Monstra e musa

“Nós não vamos desistir, nós vamos resistir. A universidade pública é lugar de travesti!”. Foi com esse grito que Letícia Carolina Pereira do Nascimento tomou posse como primeira travesti negra professora da Universidade Federal do Piauí.

Sempre me senti uma monstra, sentia que meu lugar não era nesse mundo. Às vezes pensava em sumir, desparecer. Fui muito feliz na infância, mas também sofri muito. Sempre pensei que existia algo de errado comigo, mas hoje sei que é o mundo que está errado. Cresci carregando muitas dores, não esqueço as vezes em que saia do colégio, chegava em casa e me trancava no quarto para chorar, um choro abafado. Minha mãe batia na porta e perguntava “Tá tudo bem?”, eu dizia que estava, mas não tinha palavras para expressar o que sentia.


Ter medo de morrer num mundo que me quer morta é uma coragem absurda. Aprendi a costurar em mim dor com esperança

Sempre foi difícil me olhar no espelho, nunca vi nada de belo em mim, um corpo gordo desde a infância, com nariz e lábios grandes. Sempre fui forasteira à estética dominante. Na adolescência eu evitava falar de namoros, de todas as paixões não correspondidas. Embora desejasse sumir, uma força dentro de mim sempre dizia que morrer não é opção. Penso que sou tão medrosa, que tenho medo da morte. Ter medo de morrer num mundo que me quer morta é uma coragem absurda. Aprendi a costurar em mim dor com esperança. A monstra que sou é feita intensidades diversas: das dores costuradas que fizeram minha couraça mais forte, dos medos que me deixaram corajosa, das esperanças que sempre me permitiram andar.

Letícia Carolina Pereira do Nascimento

Faculdade de Pedagogia
Universidade Federal do Piauí

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