Floresta e oceano: aliança contra a crise climática

Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano

Rede Ressoa Oceano

Discussões na COP30 evidenciaram o papel da conexão entre esses ecossistemas na regulação do clima e no combate ao aquecimento global

CRÉDITO: ADOBE STOCK

É amplamente reconhecido que as florestas terrestres aumentam a biodiversidade e contribuem para a proteção contra as mudanças climáticas, absorvendo o dióxido de carbono (CO₂) atmosférico. Mais especificamente, as florestas amazônicas são um dos ecossistemas naturais mais produtivos do mundo, absorvendo mais de 1 bilhão de toneladas de CO₂ por ano – embora não se possa esquecer a produção de gases com a queda da floresta para dar lugar a pastagens, exploração de madeira, plantações de soja e mineração. Além disso, as florestas ajudam a regular o ciclo da água, desde a própria região amazônica, na América Latina, até globalmente. Mas não somente as florestas são as guardiãs do nosso clima. O oceano exerce um papel tão decisivo quanto — e frequentemente invisível.

Quando vistos do espaço, o azul dos mares e o verde das florestas parecem dois territórios à parte, com fronteiras bem delimitadas. Porém, o oceano tem relação direta com a integridade da Amazônia. Além disso, o oceano é tão importante quanto as florestas para a regulação climática global. Cobrindo 71% da superfície da Terra, responsável por absorver 90% do excesso de calor gerado na atmosfera, além de absorver diretamente em suas águas 30% do CO₂, o oceano é essencial para nossa resposta ao aquecimento global.

Floresta e oceano na COP30

Essa conexão entre floresta e oceano tem ganhado espaço no debate climático internacional e foi tema de um painel com especialistas e representantes governamentais durante a 30ª Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, realizada no Brasil em novembro de 2025.

Embora o documento final da conferência tenha apresentado avanços limitados, o evento trouxe contribuições simbólicas importantes para entendermos a conservação ambiental não como uma ação restrita à delimitação de uma pequena área a permanecer intocada, mas como uma estratégia que considera a relação entre diferentes ecossistemas. Isso pode ser observado na própria sede da COP30, Belém – cidade que abre as portas para a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e está situada a poucos quilômetros do litoral que abriga uma das maiores áreas contínuas de manguezais do mundo.

Para começar, precisamos entender que o oceano é indispensável para garantir a água que nutre a biodiversidade brasileira em terra firme. Segundo o climatologista Carlos Nobre, o vapor de água originado do Oceano Atlântico é transportado à América do Sul pelos ventos alísios, garantindo a umidade da floresta. Por sua vez, a intensa evapotranspiração das árvores amazônicas gera os chamados rios voadores, que transportam essa umidade para o resto do continente. Ao atingir a Cordilheira dos Andes, ela é redirecionada ao Centro-Sul do Brasil.

Assim, os rios voadores são responsáveis por boa parte da chuva que chega aos biomas Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica. E as mudanças na temperatura do oceano, portanto, podem gerar um efeito cascata e afetar diretamente esse fluxo de umidade no continente.

Nesse sentido, a pesquisadora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina, também alertou, durante a COP30, que o aumento da temperatura do planeta intensifica o risco de colapso da corrente marítima conhecida como AMOC – em português, é a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico. A AMOC é responsável por transportar a água quente do Atlântico tropical ao polo Norte. Seu resfriamento na região polar a torna mais salgada e densa. A água densa e resfriada afunda e é transportada de volta ao Sul, contribuindo para dissipar o calor do oceano.

O degelo do Ártico, no entanto, contribui para o enfraquecimento da AMOC, o que pode afetar a distribuição do calor e da precipitação pelo planeta, com aumento da temperatura nas regiões tropicais. Segundo Rodrigues, isso significa mais branqueamento dos corais no Atlântico tropical e menos resiliência especialmente no norte da Amazônia.

A combinação de aquecimento, desoxigenação e acidificação do oceano tem impacto devastador sobre os ecossistemas marinhos e terrestres. Se, por um lado, o oceano atua como grande aliado na regulação do clima, por outro, as alterações no oceano intensificam eventos extremos em regiões continentais, como secas prolongadas, excesso de chuvas e furacões.

A influência de ecossistemas costeiros e marinhos

Um ecossistema fundamental para o enfrentamento da crise climática, e que está relacionado a ambientes terrestres e aquáticos, é o manguezal, que tem múltiplas funções como proteger regiões costeiras, armazenar carbono e abrigar diversas espécies. Contudo, são ecossistemas extremamente ameaçados pela expansão urbana, poluição, desmatamento, mudanças climáticas entre outros fatores antrópicos.

Mais um exemplo são as florestas oceânicas, denominadas “florestas de algas”. Elas permanecem submersas e, por isso, acabam passando despercebidas. Grande parte do público sequer sabe de sua existência, muito menos de sua importância para a saúde do oceano e para a regulação climática. Ainda assim, essas florestas aquáticas constituem vastos habitats ao longo das regiões costeiras – cobrindo um quarto do litoral mundial – e fornecem valiosos serviços ecológicos e econômicos aos seres humanos, incluindo refúgios para a biodiversidade, fornecimento de alimentos e produtos e armazenamento de carbono.

Esses ecossistemas ilustram como as fronteiras entre o terrestre e o marinho são, na prática, artificiais.

Durante a COP30 o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou o livro Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento, reunindo contribuições da ciência brasileira acerca da crise climática, disponível para download gratuito. O livro traz uma abordagem interessante sobre diferentes campos, dividido em dez capítulos, integrando áreas diversas no contexto da mudança climática, como economia, agricultura e oceanografia. A publicação reforça justamente a necessidade de abordagens integradas, rompendo com a lógica setorial que ainda predomina nas políticas climáticas.

Esse é um ponto crucial: devemos agir com integração das áreas e dos conhecimentos para que as medidas de mitigação (redução das emissões de gases do efeito estufa) e de adaptação às mudanças climáticas (para aumentar a resiliência dos ecossistemas e das populações costeiras) sejam eficientes.

Diante da magnitude da crise climática, integrar ciência, políticas públicas e soluções baseadas na natureza não é uma opção — é uma condição para garantir qualidade de vida à população sem comprometer os ecossistemas que nos sustentam.

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

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