Um convite ao empoderamento

Laboratório de Estudos Africanos
Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Nesta resenha sobre Mulher Rei, filme que traz Viola Davis como general de um exército de guerreiras, o olhar de duas historiadoras negras destaca como o nosso imaginário é carente de figuras femininas pretas tão seguramente poderosas, soberanas, independentes e positivas  

Obra cinematográfica produzida por Viola Davis, Julius Tennon, Maria Bello, Cathy Schulman e dirigida por Gina Prince-Bythewood, “Mulher Rei” se passa no início do século 19, no poderoso Reino de Daomé – atual território do Benin – sob o governo do Rei Ghezo, interpretado por John Boyega.  

Viola, atriz principal, interpreta a personagem Nanisca, general do exército de guerreiras Agojie (também nomeadas como Ahosi, cujo significado é “esposas do Rei”), que são responsáveis pela defesa do reino. A história retrata vários aspectos da vida, do treinamento e da organização dessas mulheres, bem como do reino e do próprio rei, enquanto acompanha a trajetória da protagonista e apresenta suas orgulhosas guerreiras, Izogie (Lashana Lynch), Amenza (Sheila Atim) e Nawi (Thuso Mbedu).  

O filme assumiu o topo do ranking de bilheteria no Brasil e em algumas partes do globo, e não passou despercebido pela crítica. A que aqui gostaríamos de ressaltar é a proposital inversão de fatos históricos e a finalidade da mesma. O filme retrata o momento em que o Reino de Daomé, sob o governo do Rei Ghezo (1818-1858) e poder militar das combatentes daomeanas, torna-se independente da tutela do vigoroso Império de Oyó, situado na região dos iorubás, que se estendia pela pelo sudoeste da Nigéria e parte do Benin.  Oyó possuía muitas áreas de influência, sendo Daomé uma delas. Com sua emancipação, o povo daomeano ficou livre da obrigação de conceder tributos ao Império de Oyó, dentre eles, escravizados. Desta história de rivalidade faz-se o cenário para a manutenção da dinâmica das guerreiras ao longo da trama.  

Silenciamento histórico

A grande crítica é que “Mulher Rei”, filme que se diz “baseado em eventos reais”, utiliza-se desse momento de autonomia do reino, a partir, principalmente, da imagem de Nanisca, para identificá-lo como desfavorável ao comércio de escravizados na região, uma vez findada a obrigação de conceder tais tributos.  

Contudo, segundo o historiador nigeriano Asiwaju (2010), foi a partir de sua efetivação como núcleo de poder centralizado que o Reino de Daomé intensificou as invasões em regiões próximas a fim de capturar e produzir escravizados para o tráfico com as Américas, que já era a base principal de sua economia. Portanto, este silenciamento sobre os fatos históricos foi utilizado para respaldar um heroísmo de Nanisca, bem como das Agojies – partindo provavelmente do pressuposto que a participação dessas mulheres neste tipo de atividade danificaria sua imagem –, o que, por conseguinte, contribuiu para a intensificação da falta de conhecimento, por parte dos telespectadores, com relação a história da África em si. 

Poder, beleza e espiritualidade

Ainda que esta crítica se destaque, outros aspectos da obra a sobrepujam. O enredo é singelo e potente. Entre os treinamento e rituais das Agojies, a vida dessas mulheres, seus sonhos, desejos e medos; as estratégias de um prestigioso e crucial exército; a cultura, as aspirações e a estrutura de um reino que vive um momento importante de sua história, vão sendo contados. Como toda produção de Hollywood, esta não escapa ao drama, à história de amor e nem se furta de entregar cenas de ação violentas, dinâmicas, criativas, e alguma medida, ficcionais. Mas, nada disso é mais do que paralelo ao tema central: o poder das guerreiras Agojies 

O figurino é simples – inspirado nas vestimentas originais – e os penteados deslumbrantes e descomplicados. Diferente de outras produções que também buscaram valorizar a beleza negra, a que é explorada neste filme é alcançável. A força física, mental e espiritual dessas mulheres é intensamente exaltada. Elas são não só conscientes sobre si próprias e seu poder, como a todo momento são orientadas nessa direção. Tal representação torna-se especialmente importante quando levamos em conta o contexto da nossa sociedade. Nosso imaginário é carente de figuras femininas pretas tão seguramente poderosas, fortes, soberanas, independentes e positivas. A trilha sonora que compõe as cenas é emocionante e autêntica, e em sua maioria, com línguas e ritmos do continente africano.  

 A construção desta resenha parte de nosso trabalho enquanto historiadoras, nossa paixão por cinema e nossa satisfação, enquanto mulheres negras, de assistir uma obra não apenas protagonizada, mas em muito pensada, para nós. À vista do exposto, nossa avaliação é otimista. Acreditamos que o bem que a obra faz para o imaginário do público supera suas contradições. Para nós, o sentimento que fica ao final da sessão é de engrandecimento, empoderamento e prazer. Entendendo serem esses os maiores objetivos dessa produção, a julgamos como um sucesso.  

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