O Big Brother da física nuclear

Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

No final da Segunda Guerra Mundial, dez cientistas alemães foram encarcerados em uma casa na Inglaterra, onde todos os aposentos estavam equipados com microfones ocultos, permitindo que as forças aliadas escutassem as conversas entre mentes brilhantes

CRÉDITO: FARM HALL/FLICKR

Por mais estranho que possa parecer, uma operação ocorrida no final da Segunda Guerra Mundial tem grande similaridade com o programa Big Brother. Capturados por militares do grupo dos Aliados – composto por Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos –, dez cientistas alemães foram encarcerados em uma casa de campo em Godmanchester, na Inglaterra. A casa, conhecida como Farm Hall, teve todos os seus aposentos e áreas externas equipados com microfones ocultos. Durante seis meses, as forças aliadas escutaram as conversas e tiraram suas conclusões. Esse ardil foi chamado operação Epsilon.

Os cientistas monitorados eram físicos e químicos considerados brilhantes, muitos deles haviam trabalhado ou contribuído, ainda que involuntariamente, para o desenvolvimento do programa nuclear nazista. Os dois nomes de maior destaque são Otto Hahn (1879-1968), que recebeu o Nobel de Química em 1945, por descobrir o princípio da fissão nuclear, essencial para o desenvolvimento das bombas atômicas; e Werner Heisenberg (1901-1976), Nobel de Física em 1932, por suas contribuições na criação da mecânica quântica, e que ficou conhecido pelo seu princípio da incerteza, mas foi o principal cientista do programa alemão de armas nucleares.

Também faziam parte do grupo o físico Erich Bagge (1912-1996), pioneiro no enriquecimento de urânio; o físico-químico Paul Harteck (1902-1985) e o físico Horst Korsching (1912-1998), que realizaram a separação de isótopos de urânio; o físico Walther Gerlach (1889-1979) pela descoberta da quantização do spin; Max von Laue (1879-1960), Nobel de Física em 1914, pela descoberta da difração de raios-X por cristais, o físico Carl Friedrich von Weizsäcker (1912-2007), um dos primeiros cientistas a reconhecer o potencial das armas nucleares; Karl Wirtz (1910-1994), físico nuclear que trabalhou no projeto de reatores nucleares; e o também físico nuclear Kurt Diebner (1905-1964), diretor administrativo do programa de armas nucleares da Alemanha nazista.

Você, leitora ou leitor, pode estar se perguntando: “será que nenhum desses cientistas brilhantes desconfiou que estava sendo monitorado?”. Precisamos lembrar que esses eventos aconteceram na década de 1940, e equipamentos para monitorar e gravar conversas em segredo não eram tão avançados. Fitas cassete ainda estavam sendo aprimoradas, de forma que as escutas foram registradas em discos de laca (Shellac), material usado antes mesmo dos discos de vinil. Depois de gravados, os áudios eram traduzidos do alemão para o inglês e os discos, reutilizados. As gravações originais não foram preservadas, apenas o material transcrito.

Ainda assim, certa desconfiança pairava no ar. Em determinado momento, Diebner questionou se não haveria microfones instalados na casa. Heisenberg prontamente respondeu rindo: “microfones instalados? Ah, não, eles não são tão engraçadinhos assim. Eu não acho que eles conheçam os verdadeiros métodos da Gestapo [serviço secreto nazista]; eles são um pouco antiquados nesse aspecto”. Uma falha dessas renderia uma eliminação imediata no Big Brother da TV!

Big Brother em ação

Os militares aliados queriam saber até aonde o programa de armas nucleares nazista havia avançado. Por isso, além de interrogar os cientistas em particular, o serviço secreto da Inglaterra bolou esse plano. A ideia era monitorar os cientistas em um ambiente menos hostil do que uma sala de interrogatório. Os enclausurados recebiam informações do desenrolar da guerra, e suas reações podiam ser avaliadas em tempo real.

A ideia era monitorar os cientistas em um ambiente menos hostil do que uma sala de interrogatório. Os enclausurados recebiam informações do desenrolar da guerra, e suas reações podiam ser avaliadas em tempo real

Na visão das forças armadas aliadas, interrogar os cientistas não era suficiente. Eles queriam deixá-los à vontade, e assim tentar “pescar” informações sigilosas nas entrelinhas das conversas entre esses cientistas. Foi exatamente isso que aconteceu quando os americanos lançaram bombas atômicas no Japão. Na noite de 6 de agosto de 1945, quando a primeira bomba atômica explodia em Hiroshima, no Japão, um oficial do serviço de inteligência britânico e um dos responsáveis pelo cativeiro, o Major Rittner, informou pessoalmente o Otto Hahn sobre o evento. A notícia foi compartilhada com os demais membros do grupo e, inicialmente, nenhum deles acreditou que os Estados Unidos haviam conseguido desenvolver uma bomba atômica em tão pouco tempo.

