Voo sobre o maior escândalo de doping da história

Para revelar como se dá o uso de substâncias proibidas no esporte, documentário Ícaro se envolve em rede de intriga e corrupção do ‘caso Rússia’.

 

Um eterno jogo de gato e rato. É possível descrever assim a disputa entre os responsáveis por exames antidoping e os atletas que apelam para substâncias e métodos proibidos a fim de aumentar sua performance esportiva. Desde que a fiscalização ao uso de doping começou, há apenas 50 anos, o cerco se fechou e os métodos de detecção foram aprimorados.  Mas persiste a questão: é possível burlar os exames antidopagem? O rato ainda é capaz de enganar do gato?

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Divulgação/ Netflix

Foi a essa pergunta que o documentário Ícaro (Icarus, EUA, 2017), uma produção original da Netflix premiada com o Oscar de Melhor Documentário, tentou responder. E a forma encontrada para fazer isso foi acompanhar um experimento absolutamente questionável do ponto de vista ético: demonstrar a possibilidade de se administrar doses elevadas de drogas promotoras do desempenho e, ainda assim, não testar positivo em um laboratório.

Aqui é necessária uma pausa na trama para tratar do sistema de controle de doping, criado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1968, diante da certeza do uso de substâncias promotoras do desempenho e de evidências, como a morte de atletas, por vezes durante competições, como resultado da combinação da extenuação física e dos efeitos das drogas utilizadas. A motivação do sistema: a proteção da ética no esporte.

Apesar de todos os esforços do COI, atletas ainda eram capazes de burlar os exames. A gota d’água foi o escândalo Ben Johnson, nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul. Como foi possível um velocista de ponta passar por tantos exames ao longo da carreira e ser flagrado apenas na final olímpica dos 100 metros rasos? O prejuízo para a imagem dos Jogos Olímpicos e do controle de dopagem foi imensurável. Por isso, a partir de 1999, a missão passou à Agência Mundial Antidopagem (Wada, do inglês World Antidoping Agency).

Sob as rédeas da Wada, o sistema amadureceu e se desenvolveu. A capacidade de detecção dos laboratórios aumentou e as autoridades de cada país foram pressionadas a se comprometer com o combate à dopagem. Mesmo assim, escândalos, como o protagonizado pelo ciclista norte-americano Lance Armstrong, nunca flagrado e hoje réu confesso do uso de substâncias, alimentam dúvidas sobre a eficiência do sistema.

Talvez, por isso, ludibriar um laboratório credenciado pela Wada fosse a meta de Ícaro.

 

O experimento

O próprio documentarista, Bryan Fogel, foi a cobaia. Ciclista amador, ele deu início a um protocolo que incluiu a administração de diferentes agentes dopantes, como testosterona, eritropoietina e hormônio gonadotrópico (hCG). A testosterona, popularmente conhecida como ‘hormônio masculino’, tem propriedades anabólicas, ou seja, aumenta a massa muscular. O uso do hCG promove o aumento da produção da testosterona no próprio corpo. É muito usado para evitar a atrofia testicular, um dos muitos efeitos adversos dos anabolizantes no homem. Já a eritropoietina, um hormônio com alta incidência de abuso no ciclismo, aumenta a formação de hemácias, parte do sangue responsável pela oxigenação do corpo, e,consequentemente, aumenta a capacidade aeróbica.

Divulgação/ Netflix

Para surpresa do espectador, todo o procedimento foi supervisionado por um conceituado, porém controverso, membro da comunidade antidopagem, Grigory Rodchenkov, diretor do Laboratório de Moscou, acreditado pela Wada. Rodchenkov foi responsável pelos exames dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, na Rússia. Membro da comunidade antidopagem, teve participação nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, e em pelo menos uma dezena de outras competições internacionais envolvendo atletas de elite. A participação de Rodchenkov em tal aventura foi, por si só, um escândalo.

Seria o experimento realizado no documentário bem-sucedido? O protocolo de administração de substâncias seria capaz de burlar os exames? O rato enganaria mais uma vez o gato? É nesse clima de suspense que, tal qual um mutante, Ícaro se transforma.

Antes dos resultados das análises, ou seja, antes que o experimento inicialmente proposto por Ícaro chegasse ao fim, o sistema antidopagem (o gato) teve sucesso em reunir evidências contra Rodchenkov (pela nossa analogia, o rato) referentes a um escândalo de proporções épicas, e não relacionadas ao documentário.

Com base na investigação desenvolvida por um jornalista alemão meses antes, a Wada acusava Rodchenkov de ser o responsável pela troca de amostras positivas de atletas russos por outras negativas, destruição de amostras, recebimento de dinheiro para ocultação de resultados, entre outros crimes. Além de Rodchenkov, altas autoridades esportivas russas estariam envolvidas.

O documentarista se vê, então, envolvido em um esquema de corrupção e trama internacional dignos dos clássicos de espionagem no cinema. Ícaro tropeçou em um esquema de fraude que, segundo testemunho de Rodchenkov, datava de décadas.

Outras perguntas surgem. Teria o documentarista se aproveitado de Rodchenkov? Teria Rodchenkov se aproveitado da oportunidade criada pelo documentário para colocar em ação um plano de fuga do governo russo? Seria Rodchenkov louco?

O documentário é material obrigatório para fãs dos esportes, interessados em controle de dopagem e em intriga internacional.

Ícaro não responde objetivamente se existem protocolos sendo utilizados para burlar os exames. Pelo documentário, não é possível demonstrar que o rato consegue fugir do gato para sempre. Hoje, Rodchenkov é considerado um criminoso na Rússia. Está escondido nos Estados Unidos pelo Programa de Proteção a Testemunha do FBI.

Esse rato o gato conseguiu pegar.

Henrique Marcelo Gualberto Pereira
Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem,
Instituto de Química,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 04.07.2018

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