A elaboração de mapas mentais com base em narrativas tem apoiado o resgate do conhecimento tradicional de populações, mas é um processo que requer tempo e confiança

Um exercício de comunicação do qual a humanidade sempre se utilizou é a descrição de lugares e fatos através de desenhos ou mapas. E isso bem antes de termos instrumentos de medição ou imageamento, que são as formas clássicas, e mais fidedignas, de se criar essas representações. Fácil de entender, não é? Afinal, quantas vezes nos expressamos assim ao tentarmos explicar a alguém como chegar a algum lugar?

Os mapas são meios incríveis de comunicação, porque carregam informações de diferentes naturezas, que podem ser explícitas por meio de legendas, ou completamente implícitas, exigindo um maior entendimento do(a) leitor(a) sobre as relações topológicas entre dados e/ou eventos. O melhor exemplo disso é a possibilidade de se extrair informações com base em padrões espaciais e relações topológicas entre variáveis. Topa fazer um exercício?

Imagine um mapa simples, com uma legenda que indique apenas 3 classes: estradas, hidrografia e floresta. Agora, localize-o espacialmente: ele representa a nossa Amazônia. Mas falta ainda outra forma de localização, a temporal: ele é do ano de 2020. Pronto! Consegue imaginar? Essas são as informações explícitas, através das quais podemos contabilizar o total remanescente de floresta em 2020 e o arranjo espacial que define a sua distribuição na área. Veja aqui como a data é importante! Esse mapa seria muito diferente se fosse de uns 30 anos atrás, por exemplo. Mas podemos ir além… É possível perceber que as áreas em que a floresta deixou de existir podem estar fortemente associadas à ocorrência de outros elementos na paisagem, como as rodovias. Esta informação não se encontra explícita, e, embora não apareça na legenda, pode ser claramente percebida através de uma simples leitura. Este é um exemplo muito comum que nos mostra o potencial de comunicação que a linguagem gráfica oferece.

Por outro lado, existem narrativas importantes, como os relatos de viagens, que possibilitam a elaboração de um mapa mental da paisagem descrita. Este recurso também foi, e por vezes ainda é, muito utilizado. Imagina na época das grandes navegações! A maior parte dos relatos gerados fomentou a criação de mapas muito ricos em detalhes, embora pouco precisos se comparados com os atuais. O exemplo mais emblemático a ser citado é a carta de Pero Vaz de Caminha, através da qual ele registrou as primeiras impressões sobre o nosso país, carregada de história e registros geográficos. É fácil fechar os olhos e imaginar a paisagem descrita ali. Agora, é importante reforçar que, igualmente a um mapa ou imagem, estas narrativas são também exemplos de quadros geográficos.

A elaboração de mapas mentais com base em narrativas tem apoiado o resgate do conhecimento tradicional de populações. O trabalho é enriquecido pela identificação de elementos da paisagem, do passado e do presente, relacionados ao cotidiano das pessoas envolvidas e repletos do sentimento de pertencimento. Esse processo riquíssimo não é fácil e requer tempo e confiança, mas tem sido uma das melhores estratégias de comunicação com determinados grupos populacionais.

Uma das maiores dificuldades da conversão de histórias em mapas é a extração do que é mais representativo para um expressivo grupo de pessoas e não somente para um indivíduo. Para cada técnica, estratégias de representatividade e comunicação devem ser adotadas. Em alguns casos a tecnologia tem ajudado bastante. Atualmente, com as geotecnologias, o uso de um grande volume de smartphones permite que tracemos em tempo real um mapa repleto de informações dinâmicas, como as condições de trafegabilidade respaldadas estatisticamente pelo número de informações recebidas.

Mas uma coisa é elaborar um mapa, outra é ser capaz de interpretá-lo. A comunicação depende da capacidade de ler elementos espaciais, é uma habilidade que precisa ser aprimorada e é muito importante que esse exercício ocorra bem cedo, quando ainda somos crianças. Desta forma, crescemos mais preparados para interagir com um mundo geoinformacional, cada vez mais imagético e repleto de infográficos e mapas, meios fundamentais de comunicação. Assim, é possível pensar que a capacidade de interlocução entre mapas e textos, independentemente do sentido de sua construção, nos possibilita um melhor exercício de cidadania.

Carla Madureira Cruz 

Departamento de Geografia
Instituto de Geociências
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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