Alguns consideraram se tratar de uma armação, ou até mesmo de uma Fake News. Outros imaginaram ser um explosivo comum, mas com maior carga ou velocidade de explosão, o que explicaria seu poder destrutivo. Otto Hahn ficou particularmente devastado pela notícia. Sendo um dos pioneiros da fissão nuclear, ele se sentiu culpado e amaldiçoou sua própria descoberta por trazer tamanho sofrimento à humanidade. Fissão nuclear significa dividir o núcleo de um átomo pesado em dois átomos menores, com grande liberação de energia e fragmentos de átomos (leia o quadro ‘Síntese da fissão atômica’). Aprender a controlar esse processo foi essencial para o desenvolvimento das bombas atômicas.

O anúncio da explosão

Às nove horas da noite, o grupo se reuniu para ouvir o anúncio oficial no rádio. O sentimento de incredulidade deu lugar a discussões acaloradas sobre a distância entre o progresso feito nos EUA e na Alemanha nazista. O debate, e as dúvidas, foram principalmente acerca da quantidade de material radioativo necessário para gerar uma explosão nuclear (a massa crítica do Urânio-235), e como os aliados conseguiram enriquecer esse Urânio.

A grata surpresa das tropas aliadas que escutavam a conversa foi que nenhum dos cientistas ali tinha a mais vaga ideia da massa crítica necessária para construir uma bomba desse tipo. As estimativas variavam absurdamente, inclusive as do próprio Heisenberg, uma das estrelas do grupo e um dos líderes do Uranverein (clube do urânio), como era chamado o programa de armas nucleares de Hitler. A história nos conta que Heisenberg cometeu um erro crucial no cálculo da dispersão e multiplicação de nêutrons em uma bomba baseada em fissão nuclear, elevando a massa crítica de Urânio-235 para algumas toneladas. Quando questionado por Otto Hahn, Heisenberg afirmou que seus cálculos colocavam a massa crítica entre 50 e 5.000 quilos! Bem diferente da massa crítica calculada pelos aliados na construção das bombas atômicas detonadas no Japão. De fato, Little boy, a bomba detonada em Hiroshima, carregava 64 quilos de Urânio-235.

Esses erros de cálculo podem ter sido cruciais para determinar o andamento do programa de armas nucleares nazista durante a guerra, fazendo com que o projeto da bomba alemã fosse colocado em segundo plano. Afinal, seria desperdício de dinheiro e material investir em um projeto tão improvável, que nem mesmo os principais cientistas alemães acreditavam ser viável durante a guerra.

Erros de cálculo podem ter sido cruciais para determinar o andamento do programa de armas nucleares nazista durante a guerra, fazendo com que o projeto da bomba alemã fosse colocado em segundo plano

O fim da Guerra

Após o final da guerra, os dez cientistas puderam retornar aos seus afazeres. Houve quem migrasse para outros países e quem retornasse para a Alemanha, como von Laue, a fim de colaborar no esforço de reconstrução do país. Em comum, todos tinham uma marca vexatória em seus currículos: haviam trabalhado para o programa nuclear nazista. O discurso predominante entre eles era o de “colaboradores involuntários”. Em entrevistas no pós-guerra, as motivações variavam. Alguns afirmaram que jamais pretendiam realmente desenvolver uma bomba atômica, e estavam trabalhando no desenvolvimento da fissão nuclear para geração de energia. Outros garantiram que autossabotaram seu próprio esforço para atrasar a fabricação de tal arma. Nenhum admitiu colaborar entusiasticamente com o regime nazista. Mas, em 1992, quando os transcritos de Farm Hall se tornaram públicos, o mundo acreditou que a verdade finalmente seria revelada: afinal, aquelas mentes brilhantes buscaram desenvolver uma bomba atômica para Hitler ou estavam realmente atrasando sua criação?

Nesse sentido, os transcritos de Farm Hall não puderam ajudar tanto quanto se esperava. As gravações, infelizmente, não foram preservadas, apenas traduções de momentos, fragmentos que os aliados consideravam mais importantes do ponto de vista técnico para a construção da bomba. Ademais, traduções por escrito não conseguem capturar a entonação das conversas, os sentimentos, as nuances da comunicação verbal. No final das contas, o “grande irmão” de Farm Hall dormiu no ponto! Trechos das transcrições podem ser interpretados de diferentes maneiras, e muitas vezes, os atores envolvidos deram declarações contraditórias sobre suas convicções. Mas em alguns momentos fica claro que o programa nazista de armas nucleares não avançou porque os seus principais expoentes não tinham muitas das respostas para as perguntas complicadas que envolvem a fabricação de uma bomba atômica.

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