Apesar das repressões do início da República, havia na cidade líderes religiosos que, inseridos nas dinâmicas de culto aos ancestrais e às entidades espirituais, eram vistos como capazes de lidar com o sobrenatural assim como curar e neutralizar o mal. Os jornais da época nos informam que um grande número de pessoas frequentava os terreiros e as casas de curandeiros e feiticeiros, indo atrás de curas e remédios para suas ‘urucubacas’, bem como para resolver seus conflitos amorosos.
No caso de João Miguel da Costa, negro africano de 80 anos de idade, citado anteriormente, este teve sua casa, localizada na Praia Formosa, nº 273, invadida pela polícia no dia 29 de agosto de 1898. Na ocasião, o capitão Carvalhaes Pinheiro, delegado da 10ª circunscrição, chegou acompanhado dos funcionários da delegacia à casa de João Miguel, reconhecido pela força policial como feiticeiro.
A casa é descrita na Gazeta de notícias (RJ) da seguinte maneira: “de rotula e duas janellas. A entrada escura e immunda. O delegado penetrou na sala da frente. Que horror! Havia nesta sala enorme quantidade de tigellas, missangas, santos etc. etc.”. Ao entrar, o delegado encontrou uma moça negra africana sentada numa poltrona, com uma “crioula” deitada a seus pés. Ao redor desta, santos, miçangas e uma vela acesa estavam dispostos.
Após uma rigorosa busca na casa, foram encontrados tantos objetos que foi necessária uma carroça para conduzi-los à delegacia. A notícia revelou alguns desses objetos: miçangas, santos, alguidar… O alguidar é um recipiente redondo, normalmente de barro, utilizado nos terreiros para a feitura de oferendas aos orixás e às entidades espirituais.
As miçangas, por sinal, são os itens mais numerosos do acervo Nosso Sagrado (Museu da República/RJ). Eles são um dos traços característicos do traje afro-brasileiro utilizado por mulheres negras nos seus cotidianos desde, pelo menos, o século 19.
O traje de vendedoras negras, escravizadas ou forras, era geralmente composto por uma saia de algodão branco ou cru transpassada com um pano listrado que envolvia a parte de cima do corpo, além de turbante e um decote marcado, normalmente contornado por um bordado inglês.
Havia nesse traje, certamente, não apenas adequações às necessidades climáticas e às condições de seus trabalhos, como também expressões de uma identidade cultural e mesmo de resistências. O uso do turbante, por exemplo, ia além da proteção contra o sol, funcionando como um elo com o passado. Seu uso preservava tradições ancestrais e mantinha viva a conexão de mulheres africanas com as suas origens.
Mais que uma questão de gosto ou estética, as miçangas e os colares formados por elas são objetos de proteção, colocados no pescoço tanto nos espaços religiosos, quanto nos espaços públicos. Esses colares unem as dimensões estética, religiosa e social, sendo confeccionados de acordo com os fundamentos religiosos.
A indumentária usada por João Miguel também foi apreendida e descrita pelo jornal: “fato encarnado cheio de guizos. O sceptro era uma vara com uma figa na ponta. No capacete havia um santo de páo, de longas barbas, brutalmente feito”. A notícia da batida policial em sua casa é rica em detalhes e nas descrições dos itens, o que nos leva a crer que esses objetos chamavam a atenção e conferiam identidade às religiosidades e aos sujeitos.
Um pouco mais de um mês depois da batida na casa de João Miguel, foi noticiado o envio dos autos contra ele pelo capitão Carvalhaes Pinheiro ao presidente da câmara criminal do Tribunal Civil e Criminal. Na ocasião, o exame de corpo de delito foi realizado nos próprios objetos, constatando-se “que esses objetos servissem para despertar o ódio ou o amor”. Esses objetos, antes sagrados, passavam a ser categorizados como provas de crime.
O caso de João Miguel revela como o projeto higienista da Primeira República estava empenhado em combater e criminalizar formas de ser, de saber e de cultuar o sagrado de africanos e afrodescendentes. Contudo, também é possível entendermos que suas materialidades são traços de memória, beleza e resistência. Elas perpassam e costuram os tempos.