A descoberta, no século 17, dos supostos restos do ser mítico levou a cidade alemã ao centro de uma grande confusão paleontológica. Mas, afinal, qual bicho foi encontrado lá?
A descoberta, no século 17, dos supostos restos do ser mítico levou a cidade alemã ao centro de uma grande confusão paleontológica. Mas, afinal, qual bicho foi encontrado lá?
CRÉDITO: WIKIMEDIA COMMONS

Michael Bernhard Valentini in Museum Museorum (1704)
Unicórnios, fadas, centauros, pé-grande, dragões e sereias são alguns dos seres míticos mais populares do nosso planeta. Essas criaturas estão presentes em lendas e folclore de diferentes povos, são histórias passadas de geração em geração que sobreviveram ao teste do tempo e chegaram até nós. Essas histórias trazem reflexões e ensinamentos de suas culturas originárias. Apesar de sua importância cultural, todos esses seres míticos têm algo em comum: não existem no mundo real. Mesmo que muitos sejam inspirados em seres vivos, seria uma surpresa se um cientista anunciasse a descoberta de um fóssil de uma dessas criaturas. Mas, por mais improvável que pareça, foi exatamente isso que aconteceu em 1663, quando foi anunciada a descoberta do fóssil de um unicórnio na cidade alemã de Magdeburgo, na região de Seweckenberge, já conhecida por outras descobertas de fósseis.
O anúncio dessa descoberta é atribuído a Otto von Guericke (1602-1686), um famoso naturalista alemão. Ele nasceu em Magdeburgo, em uma família de classe média alta, e estudou em excelentes escolas da Alemanha. Foi um dos pioneiros no estudo do vácuo e da pressão atmosférica e contribuiu para o entendimento básico da física de fluidos e dos gases. Ele foi também o inventor da bomba de vácuo e, em 1654, realizou o famoso experimento dos hemisférios de Magdeburgo. Guericke queria demonstrar o efeito da pressão atmosférica em objetos com vácuo em seu interior.
Além de físico e engenheiro, Guericke se tornou político. Foi até mesmo prefeito de Magdeburgo por 35 anos. O experimento dos hemisférios de Magdeburgo trouxe atenção de volta à sua cidade, que havia sido devastada e saqueada em 1631, na brutal Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Além disso, na época da descoberta do fóssil, havia uma lenda sobre um local conhecido como “caverna do unicórnio”, e a venda dos supostos ossos de unicórnio para fins medicinais era bem comum naquela região. É nesse contexto que alguns historiadores acreditam que a decisão de Guericke em declarar o fóssil encontrado em 1663 como de um unicórnio pode estar relacionada com a necessidade de atrair turistas de volta à cidade.
Quando foram encontrados, os fósseis estavam em um estado pouco comum. Eram enormes e estavam espalhados, como se tivessem sido quebrados à força. Havia um enorme crânio e um único chifre gigante. A recuperação e o transporte dos ossos foram feitos por pessoas que não tinham treinamento para exercer essa tarefa. Relatos históricos contam que, cinco anos depois da descoberta, Guericke montou uma reconstrução do unicórnio, e o resultado foi um tanto quanto bizarro. O animal era bípede, tinha apenas as patas da frente acopladas a espinha dorsal, que se arrastava em uma extremidade enquanto no outro lado estava o crânio, que obviamente tinha apenas um chifre. Mas os ossos tinham tamanhos desproporcionais, e não pareciam vir do mesmo animal. As imagens originais supostamente desenhadas por Guericke foram perdidas, assim como os fósseis originais.
Alguns historiadores modernos acreditam que os desenhos e a reconstrução foram realizados, na verdade, por Johann Meyer (1635-1665), astrônomo e tesoureiro da Abadia Superior da cidade de Quedlinburgo, uma região administrativa que fica próxima a Magdeburgo e ao local onde os fósseis foram guardados após a descoberta. Ele teria sido responsável por escavar os fósseis e, mais tarde, pela estranha reconstrução do unicórnio bípede. Meyer escreveu um relatório sobre seus achados e adicionou um desenho esquemático da reconstrução dos ossos. Em algum momento da história, esse relatório foi lido pelo médico, naturalista e colecionador de curiosidades Michael Bernhard Valentini (1657-1729), que por sua vez reproduziu as informações do relatório de Meyer, assim como um desenho do unicórnio em uma de suas obras (Museum Museorum, de 1714). Valentini afirma que Guericke também assinava o relatório original, mas esse documento não foi preservado, e ninguém pode atestar a veracidade desse fato. No entanto, é pouco provável que Guericke, um famoso cientista e prefeito da cidade de Magdeburgo, não tenha examinado o achado de perto.
