diálogos e boas relações internacionais, com posturas negacionistas e avessas à questão ambiental e climática, fossem alçadas a um cargo político. Mas vivemos tempos em que isso acontece.

No livro Engenheiros do caos, o jornalista italiano Giuliano da Empoli explica esse fenômeno. Os defeitos e vícios desses novos líderes populistas são transformados, aos olhos dos eleitores, em qualidades; sua inexperiência é a prova de que não fazem parte do establishment, do meio político corrompido; seu comportamento xucro é a garantia da sua autenticidade e transparência; as tensões que produzem nacional e internacionalmente são um retrato da sua independência; e as fake news que sustentam sua propaganda são a marca registrada de sua liberdade de opinião. 

Lembra-se de que não existem heróis sem seus vilões? Um vilão que acreditávamos estar morto desde o fim da Guerra Fria, mas cujo fantasma é até hoje temido é o comunismo. Depois do 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos elegeram os muçulmanos como vilão mundial, mas a extrema direita brasileira segue propagandeando o medo do comunismo entre seus apoiadores e simpatizantes. 

É claro que monstros não são reais, mas os efeitos deles sim. Tanto que o vilão fictício denominado de ‘kit gay’, entre outros, ajudou a eleger um Presidente da República. A existência de vilões – mesmo que imaginários – justifica a existência de um herói que faça o que for preciso para proteger a população desse monstro.

Portanto, pense duas vezes antes de eleger heróis no mundo real, principalmente quando se tratam de pessoas que já têm um poder grande nas mãos. Pense duas vezes, também, antes de eleger vilões – ou aceitar o rótulo de vilão dado a uma pessoa ou grupo de pessoas.

Heróis e vilões certamente não são compatíveis com uma sociedade democrática e republicana, o que indica que ainda temos muito a aprender sobre essas coisas.

Lucas Mascarenhas de Miranda
Físico e divulgador de ciência no canal Ciência Nerd
Universidade Federal de Juiz de Fora

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