Dos efeitos alucinógenos em rituais ao uso em medicamentos, a história de uma planta ilustra como valores e significados de substâncias podem se transformar em diferentes sociedades
Dos efeitos alucinógenos em rituais ao uso em medicamentos, a história de uma planta ilustra como valores e significados de substâncias podem se transformar em diferentes sociedades
CRÉDITO: ADOBE STOCK

Em um de seus ensaios mais eloquentes, intitulado O valor da ciência, o físico e pop star Richard Feynman (1918-1988) recorre a uma antiga alegoria frequentemente atribuída ao budismo para refletir sobre a dimensão ética do conhecimento: “A cada homem é dada a chave dos portões do paraíso; a mesma chave abre os portões do inferno.”
A etnobotânica constitui um campo particularmente interessante para pensarmos essa questão. Diferentemente de dilemas típicos da ciência moderna e contemporânea, como construir ou não a bomba atômica ou se a inteligência artificial vai ou não aniquilar a raça humana, o conhecimento sobre as plantas e suas substâncias químicas acompanha a humanidade desde seus primórdios. Em sociedades de caçadores-coletores, xamãs recorriam às plantas para evocar as forças da natureza. Nas primeiras sociedades agrícolas, sacerdotes as utilizavam como meio de comunicação com os deuses. Ao longo dos séculos, magos, alquimistas, químicos e médicos também encontraram nelas diferentes aplicações.
Em todos esses contextos, a cura, a coesão social e a própria sobrevivência humana estiveram no pano de fundo desse conhecimento. Além disso, as propriedades biológicas de determinadas plantas permaneceram essencialmente as mesmas ao longo da história, mas os valores e os significados que diferentes sociedades lhes atribuíram mudaram profundamente.
A Brugmansia suaveolens, popularmente conhecida como trombeta dos anjos, é um desses casos. O nome dispensa grandes descrições, com flores brancas, que podem sofrer pequenas variações de cores, e com formato semelhante ao instrumento musical, é de beleza singular. Poderosa e controversa, é uma planta nativa de regiões tropicais da América do Sul, incluindo o Brasil, e é famosa por suas propriedades alucinógenas e perturbadoras.
Os usos populares e rituais da B. suaveolens foram documentados em diversas regiões da floresta Amazônica. Os jívaros da bacia do Alto Amazonas, no leste do Equador, a empregavam em ritos de iniciação de adolescentes. Os jovens eram enviados para a floresta, onde permaneciam em isolamento e jejum. Durante esse período, ingeriam uma infusão de folhas de tabaco para entrar em contato com o “espírito da visão” (arutam), que normalmente se manifesta na forma de um animal. Quando o jejum e o tabaco não eram suficientes, administrava-se uma preparação de B. suaveolens, macerada em água e conhecida como maikua. Entre os chibchas da Colômbia, a Brugmansia, misturada à cerveja de milho e a folhas de tabaco, era administrada a escravos e esposas antes de serem enterrados vivos juntamente com seus senhores falecidos. Já em culturas indígenas do oeste do Equador, a planta era administrada a crianças como forma de corrigir problemas de comportamento.
Até hoje, a ideia de serem plantas más ou perigosas ainda é bastante difundida entre muitas pessoas na América do Sul, provavelmente devido à sua antiga associação com a bruxaria e à crença de que dormir à sombra delas induziria à insanidade.
No entanto, seus usos não se restringiam aos efeitos alucinógenos, e relatos de seu emprego como anestésico, afrodisíaco, nematicida, indutor do sono, relaxante muscular e no tratamento de reumatismo, asma e inflamações também são encontrados.
Os efeitos tóxicos dessa planta são atribuídos, principalmente, a substâncias de uma classe denominada alcaloides tropânicos, sendo os principais a atropina e a escopolamina.
Alguns alcaloides tropânicos são antagonistas dos receptores muscarínicos, bloqueando transmissões neurais. Quando administrados em doses tóxicas, eles produzem inicialmente agitação, delírio, fala incoerente e alucinações, podendo posteriormente evoluir para convulsões, estupor e coma.
Interessante pensar que uma dessas substâncias, a escopolamina, deu origem a um dos fármacos mais populares para o alívio de cólicas e espasmos abdominais, o butilbrometo de escopolamina, popularmente conhecido como Buscopan®. A pequena modificação estrutural em relação à escopolamina reduz significativamente sua capacidade de chegar ao sistema nervoso central, minimizando os efeitos tóxicos.
Rituais macabros, castigo de crianças, alívio de cólicas… Moléculas são assim, atravessam gerações e encontram diferentes aplicações e significados.
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