A hipótese do contato humano com outros animais é considerada para origem da covid-19, do monkeypox e agora da langya, recém-detectada na China. Por que essas infecções virais têm ocorrido aparentemente com maior frequência? Há alguma quebra de barreira biológica?

Departamento de Biologia
Universidade Federal do Espírito Santo

Diversos fatores podem estar associados a maior frequência do aparecimento desses novos vírus na população humana. Cerca de 3/4 dos patógenos infecciosos emergentes (novos na população humana) se originaram pelo contato humano com outros animais (zoonoses). Muitas vezes, os vírus não causam doença em seu hospedeiro natural, mas, quando cruzam a barreira da espécie, podem causar doença no novo hospedeiro, nesse caso os humanos. Uma vez adaptado ao novo hospedeiro, o vírus pode passar a ser transmitido a outros humanos e um surto se inicia. A maior proximidade entre humanos e outros animais parece ser a razão preponderante para a emergência de novas infecções virais. E diversos fatores estão envolvidos no aumento do contato entre humanos e outros animais, porém os principais envolvem a expansão da agricultura e, consequentemente, a remoção dos biomas originais, alterando assim os ciclos de transmissão zoonótica existentes. Com a invasão humana cada vez maior aos biomas naturais, torna-se mais provável que sejamos expostos a novos agentes infecciosos, entre eles os vírus. Esses fatores, somados à grande interconectividade global atual, favorecem o surgimento e o espalhamento de novas doenças, e assim, devemos estar preparados para enfrentar mais surtos ou pandemias de infecções virais no futuro.

Quais são as características da langya (da doença em si e da transmissão)?

Este novo vírus encontrado na China foi denominado Langya henipavirus (ou LayV). Pertence ao gênero Henipavirus, que já tem outros membros com histórico de surtos com alto risco de letalidade em humanos, como os vírus Hendra henipavirus (HeV) e Nipah henipavirus (NiV). O HeV e o NiV também são vírus zoonóticos emergentes que apresentam alta virulência e que circulam em espécies de morcegos, com potencial de causar doenças respiratórias e neurológicas em humanos e mamíferos domésticos. De acordo com artigo publicado recentemente no periódico científico New England Journal of Medicine, o LayV foi identificado durante um estudo de vigilância de pacientes com febre e histórico recente de exposição a animais. Ao menos 35 pessoas na China já foram afetadas entre os anos de 2018 e 2021. Destes pacientes, 26 apresentaram sintomas semelhantes: fadiga (54%), tosse (50%), dor de cabeça (35%). Além destes, também foram relatados vômito (35%) e problemas no funcionamento dos rins (8%) e fígado (35%). Mesmo estando no grupo de outros vírus com alta letalidade, até o momento, não há informações sobre óbitos. Como não houve contato próximo ou histórico de exposição comum entre os pacientes, a infecção do LayV na população humana parece ser esporádica, considerando que a fonte da infecção é algum animal reservatório. Esta hipótese se sustenta uma vez que mais da metade dos infectados eram agricultores. Analisando os animais domésticos e selvagens no entorno dos casos humanos positivos, os pesquisadores encontraram indícios de que os mamíferos da família Soricidae, popularmente conhecidos como musaranhos, sejam um reservatório natural do LayV.

A langya tem potencial para se transformar em uma nova pandemia? O que pode ser feito para controlar a transmissão desse vírus?

Embora exista uma grande preocupação pela descoberta de um novo henipavírus, uma vez que outros vírus desse gênero já causaram infecções com alta letalidade na Ásia e Oceania, até o momento a probabilidade de uma nova pandemia é baixa. Não foram encontradas evidências de que a transmissão entre humanos esteja ocorrendo. Porém, a possibilidade não pode ser descartada, já que os casos identificados podem corresponder a uma subamostragem. Mais estudos, investigando a distribuição desse novo vírus na população humana e animal (criação e selvagem), devem ser conduzidos para elucidar os mecanismos de transmissão. Somente o monitoramento contínuo da população com sintomas pode ajudar a prevenir o espalhamento do vírus, dado que, até o momento, não existe tratamento ou vacinas. Através de estudos iniciais, testes diagnósticos mais efetivos podem ser desenvolvidos e utilizados para o monitoramento de novos casos.

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