Solos: patrimônio natural indispensável

Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos (Lagesolos)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O solo é muito mais do que terra, barro ou, como alguns pensam, apenas sujeira. É, na verdade, um sistema dinâmico e complexo. Mais importante: vivo. Esse recurso natural é fundamental para a vida planetária, o equilíbrio ambiental e a produção de alimentos. Portanto, deveria ser conservado. Mas estima-se que 33% dos solos no mundo já estejam algo degradados. Desmistificar percepções equivocadas sobre os solos é um dos grandes desafios da atualidade. Neste artigo, você vai conhecer mais sobre o chão onde pisa.

CRÉDITO: ILUSTRAÇÕES AMPERSAND BY GEMINI

O solo – muitas vezes, visto só como suporte para as atividades humanas – acaba tornando-se invisível no cotidiano, reduzido à condição de um substrato inerte. Contudo, uma pergunta simples – ‘Você conhece o chão onde pisa?’ – é um exercício provocativo, capaz de suscitar importantes reflexões sobre a importância desse recurso para a vida na Terra. 

No senso comum, o solo – denominado terra, barro ou, na língua tupi-guarani, Yby – é, por vezes, equivocadamente associado à sujeira. Mas, do ponto de vista científico, é um sistema vivo, dinâmico e complexo, formado ao longo de milhares (e, em muitos casos, milhões) de anos, por meio da interação entre processos físicos, químicos e biológicos.

O solo abriga uma complexa comunidade de microrganismos e fauna edáfica (composta, em sua maior parte, por animais invertebrados), concentrando mais de 25% da diversidade de vida terrestre. Essa diversidade biológica é responsável por processos fundamentais, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes, a formação e estabilização da estrutura do solo e o sequestro de carbono. 

Sob nossos pés, há solos com perfis profundos, com camadas (horizontes) bem desenvolvidas, formadas, como dissemos, ao longo de milhares a milhões de anos, enquanto outros são rasos, jovens, ainda em formação. 

E essa herança invisível do tempo manifesta-se na forma de características físicas que podemos aprender a interpretar. Para além do que se encontra sob nossos pés, é possível também desenvolver práticas de leitura visual, tátil e sensorial do solo, como estratégia de aproximação com esse componente fundamental da paisagem (figura 1). 

Figura 1. Em uma simples caminhada por uma trilha, é possível observar e descrev

Figura 1. Em uma simples caminhada por uma trilha, é possível observar e descrever alguns atributos morfológicos do solo, como cor, consistência, textura e porosidade, a partir de características perceptíveis a nossos sentidos – principalmente, visão e tato

CRÉDITO: CARTILHA SOLOS – CONHECENDO SUA HISTÓRIA: CADERNO DE ATIVIDADES/OFICINA DE TEXTOS (2024)

Esse tipo de atividade tem sido implementado em projetos educativos, em diferentes níveis de ensino, desde o ciclo básico, contribuindo, assim, para a construção do conhecimento científico, a partir da experiência direta, em nível local. 

Exemplos desse tipo de trabalho vêm sendo realizados no Laboratório de Geomorfologia Ambiental e Degradação dos Solos (Lagesolos) – vinculado do Departamento de Geografia, do Instituto de Geociências, da Universidade Federal do Rio de Janeiro –, em parceria com escolas municipais do Rio de Janeiro.

Refletir sobre ‘os solos sob nossos pés’ é uma forma de chamar a atenção para os serviços ecossistêmicos que esses sistemas desempenham e que são fundamentais para a manutenção da vida na Terra.

Entre esses serviços, destacam-se: i) os de suporte, que incluem a formação do solo e a ciclagem de nutrientes; ii) de provisão, que abrangem a produção de alimentos, o armazenamento e a regulação da água, além do fornecimento de madeira, fibras e outras matérias-primas; iii) de regulação, relacionados tanto à mitigação das mudanças climáticas (por meio do sequestro de carbono) quanto ao controle de enchentes, bem como à purificação da água e à regulação de organismos patogênicos; iv) serviços culturais, que contemplam valores estéticos, espirituais, identitários e recreativos associados às paisagens e aos territórios.

Mas muitos desses serviços estão cada vez mais ameaçados por processos de degradação (como erosão, contaminação, compactação, impermeabilização e perda de matéria orgânica), resultantes principalmente das atividades humanas.

No senso comum, o solo – denominado terra, barro ou, na língua tupi-guarani, Yby – é, por vezes, equivocadamente associado à sujeira

Solos degradados, serviços comprometidos

Segundo o relatório El estado mundial de la agricultura y la alimentación 2025, elaborado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), quase todas as áreas habitadas do planeta apresentam algum tipo de degradação do solo induzida pelas atividades humanas – especialmente em decorrência de desmatamento, sobrepastoreio e práticas agrícolas insustentáveis –, o que tem comprometido a produtividade agrícola e a segurança alimentar, configurando-se como um desafio global.

Sobre a relação entre solos saudáveis e segurança alimentar, a pesquisadora Ana Maria Primavesi (1920-2020) – pioneira na valorização do manejo ecológico do solo no Brasil – já chamava a atenção para a importância dos solos saudáveis, como condição indispensável para ecossistemas equilibrados e sociedades sustentáveis. Segundo ela, “solos saudáveis geram pessoas saudáveis”, estabelecendo, com isso, relação direta entre a qualidade do solo, a produção de alimentos e a saúde humana. 

Em sua obra clássica Manejo ecológico do solo (2006), Primavesi defendeu que o solo não deve ser tratado como simples suporte inerte, mas como um sistema vivo, cuja vitalidade determina a qualidade da produção agrícola e do ambiente.

Refletir sobre ‘os solos sob nossos pés’ é uma forma de chamar atenção para os serviços ecossistêmicos que esses sistemas desempenham e que são fundamentais para a manutenção da vida na Terra

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