A história social do trabalho na sala de aula

Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT)
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT)
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Discutir o mundo do trabalho dentro da sala de aula deve ir muito além de falar de emprego, profissões e qualificação profissional. Nas aulas de história, refletir sobre a participação e o protagonismo de trabalhadores e trabalhadoras contribui para a construção de uma sociedade plural e democrática. Mas, apesar disso tudo, a história social do trabalho, tão presente nas universidades, ainda está afastada do ensino básico. Como encurtar essa distância?

CRÉDITO: ILUSTRAÇÃO LUIZ BALTAR

“Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros, vem o nome dos reis, mas foram os reis que transportaram as pedras?”, indaga o poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, do alemão Bertold Brecht (1898-1956). As perguntas, muitas vezes utilizadas por professores do ensino básico para discutir com seus alunos sobre o papel dos trabalhadores na história, não seguem sem resposta. Em debates, os estudantes identificam os operários, escravizados e camponeses como os verdadeiros construtores dos templos e palácios, como produtores das mercadorias das fábricas, como os responsáveis pela colheita de grãos e pelas vitórias nas guerras. Ainda assim, os novos estudos da história social do trabalho parecem tão distantes das salas de aulas das escolas de ensino fundamental e médio do país. Por quê?

Apesar da sua relação intrínseca com a realidade de muitos estudantes – que trabalham, estão desempregados ou em busca do primeiro emprego – e de suas famílias, as novas descobertas historiográficas sobre o mundo do trabalho não estão presentes na sala de aula. Quando surge no espaço escolar, o tema trabalho é tratado apenas no sentido de emprego e qualificação profissional, e jamais como categoria histórica e analítica.

Quando surge no espaço escolar, o tema trabalho é tratado apenas no sentido de emprego e qualificação profissional, e jamais como categoria histórica e analítica

E perguntamos novamente: por quê? Afinal, pelo menos nos últimos 20 anos, o meio acadêmico foi tomado por uma enxurrada de novos estudos que ampliaram o olhar sobre a história social do trabalho e seus sujeitos. Estes não são mais apenas homens, brancos, operários e sindicalizados; são também mulheres, negras e negros, indígenas, trabalhadores de diferentes categorias e de identidades regionais e étnico-raciais, e até pessoas desempregadas.

Ainda longe dos livros didáticos

Mesmo com a ampliação de temas na história social do trabalho, percebe-se que esses estudos ainda não chegaram aos livros didáticos, e o conceito de trabalho é pouco problematizado nas salas de aula. Desde o conteúdo de história antiga, dado ainda no sexto ano do ensino fundamental, é possível ver uma caracterização do trabalho como algo dado e pré-determinado com poucos questionamentos. As orientações curriculares para abordar o tema estão sempre ligadas à construção de um trabalhador apto às regras já estabelecidas, sem questionamentos e críticas.

As orientações curriculares para abordar o tema estão sempre ligadas à construção de um trabalhador apto às regras já estabelecidas, sem questionamentos e críticas

O discurso do “empreendedorismo”, veiculado na Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e afinado à retórica neoliberal, mascara a precarização crescente do trabalho, apaga a heterogeneidade sócio-histórica das experiências de quem trabalha e não problematiza com jovens os complexos problemas por trás dessa proposta.

Por esses motivos, é urgentemente necessário construir pontes. Não, não se trata apenas de fazer mais uma analogia ao poema de Brecht, mas de afirmar que faltou à história social do trabalho abrir caminhos possíveis que pudessem atravessar os muros das universidades para alcançar o chão da escola.

Diálogo com docentes

E foi justamente a partir da identificação dessa lacuna que nasceu o projeto Chão de Escola, dentro do site do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT-UFRJ). Trata-se de um espaço voltado para dialogar diretamente com os professores e professoras da educação básica, apresentando novas abordagens por meio de entrevistas, sequências didáticas, textos, links, vídeos, imagens, documentos para serem utilizados com os estudantes na construção de uma visão crítica sobre o mundo do trabalho.

Uma iniciativa de história pública elaborada com e para professores e professoras da educação básica, o Chão de Escola tem como principal produto transposições didáticas que transformem pesquisas históricas e práticas de ensino assumidas por professores-pesquisadores em sequências didáticas para serem aplicadas em sala de aula. Com periodicidade mensal, são publicadas propostas de sequências didáticas, sempre direcionadas à determinada a série, identificando as habilidades a serem desenvolvidas a respeito de um conteúdo específico, segundo a BNCC. Também se explicita quantas aulas são necessárias para realizar a atividade, ampliando o repertório de estratégias para o professor realizar dinâmicas de ensino-aprendizagem.

O Chão de Escola é coordenado por três professores-pesquisadores do LEHMT-UFRJ, que também atuam na educação básica e entendem que alguns temas presentes no dia a dia da escola devem ganhar destaque na proposta de história pública. Não por outro motivo há várias atividades elaboradas no Chão de Escola que incorporam a discussão sobre a aplicação das leis 10.639/03 e Lei 11.645/08, que tornam obrigatório o estudo das culturas e da história afro-brasileira, africana e indígena. Esses regulamentos alteraram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), evidenciaram a importância de promover uma educação para as relações étnico-raciais que seja antirracista, e problematizaram a agência dos negros e dos povos originários nas narrativas do “cativeiro” que naturalizam as formas de opressão social.