A história se torna ainda mais enrolada quando Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), o genial filósofo e matemático polímata alemão, recebe a obra de Valentini e o relatório de Meyer. Leibniz reproduz o relato sobre o unicórnio de Guericke em seu livro Protogaea, um tratado póstumo (1749) sobre ciências da Terra. Leibniz, que mantinha um sério interesse em geologia e no estudo emergente de fósseis, examinou descrições e ilustrações da descoberta, e manteve uma abordagem cautelosa e metódica. Mas ele não descartou imediatamente a reconstrução, em parte porque a taxonomia de grandes mamíferos ainda era pouco compreendida. Em vez disso, considerou a possibilidade de que tais restos mortais pertencessem a uma espécie desconhecida. Mas Leibniz nunca examinou de perto esses fósseis. Nos resta uma pergunta a ser respondida: se os fósseis não eram de um unicórnio, então que animal era aquele?
Unicórnios são criaturas míticas, com um chifre que confere poderes mágicos ao animal, geralmente poderes de cura. Os primeiros relatos na literatura ocidental vêm da Grécia antiga, nos escritos do médico Ctesias, datados do século 4 A.E.C. Ctesias trabalhou na Pérsia (onde hoje fica o Irã), e escreveu alguns livros sobre suas andanças na Ásia. Ele descreveu os unicórnios como animais do porte de cavalos, com corpos brancos, cabeças vermelhas e olhos azuis. Nos relatos, esses animais tinham um único chifre na testa, com cerca de meio metro de comprimento. Ctesias ainda acrescentou que os chifres eram multicoloridos, e que os animais eram tão velozes e poderosos que nenhuma criatura, nem o cavalo, conseguia alcançá-los. Ctesias nunca viu uma criatura como essa. Seus escritos foram baseados em relatos de outras pessoas e, provavelmente, são uma amálgama de vários animais, com uma boa pitada de fantasia.
O mito do unicórnio sobreviveu por muitos séculos, a maioria das pessoas na Idade Média acreditava que o unicórnio era um animal real, mas extremamente raro. Até 1741, farmácias vendiam pó de chifre de unicórnio em Londres. Os chifres, por sinal, eram muito valiosos e disputados pela nobreza europeia, mas, em sua maioria, não passavam de presas de narval (Monodon monoceros, um tipo de baleia que vive no Ártico).

Réplica de 2,5 metros de altura, baseada no relato histórico e nas duas ilustrações, se encontra hoje Museu de História Natural de Magdeburgo, Alemanha
CRÉDITO: REPRODUÇÃO
O mito do unicórnio provavelmente surgiu a partir da observação de animais que realmente existiram (ou de seus fósseis). Temos algumas suspeitas sobre quais poderiam ser, e um dos mais citados é o já extinto Elasmotherium sibericum. Da família dos rinocerontes, esse herbívoro gigante pesava cerca de 4 toneladas. Estudos recentes com fósseis do E. sibericum mostraram que esses animais ainda caminhavam pelo nosso planeta até cerca de 35 mil anos atrás, isso quer dizer que foram contemporâneos dos humanos modernos. Além disso, fósseis dessa espécie foram descobertos e vistos por muitos humanos, o que pode ter contribuído para a mitologia do unicórnio. Outros candidatos a “unicórnio” foram o rinoceronte-indiano (Rhinoceros unicornis), mas também (fósseis de) rinoceronte-lanudo (Coelodonta antiquitatis) e o mamute-lanudo (Mammuthus primigenius).
Tudo indica que o unicórnio de Magdeburgo foi uma mistura de vários animais: o chifre é provavelmente a presa de um narval, o crânio se assemelha ao de um fossilizado de rinoceronte-lanudo, e as omoplatas e os ossos das duas patas dianteiras se assemelha aos do extinto mamute-lanudo. Exceto pelo narval, outros fósseis desses animais já haviam sido encontrados na região de Magdeburgo.
Esse caso ilustra um momento de transição, quando a observação empírica começou a desafiar mitologias herdadas. Naquela época, a própria natureza dos fósseis ainda era debatida. Alguns estudiosos os interpretavam como meros “caprichos da natureza” (lusus naturae), enquanto outros, incluindo Leibniz, consideravam-nos como restos petrificados de organismos que outrora viveram. Esse ceticismo crescente, reflete a mudança gradual em direção à paleontologia moderna e a uma compreensão mais rigorosa do passado remoto da Terra. Quanto ao unicórnio de Magdeburgo, apesar de os fósseis terem desaparecido, uma réplica de 2,5 metros de altura está exposta no museu de história natural da cidade alemã, reconstruída de acordo com o relato histórico e as duas ilustrações sobreviventes.
Unicórnios são criaturas míticas, com um chifre que confere poderes mágicos ao animal, geralmente poderes de cura. Os primeiros relatos na literatura ocidental vêm da Grécia antiga
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