Luz, câmera, ação: vídeos para divulgar e ensinar ciência

Projeto leva conteúdo audiovisual sobre o trabalho de pesquisadores brasileiros a escolas e promove atividades que provocam reflexões sobre questões ambientais.

Divulgação e ensino de ciência são práticas profundamente relacionadas, mas nem sempre andam lado a lado. O ensino tende a considerar conceitos e descobertas do passado, o que pode fazer com que o conteúdo ensinado aos estudantes seja desconectado do presente, como se ciência fosse algo decidido e finalizado. Já a divulgação procura levar às pessoas o que está acontecendo na atualidade, o que tem o potencial para apresentar a ideia de ciência como uma construção dinâmica, na qual as verdades são passíveis de questionamento e reconstrução.


Mas e se produzíssemos vídeos para unir essas duas atividades, ensinar e também para divulgar pesquisas nacionais?

Uma das ferramentas mais atraentes tanto para ensinar como para divulgar ciência é o vídeo. Por isso, como professores, utilizamos esse meio para comunicar ideias aos alunos. Faz parte da rotina do docente assistir a vídeos científicos e também selecionar quais são mais adequados para serem levados à sala de aula. Mas e se produzíssemos vídeos para unir essas duas atividades, para ensinar e também para divulgar pesquisas nacionais? O desafio é muito diferente de apenas fazer curadoria, mas, certamente, o conteúdo poderia ser ainda mais apropriado à realidade de nossas escolas.

Foi assim que nasceu um projeto com a meta de juntar múltiplos objetivos na produção de vídeos: a divulgação de uma pesquisa e, ao mesmo tempo, a utilização em aulas como ponto de partida para a discussão de um conteúdo. A questão ambiental foi o tema escolhido. Assim, seria mostrada uma pesquisa realizada no Brasil voltada para a mitigação de um problema, de forma a criar uma sequência de atividades na sala de aula explorando os tópicos abordados no vídeo mais a fundo.

O projeto foi viabilizado por meio de uma parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Midas (INCT MIDAS), que financiou a produção dos vídeos – reunidos no canal do YouTube da instituição. O instituto pesquisa tecnologias alternativas para o reaproveitamento de resíduos e tem como um dos seus objetivos compartilhar esse conhecimento. Assim, a equipe de produção do vídeo reuniu pesquisadores na área de química, ensino de química e profissionais de mídia.

 

Falo nada, só óleo: do óleo usado ao biodiesel

Para o primeiro vídeo, foi escolhida uma pesquisa que desenvolveu tecnologias para o aproveitamento de óleo vegetal usado em frituras na produção de biodiesel. O vídeo discute o desafio de utilizar esse resíduo quando o óleo é usado de maneira incorreta e está contaminado com ácidos graxos que impactam negativamente na produção do biodiesel pela via tradicional. Mostra também como participantes do grupo de pesquisa (cada um em seu projeto de iniciação científica, mestrado ou doutorado) estão trabalhando para resolver partes do problema e destaca o papel da química na resolução de situações reais que possuem impacto ambiental e social, além de destacar a importância da colaboração entre cientistas do Brasil e de todo o mundo.


As escolhas e a forma de organização das ideias para a produção do vídeo consideraram alguns pressupostos: o formato de vídeo curto, bem aceito entre os adolescentes, e uma perspectiva que articule ciência, tecnologia e sociedade

As escolhas e a forma de organização das ideias para a produção do vídeo consideraram alguns pressupostos: o formato de vídeo curto, bem aceito entre os adolescentes; uma perspectiva que articule ciência, tecnologia e sociedade; destaque para a produção coletiva do conhecimento científico; escolha de um tema de interesse tanto dos estudantes do ensino médio quanto do ensino técnico. As atividades para uso do vídeo em sala de aula estão sendo desenvolvidas por um aluno de programa de Mestrado Profissional em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (PROMESTRE/FAE/UFMG).

