A cultura que resiste na alimentação

Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano
Instituto Oceanográfico
Universidade de São Paulo
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O estilo de vida caiçara, que sofreu intenso impacto do turismo em regiões costeiras, encontrou na culinária uma forma de valorização e resistência social

CRÉDITO: FOTO DIVULGAÇÃO

A zona costeira brasileira está em permanente transformação. Prova disso são as interferências sofridas pelas populações caiçaras ao longo de sua história. Os caiçaras são um povo tradicional das regiões costeiras dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina,  que habitam espaços entre a mata e o mar e utilizam diferentes ambientes da zona costeira – como estuários, manguezais, praias, restingas e lagunas – para sustentar seu modo de vida.

A cultura caiçara está representada nos mais diversos saberes e costumes tradicionais, impressa em sua forma de moradia, linguagem, música, dança e alimentação. Tudo em conexão com a natureza, numa construção que se deu ao longo do tempo e tem se propagado através das gerações.

Mas é fato que esse estilo de vida integrado à natureza e dela dependente sofreu intenso impacto em meados do século 20, quando o turismo em regiões costeiras aumentou e a demanda por casas de veraneio levou à expropriação das terras caiçaras. Em paralelo a esse processo, uma nova política governamental estabeleceu a proibição da ocupação e dos usos tradicionalmente realizados pelos caiçaras nos parques que foram criados a partir da década de 1970. Assim, a vida caiçara foi, pouco a pouco, transformada.

A retirada de seu território tradicional acarretou diversos problemas para as comunidades. Uma das consequências foi a inserção forçada dos caiçaras a um novo território – o centro das cidades –, o que provocou mudanças em seus costumes tradicionais. O distanciamento do mar, da pesca e da floresta somado à dificuldade de praticar o roçado e construir suas canoas teve reflexos na alimentação do caiçara.

Essas novas condições também acarretaram em uma separação dos jovens com relação ao viver tradicional nas comunidades, uma vez que os conhecimentos e costumes passaram a ter pouca repercussão em suas práticas, incluindo a culinária.

Além dos fatores sociais, mudanças ambientais, como a diminuição da abundância de peixes e a degradação da qualidade do meio ambiente, foram determinantes para a perda da cultura alimentar caiçara. Além disso, a conveniência com a vida moderna ampliou o acesso a produtos industrializados, como alimentos processados, que modificaram a dieta tradicional.

Recentemente, porém, por meio da articulação das comunidades e do renascer das atividades de dança e folclore, que fortalecem os saberes tradicionais e reconstroem um espaço de coletividade, a cultura caiçara tem sido resgatada e valorizada. Um exemplo está nas iniciativas de turismo de base comunitária, que têm a tradição alimentar como elemento central. É o que acontece na reserva extrativista do Mandira, no litoral sul do estado de São Paulo, onde os mais velhos cultivam em seus quintais produtos tradicionalmente utilizados na culinária caiçara – mandioca, batata-doce, cará, cará-moela, cará-espinho, inhame, banana, cambuci e gabiroba – e mantêm entre seus costumes atividades relacionadas à pesca, como a salga e a defumação.

O fortalecimento da identidade cultural caiçara a partir da sua culinária é, portanto, uma forma de valorização e resistência social. A culinária caiçara constrói uma ponte entre o passado e o presente, conectando o futuro com a riqueza singular dos povos do mar.

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