A identificação de patógenos potencialmente perigosos para a saúde humana nesses animais pode antecipar cenários de emergência epidemiológica e contribuir para a adoção de medidas preventivas pelos serviços de saúde
A identificação de patógenos potencialmente perigosos para a saúde humana nesses animais pode antecipar cenários de emergência epidemiológica e contribuir para a adoção de medidas preventivas pelos serviços de saúde
CRÉDITO: IMAGEM ADOBESTOCK

Você sabia que a próxima pandemia pode estar escondida em uma floresta prestes a ser desmatada? Cada árvore cortada, cada caverna explorada e cada rio desviado mudam o equilíbrio entre a civilização humana e a vida selvagem. E é a partir do desequilíbrio ecológico que as doenças costumam saltar entre as espécies.
Entre os muitos animais que convivem conosco nas cidades, nos campos ou nas matas, os morcegos podem ter um papel importante nesse ciclo. Eles carregam em si uma diversidade impressionante de microrganismos, incluindo vírus, fungos, bactérias e protozoários com potencial de causar doenças graves a qualquer outro animal que deles se infectar. Mas isso não significa que sejam vilões. Na verdade, os morcegos são peças-chave na saúde dos ecossistemas: polinizam flores, dispersam sementes, são responsáveis pelo reflorestamento de diversas áreas e participam ativamente do controle populacional de insetos. O problema não está neles, mas em como nós, humanos, estamos promovendo encontros que não deveriam acontecer.
Com o avanço da ocupação humana sobre as florestas, os morcegos acabam encontrando nesses novos ambientes urbanos ou rurais uma oferta abundante de alimento e abrigo. Sem predadores naturais e com menos barreiras ecológicas, suas populações crescem de forma desequilibrada, o que não só impede sua função ecológica, mas também aumenta o risco de transmissão de inúmeros agentes zoonóticos (capazes de infectar seres humanos).
Em uma pesquisa com morcegos urbanos e rurais de 17 municípios de São Paulo, nossa equipe na Unesp de Botucatu (SP) – responsável pelo diagnóstico rotineiro da raiva como parte do programa de vigilância do estado – investigou a presença de outros agentes zoonóticos nesses animais, para avaliar a ocorrência de infecções relevantes para a saúde pública em São Paulo.
Um dos principais achados foi a bactéria Leptospira, causadora da leptospirose, em aproximadamente 43% dos morcegos vampiros de ambientes rurais. Essa alta taxa levanta questionamentos sobre o papel direto desses animais na manutenção e disseminação da doença nessas áreas e a possível influência dos morcegos na ocorrência da leptospirose bovina.
Também foram identificados, pela primeira vez, parasitas Leishmania, causadores da leishmaniose visceral e cutânea, em morcegos de áreas urbanas consideradas não endêmicas, onde não havia registro de casos originados na região. Dos animais investigados, 13% estavam infectados. Pouco tempo depois, a vigilância municipal de um desses municípios detectou o parasita em moscas hematófagas locais, o que demonstra que nosso estudo antecipou um possível cenário de emergência epidemiológica, contribuindo com a atuação preventiva dos serviços de saúde.
Além disso, detectamos, em 4% dos morcegos de áreas urbanas, a bactéria Bartonella, patógeno negligenciado no Brasil causador da bartonelose, doença que, em humanos, pode provocar lesões na pele, dores musculares e anemia. Verificamos ainda a presença de Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença de Chagas, em 3% dos animais das áreas urbanas, o que indica a possibilidade de novos reservatórios para a doença no estado de São Paulo e exige atenção redobrada nas estratégias de vigilância e controle.
Outro achado importante foi a detecção de Toxoplasma gondii, que causa toxoplasmose, em 15% dos animais analisados – a segunda maior taxa de infecção em morcegos já registrada no mundo. Esse dado é particularmente preocupante em um país como o Brasil, marcado por desigualdades sociais e fragilidades nos sistemas sanitários. Nossos resultados sugerem que os morcegos, antes considerados pouco relevantes no ciclo desse parasita, podem atuar como hospedeiros intermediários e potenciais fontes de contaminação ambiental.
Identificamos também, de forma inédita, a coinfecção por três patógenos (Bartonella, Leishmania e vírus rábico) em um morcego Myotis no município de São Manuel, na região central do estado. A detecção simultânea de três patógenos tão distintos evidencia a ampla gama de microrganismos que os morcegos podem carregar e o risco que a interação com esses animais pode gerar para o Sistema Único de Saúde.
Nesse contexto, é essencial compreender a saúde não apenas do ponto de vista do tratamento e da recuperação de pacientes, mas também da prevenção de surtos e identificação precoce de possíveis reservatórios animais. A destruição dos hábitats naturais, os interesses econômicos acima das prioridades ambientais e o desconhecimento sobre a importância do equilíbrio entre as espécies selvagens são ingredientes perigosos. Se nada mudar, é apenas questão de tempo até a próxima pandemia global. E os morcegos, mesmo em silêncio, continuam nos alertando.
Nossos resultados sugerem que os morcegos, antes considerados pouco relevantes no ciclo desse parasita, podem atuar como hospedeiros intermediários e potenciais fontes de contaminação ambiental
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