Urina que fertiliza

A segunda pesquisa escolhida para o trabalho foi o projeto P4Tree (pee-four-tree – um trocadilho em inglês para “xixi para árvores”). O trabalho desenvolveu um material que retira o fósforo da urina, evitando que chegue ao ambiente e cause problemas. O material está sendo testado para ser utilizado como fertilizante fosfatado.


O vídeo foi focado em mostrar o pesquisador como uma pessoa comum, em ambientes diversos e não apenas no laboratório

O vídeo foi focado em mostrar o pesquisador como uma pessoa comum, em ambientes diversos e não apenas no laboratório; retratar o trabalho como fruto da colaboração do grupo de pesquisa com cientistas de outros países e explicar o problema ambiental da mineração de fosfato, da eutrofização dos corpos aquáticos e o desperdício de um resíduo que pode ser aproveitado.

O roteiro foi elaborado para chamar a atenção de conceitos que seriam explorados posteriormente em sala de aula. O resultado foi um vídeo com três minutos de duração e cinco atividades para serem trabalhadas em sala de aula. Na atividade inicial, os alunos assistem ao vídeo e identificam os diferentes temas abordados que serão trabalhados nas atividades seguintes, como química verde, experimento para investigar o funcionamento da tecnologia e de que forma a urina pode ser um fertilizante. Por fim, os estudantes escolhem um tópico do conteúdo para explorar e criar o seu próprio vídeo.

 

Da lama à construção civil

A produção mais recente do projeto chama-se “Argamassa geopolimérica: da lama à construção civil” e trata do aproveitamento de resíduos da mineração de ferro, relacionando o tema à lama que foi espalhada pelo rompimento da Barragem de Fundão, no desastre de Mariana. A pesquisa em questão foi desenvolvida no Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN) e teve como resultado uma argamassa que utiliza um geopolímero como pasta cimentícia e o rejeito da mineração como agregado. A produção da argamassa geopolimérica tem potencial para resolver três problemas ambientais: a emissão de gases na produção do cimento, a estocagem de rejeitos de mineração e a extração de areia. A argamassa geopolimérica apresenta maior resistência do que a argamassa convencional, pode ser utilizada na construção de diversas maneiras, como em casas, pavimentação de ruas e decoração de praças. As atividades para uso do vídeo em sala de aula também estão sendo desenvolvidas por um aluno do PROMESTRE/FAE/UFMG.

Andréa Horta Machado, Rúbia Lúcia Pereira e Alfredo Luis Mateus
Colégio Técnico (COLTEC)
Universidade Federal de Minas Gerais

Matéria publicada em 23.12.2020

COMENTÁRIOS

  • NILDSON DE AVILA SILVA

    Bom trabalho, só corrigiria que não, verdades não são passíveis de reconstrução, nem na ciência, nem fora dela. Questionamentos sim, sobre se é verdade alguma coisa, mas reconstrução não. Verdade é verdade, inverdade é inverdade e engano é engano, o que pode ocorrer é acharmos que um erro é verdade, mas se não há erro, não tem como. Caso contrário, se verdades são reconstruíveis sempre, a tese de que o planeta é plano estaria na pauta da comunidade científica porque existe quem defenda isto e questione a tese contrária. Mas esta tese nem sequer é considerada para verificação de evidencia, por que? simplesmente porque é falso que o planeta é plano. É muito mais razoável postular que estamos sonhando do que estarmos numa realidade com o planeta plano. Só relativizando o significado da palavra “plano” para salvar a tese. Cientistas tem certeza que o planeta não é plano e tem base para pensar assim porque é uma verdade, não tem como “reconstruir” esta verdade pela sua própria natureza de ser verdade. Parece preciosismo isto, mas este erro sobre a verdade fundamenta muita pseudo-ciencia e livros de divulgação cientifica ruins. Da incerteza natural de sabermos a verdade, partem para a sua inexistência e daí qualquer discurso vale (astrologia, pseudo-ciencia, etc). Afinal porque não considerar a astrologia se qualquer verdade é reconstruível? O que falta na escola também é abordarem de forma didática o método científico, filosofia da ciência, epistemologia e ceticismo.

    Publicado em 16 de janeiro de 2021 Responder

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