Além disso, os debates intersecionais de classe, território, etnia, raça, gênero e sexualidade impactam as pesquisas de história social e o ambiente acadêmico contemporâneo. A luta pela emancipação das mulheres, dos negros e dos grupos LGBTQI+ tem forçado uma atualização das epistemologias na história e ciências sociais, revendo pressupostos, linguagem e abordagens.

Debates intersecionais de classe, território, etnia, raça, gênero e sexualidade impactam as pesquisas de história social e o ambiente acadêmico contemporâneo

Ditadura em debate

No projeto Chão de Escola também há destaque para a discussão sobre a ditadura militar — tema que angustia professores de história pela perspectiva negacionista que prolifera em blogs de grupos conservadores e na polarização política da justiça de transição brasileira que configura o conjunto de medidas políticas e judiciais utilizadas como reparação das violações de direitos humanos. A instauração da Comissão Nacional da Verdade (2011-2014) e a politização do tema da ditadura civil-militar na década de 2010 afetou o debate público e os ambientes escolares. As tentativas de interdição dos professores do ensino básico em abordar a questão, seja perseguindo-os com acusações de doutrinação ou promovendo medo e autocensura, afastam os saberes escolares da abordagem dos regimes autoritários recentes na América Latina. Além disso, deve-se destacar que o fato de esses conteúdos serem alocados nos currículos nas séries finais e no término do ano letivo, favorecem operações de desvio na abordagem desse conteúdo já que em muitos casos são conteúdos negligenciados ou omitidos.

O perfil da rede de professores-pesquisadores que contribuíram para o Chão de Escola está fortemente marcado pelas perspectivas assumidas no Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho (LEHMT-UFRJ). Das 24 contribuições na página entre 2020 e 2022, 11 são de membros vinculados ao laboratório, expressando a preocupação que o mesmo tem com o campo do ensino.

Além dos pesquisadores que o integram atuarem como professores, o laboratório, ao longo de sua trajetória, realizou várias incursões no ensino da história, pensando cursos para públicos diversos, contribuindo para a formação de professores e de estudantes dos ensinos fundamental e médio. E no contexto da pandemia e no estabelecimento de várias seções do site do laboratório, formando uma rede de história pública vinculada à discussão dos mundos do trabalho, teve início o projeto Chão de Escola em julho de 2020.

Educação que liberta

Uma das preocupações centrais do laboratório é a percepção de que o conceito de trabalho e sua transversalidade tem sido apagado na pós-modernidade. O questionamento dos projetos de modernidade e de sua relação com a história ampliam os domínios da disciplina, mas simultaneamente tem-se uma tendência ao abandono dos conceitos de classe social e trabalhador(a) como chave explicativa dos processos sociais. Perde-se de vista que essas noções foram constitutivas das experiências dos diferentes grupos e são mais multifacetadas que a história estruturalista ou que a ortodoxia marxista pressupunha. Ademais, a desconstituição do mundo socialista, a redução da importância política dos sindicatos, o avanço do neoliberalismo no final do século XX e, mais recentemente, as reformas trabalhista e da previdência favoreceram a um esmaecimento do conceito de trabalho e da relevância de se abordar uma consciência de classe na esfera pública e também no ensino.

Nesse sentido, o trabalho desenvolvido no Chão de Escola propõe pensar o trabalho, a luta da classe trabalhadora, por meio de temas que problematizem o que nos é apresentado. Coloca uma lente de aumento nas questões nacionais, procurando indicar o quanto é impossível falar da história do Brasil sem refletir sobre a história dos trabalhadores e trabalhadoras. Os estudantes e as comunidades constituídas em torno das escolas, no entanto, longe de serem meros repositórios de informações, são parte viva dessa história. São pessoas negras, periféricas, migrantes, mulheres, filhas de assalariados e mais uma série de elementos que compõem a classe trabalhadora brasileira plural e multifacetada. Dessa maneira, reconhecer a agência dos trabalhadores e trabalhadoras é também reconhecer a sua própria história, favorecendo uma produção de uma educação popular que contribua para a emancipação social e construção de uma sociedade plural e democrática.

O Chão de Escola coloca uma lente de aumento nas questões nacionais, procurando indicar o quanto é impossível falar da história do Brasil sem refletir sobre a história dos trabalhadores e trabalhadoras

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999.

CERRI, Luís Fernando; PENA, Fernando de Araújo. Uma escola, cem partidos: a multiplicidade de posições político-econômicas entre estudantes em um estudo quantitativo. História & Ensino, Londrina, v. 26, n. 2, p. 8-28, jul.-dez., 2020.

HERMETO, Miriam, FERREIRA, Rodrigo de Almeida (org.) História Pública e ensino de História. São Paulo: Letra & Voz, 2021.

MAUAD, A. M., ALMEIDA, J.R, SANTHIAGO, R. (org.). História Pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra & Voz, 2016.

OLIVEIRA, Samuel S.R. O projeto Ditadura em Prosa: história pública e o ensino da ditadura civil-militar. Revista História Hoje, São Paulo, v.10, n.20, p.90-109, 2021.

THOMPSON, E. P. Os Românticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

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