A água no sertão e as mudanças climáticas

Para combater a escassez de água, o sertanejo aprendeu a construir açudes em pleno sertão nordestino. Durante 100 anos, foi criada mais uma herança histórica desse povo: mais de 100 mil reservatórios. Depois de um longo período de seca, muitos desses açudes tiveram seus níveis de água normalizados em 2019 e 2020, mas outros tantos não. As mudanças climáticas e os eventos meteorológicos extremos, como o El Niño, estão relacionados ao desabastecimento dos reservatórios de água do Nordeste, principalmente no chamado polígono das secas. A crise hídrica prejudica o desenvolvimento econômico local e provoca a migração da população para outras regiões.

A chuva voltou ao Nordeste brasileiro com mais intensidade nos últimos dois anos, mas o interior do sertão ainda sofre os reflexos de um longo período de seca. Diversos reservatórios ainda não recuperaram sua capacidade de armazenamento, e são enormes os prejuízos para toda a sociedade: milhares de municípios sofrem com o êxodo rural, provocando atraso no desenvolvimento. Afinal, o que está acontecendo com o equilíbrio climático do Nordeste? Seria o efeito das mudanças climáticas, com reflexos sobre a disponibilidade de água para a população?

Diversos estudos climáticos e ambientais têm examinado os acontecimentos na região. Um deles, desenvolvido por nosso grupo, avalia a influência das anomalias climáticas (ocorrências que representam desvios acentuados no padrão de uma série histórica climatológica, como o fenômeno El Niño) sobre o volume de água acumulada em grandes reservatórios do Nordeste, especificamente nos estados do Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia. Os resultados apontam que diversos reservatórios recebem fortes influências dos eventos climáticos extremos, mas também são intensos os efeitos dos outros mecanismos atmosféricos.

Alexandre Kemenes
Embrapa Meio-Norte

Luanny Gabriele Cunha Ferreira
Universidade Federal do Pará

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