Entre a terra firme, a água doce e o mar

Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano
Universidade Estadual Paulista

Injustiçado, o manguezal é errônea e frequentemente associado à sujeira ou à pobreza, sendo, no entanto, um dos ecossistemas mais produtivos do planeta

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

Presente em regiões costeiras tropicais e subtropicais do planeta – em países como Índia, Blangladesh e Brasil –, o manguezal apresenta uma mistura de características específicas de ambientes terrestres, marinhos e de água doce. Erroneamente associado à sujeira ou à pobreza, esse ecossistema tem baixo teor de oxigênio (para fazerem troca gasosa com a atmosfera, raízes de algumas espécies de mangue crescem para fora do sedimento), solo rico em matéria orgânica (com grande quantidade de sulfeto de hidrogênio o que causa seu forte odor), está quase sempre próximo a rios e com influência de marés, consagrando-se um dos mais produtivos do planeta.

Produtivo, neste caso, significa apresentar condições favoráveis de alimentação, reprodução e proteção para muitas espécies da fauna marinha e costeira. É fato que diversos peixes, moluscos e crustáceos, de importância comercial, se criam no manguezal. O robalo, a ostra e o caranguejo, servidos como iguarias em muitas mesas, são exemplos de seres vivos que iniciam suas vidas nesse ecossistema.

É fato que diversos peixes, moluscos e crustáceos, de importância comercial, se criam no manguezal

E tem mais: o manguezal é sequestrador de carbono, reduzindo sua presença na atmosfera. Embora seja sensível aos efeitos das mudanças climáticas, esse ecossistema contribui justamente com a redução da vulnerabilidade da zona costeira a essas mudanças, atuando como uma verdadeira barreira verde. E menos perceptíveis, mas não menos importantes, o manguezal contém valores culturais, sociais, espirituais e ambientais.

Contudo a proteção efetiva deste ambiente costeiro tem sido negligenciada. O manguezal sofre com a poluição (por esgoto, resíduos sólidos e derramamento de petróleo), o desmatamento (para crescimento das cidades, construção de indústrias, portos, marinas e casas de veraneio) e a exploração excessiva de seus recursos naturais. Há também os impactos das criações de camarões de espécies exóticas que ocorrem nas proximidades do manguezal, reduzindo a qualidade do ambiente natural de outras espécies, incluindo os próprios camarões nativos do Brasil.

A situação é mais problemática nas capitais e grandes cidades costeiras, onde há portos localizados em baías e estuários, provocando a redução de áreas de manguezal. Na região da Baixada Santista, em razão da ocupação irregular da zona costeira, a fragmentação e redução das áreas de manguezais é gritante. Lá se localiza o maior porto da América Latina e muitas favelas se multiplicam e crescem para cima dos manguezais. Esse tipo de expansão antrópica indica falta de planejamento urbano costeiro. Como resultado, sofre a população carente por falta de condições dignas de moradia, sofrem os manguezais e sofremos todos nós com a perda dos serviços ecossistêmicos desse aliado da qualidade de vida das populações humanas.

Por conter a maior biodiversidade do planeta, e um dos maiores trechos de manguezais do mundo – o que vai do extremo Norte do país até a costa maranhense –, o Brasil necessita de ações coordenadas em várias esferas para que seus diferentes ecossistemas, para além da Amazônia, sejam protegidos.

O Brasil necessita de ações coordenadas em várias esferas para que seus diferentes ecossistemas, para além da Amazônia, sejam protegidos

O país tem legislação para proteger os manguezais, que são considerados Áreas de Proteção Permanente (APP) pelo Código Florestal. Além disso, 87% deste ecossistema encontra-se em Unidades de Conservação do país, o que corresponde a 12.114 km2. Também há o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas e de Importância Socioeconômica do Ecossistema Manguezal (PAN Manguezal), com objetivo de conservar os manguezais brasileiros, mantendo suas áreas e usos tradicionais.

O que falta é a aplicação efetiva das leis e ações. Fiscalização séria é fundamental. Além disso, a educação é uma estratégia eficaz a ser implementada em médio e longo prazos. Conscientizar e sensibilizar os futuros gestores, empresários e eleitores é a garantia de mantermos os manguezais conservados.

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