Ensaio sobre a cegueira botânica

Mestrado Profissional em Ensino de Biologia (Profbio)
Departamento de Botânica
Universidade Federal de Minas Gerais

Atividades práticas abrem os olhos dos estudantes para a vegetação próxima a suas comunidades e ensinam sobre a importância das plantas para a manutenção de toda a vida no planeta.

Reconhecer o valor das plantas para a sobrevivência e manutenção do equilíbrio ambiental é necessário e urgente, especialmente para os jovens. Os vegetais são essenciais não apenas por fornecerem oxigênio, mas, também, por suas aplicações comerciais e industriais. Eles oferecem alimentos, medicamentos, matéria-prima para tecidos (fibras), madeira, combustível e lazer nas áreas naturais. Por que, então, os estudantes têm tão pouca informação e contato com as plantas, um fenômeno que já está sendo chamado de ‘cegueira botânica’?

A falta de conhecimento prático é um dos obstáculos. Para nos aproximar das plantas, é necessário reconhecê-las como seres vivos e entender que possuem um ciclo de vida, são formadas por células, possuem metabolismo, respondem aos estímulos do ambiente, evoluem e são fatores bióticos relevantes na constituição dos ecossistemas.  Apesar disso, os professores optam, em alguns casos, por não trabalhar esse conteúdo no ensino médio ou por deixá-lo para o final do ano letivo para, por meio de síntese extrema, simplificá-lo ao máximo. Assim, dificilmente os alunos passarão a relacionar o reino vegetal à manutenção da vida.

 

Quais árvores são suas vizinhas?

Trabalhar o conteúdo de botânica no ensino médio precisa ser prazeroso, o que é tarefa fácil de executar, já que as plantas estão presentes em nosso cotidiano. Basta olhar ao redor, por exemplo, para observar a arborização urbana. E esse é um tópico muito interessante para ser desenvolvido de forma investigativa com os estudantes. O assunto não costuma ser trabalhado como conteúdo no ensino de biologia, mas sua inclusão pode favorecer a consolidação e a aplicação dos conhecimentos do aluno sobre as plantas.

A metodologia investigativa também induz a aprendizagem significativa, pois transforma o aluno no protagonista do próprio conhecimento. Executar atividades de pesquisa resulta, portanto, em maior adesão às práticas escolares e amplia a participação dos jovens, produzindo resultados efetivos.

Essa experiência foi feita com uma turma do segundo ano do ensino médio de uma escola pública no município de Fortaleza de Minas, em Minas Gerais. Os alunos observaram, listaram, mapearam e pesquisaram a identificação das espécies arbóreas presentes no entorno de suas residências. A proposta de desenvolvimento baseou-se no protagonismo juvenil e foi desenvolvida durante as seis aulas descritas a seguir. Para a identificação das espécies amostradas, grupos de alunos compareceram na escola no contraturno.

 

Como funcionou o trabalho na prática?

Na primeira aula, para problematizar conceitos sobre a arborização urbana, foram feitas as seguintes perguntas norteadoras:

– Vocês sabem o que é arborização urbana?

– Qual é a importância das árvores para o município?

– Será que o município de Fortaleza de Minas é arborizado adequadamente?

Diante dessas questões, houve debate, e os alunos levantaram hipóteses. Também elaboraram um questionário único para aplicar aos vizinhos e coletar dados sobre cada espécime de planta amostrado.

No trabalho de campo, os alunos que residem na zona urbana realizaram um levantamento das árvores da rua onde moram. Os alunos residentes na zona rural fizeram um levantamento de árvores próximas a sua residência. Os alunos fizeram o registro fotográfico dos espécimes analisados e distribuíram em um croqui (desenho) da rua (zona urbana) ou do entorno (zona rural) de sua residência.

Croqui elaborado por aluna residente na zona rural

Na segunda e terceira aulas, os alunos, após análise dos dados coletados, apresentaram seus relatórios individuais e localizaram, no mapa do município, os pontos que representam as árvores encontradas por eles. Nessa fase, houve discussão sobre as observações dos estudantes durante a atividade de campo, suas dificuldades e os resultados encontrados.

Mapa do município com a localização das árvores pesquisadas pelos alunos

Vale ressaltar que a amostragem do trabalho foi pequena, pois muitos alunos moram na mesma rua que seus colegas. Foram observadas 14 ruas do município e 238 indivíduos arbóreos, sendo 145 palmeiras. Foram identificadas ainda três ruas sem árvores.

Quantidade de indivíduos amostrados por espécie. Por estarem em número extremamente maior, as palmeiras foram excluídas do gráfico, para facilitar a visualização da presença das outras espécies

Na quarta e quinta aulas, os alunos foram levados à sala de informática da escola para pesquisar a identificação das espécies por eles amostradas, comparando as imagens e os nomes populares obtidos por meio do questionário com os vizinhos.

Depois das palmeiras, as espécies mais frequentes registradas na arborização urbana foram: a) murta (Murraya paniculata); b) rosedá (Lagerstroemia indica); e C) oiti (Licania tomentosa)
Fotos de autoria dos alunos

Na sexta aula, a turma foi orientada a confeccionar um relatório único, que, posteriormente, foi entregue ao prefeito pelos próprios alunos, em um exercício de cidadania e contribuição para o planejamento da arborização do município.

Depois desse trabalho, os alunos mudaram sua visão das plantas, o que caracteriza essa atividade como eficiente para minimizarmos a cegueira botânica. Além disso, os estudantes se tornaram replicadores do olhar atento à arborização urbana, ampliando sua participação cidadã.

Fernanda Aparecida Soares Costa

Mestrado Profissional em Ensino de Biologia (Profbio)

Denise Maria Trombert Oliveira

Departamento de Botânica,
Universidade Federal de Minas Gerais

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