Um almodóvar impregnado de história

Em Mães paralelas, o cineasta espanhol vai além do protagonismo feminino, abordando a ética entre as mulheres e a importância subjetiva da memória histórica

CRÉDITO: FOTO DIVULGAÇÃO

Compromisso com a memória

Entre a gestação e a maternidade, Janis parte para um determinado povoado da Espanha, onde busca restaurar a memória do bisavô e de outros homens da localidade que, nos anos 1930, viveram o terror da organização política de inspiração fascista Falange Espanhola.

No dia 25 de julho em Aldea de los Montes, cerca de 10 homens foram brutalmente arrancados de suas casas e assassinados. A história é revelada, 80 anos depois, por Janis e Arturo e restituída ao povoado sua memória. Na escavação da fossa foram encontrados junto às ossadas alguns objetos da vida cotidiana: o chocalho da filha, um pé de sapato, as alpargatas, um olho de vidro, a aliança de casamento… Muitos elementos, materiais e subjetivos, se fundem nessa recuperação de sentido histórico e do tempo violentamente perdido.

 

O paralelismo duro

Uma das sutilezas do filme está em Janis viver certa simultaneidade de tempos: o imediato, o agora, o da sua gravidez e maternidade, e o do passado. Esses dois tempos, aparentemente paralelos, se encontram na trajetória de várias mulheres.

Mas o filme trata também da nossa história recente, e nos impele a situar as atrocidades que têm sido cometidas na América do Sul: o assassinato de homens e mulheres durante as ditaduras militares, os sequestros dos filhos ainda crianças, as resistências históricas das Mães da Praça de Maio, na Argentina, a dor das mães que perdem seus filhos e filhas pela violência institucionalizada e racial brasileira, as mães que buscam hoje os corpos dos seus filhos e filhas migrantes ao longo da fronteira entre o México e os Estados Unidos.

As películas de Almodóvar sempre reservaram um lugar de protagonismo às mulheres. Mas, em Mães paralelas, o diretor nos oferece diretamente um filme sobre amizade e a ética entre as mulheres, sobre a importância subjetiva da memória histórica, sobre a reconstrução e o nascimento.

Gislene Santos
Departamento de Geografia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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