Pequenas perguntas, grandes questões

Por que muitas pessoas tiveram o impulso de fazer estoque de mercadorias durante pandemia?

Para responder a essa questão sob uma perspectiva psicológica, podemos analisar a nossa história como espécie. Pela maior parte da nossa história, nossos ancestrais viveram como caçadores coletores nômades. Isso significa que eles se estabeleciam em certo local por um período, desfrutavam dos recursos das redondezas e quando esses recursos se esgotavam, levantavam acampamento para buscar um novo local de fixação temporária. Uma vez que essa rotina caracteriza a maior parte da nossa história evolutiva, uma parte considerável dos nossos mecanismos psicológicos também foi selecionado nessa época.

A psicologia evolucionista compreende que, assim como características físicas são selecionadas por meio da seleção natural (por exemplo: a postura bípede, os polegares opositores), as nossas características psicológicas também foram selecionadas. Ciúmes, atração sexual, ostentação de recursos e tendência à cooperação são alguns exemplos de características que herdamos por meio da seleção natural. Mas o que a nossa evolução como espécie tem a ver com comportamentos de estocagem produtos na pandemia, como de papel higiênico, comida, máscaras etc.? Tudo!

Imagine um cenário em que uma tribo vivencia escassez de água, de animais para caçar e de frutas. Mais ainda: imagine que, nesse mesmo cenário, no momento em que essa tribo encontrasse uma fonte de água, eles vissem que outra tribo já se apossou dessa fonte. O primeiro ímpeto de solução para o problema seria, literalmente, lutar pela posse da fonte de água. É exatamente esse mesmo mecanismo de sobrevivência que ativamos quando vivenciamos contextos de grandes incertezas e insuficiência de recursos. O comportamento de estocagem de alimentos, na realidade, foi adaptativo para nossos ancestrais e é ele que faz com que nos apossemos de bens e recursos quando em tempos de escassez. Afinal de contas, acumular recursos em fases de incerteza significa aumentar nossas chances de superarmos as adversidades. Os tempos são outros, mas continuamos a ativar nossos mecanismos ancestrais.

 

Tiago Azevedo Marot

Laboratório de Psicologia Social
Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio)

Recentemente um caça militar decolou às pressas de Paris provocando tremendo estrondo por ter quebrado a barreira do som. Que barreira é essa?

Quando as cordas de um instrumento ou membrana de um tambor oscilam, o ar ao seu redor se comprime e se expande, criando uma onda de pressão, e essa oscilação se propaga. Isso é som. Onde a pressão é maior chamamos de picos, e onde a pressão é menor chamamos de vales. A separação entre dois picos consecutivos se chama ‘comprimento de onda’. Quando a fonte está em movimento, a distância entre os picos diminui ou aumenta, dependendo se a fonte está se aproximando ou se afastando do receptor – o que explica o ‘efeito Doppler’. Para ilustrar, lembremos que o som de uma sirene que se aproxima é mais agudo e, ao se afastar, é mais grave.

Podemos imaginar que os picos de pressão de uma fonte sonora geram uma sequência de esferas concêntricas, que se propagam ao redor da fonte. Quando a fonte se movimenta, essas esferas dão origem ao um cone, algo que você já deve ter visto, em uma versão bidimensional, na água, durante o movimento de um barco (ver figuras).

Quando o caça militar se movimenta, ele comprime o ar ao seu redor, dando origem a um cone, tal como na água. Quanto mais rápido a aeronave estiver, mais os picos se acumulam. Ao atingir a velocidade do som, há um acúmulo enorme de ondas exatamente à sua frente, essa é a barreira do som, que pode, inclusive, danificar o avião. Ao passar da velocidade do som, o acúmulo de ondas fica ‘atrás’ do avião, em uma esteira. O estrondo que se ouve é esse acúmulo de ondas.

Isso também explica por que não se ouve nada antes do estrondo quando a aeronave está a uma velocidade maior que a do som. Primeiro chega o estrondo; depois, as ondas mais separadas; até o som ficar tão fraco que nada mais se ouve.

 

Marco Moriconi

Instituto de Física
Universidade Federal Fluminense

Matéria publicada em 20.10.2020

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