O principal antígeno envolvido nesse processo é o antígeno leucocitário humano (HLA, do inglês human leukocyte antigen), presente em todas as células nucleadas (que possuem núcleo) do corpo. A identidade HLA é uma das informações fundamentais na listagem de um paciente em espera para transplante de rim. A lista de seleção de transplante renal é organizada a partir da compatibilidade entre os antígenos HLA entre o doador e os potenciais receptores, sendo que os mais semelhantes ocupam as primeiras posições na lista. Para o transplante renal, também são considerados para posicionamento na lista: a tipagem ABO, que identifica os grupos sanguíneos, uma vez que esses antígenos são expressos na superfície das células endoteliais, que recobrem o interior dos vasos sanguíneos, do órgão doado; a doença que levou à falência do órgão e o tempo de tratamento em terapia renal substitutiva (diálise).
Para a alocação de fígado, por sua vez, o critério utilizado é um escore de gravidade da doença hepática apresentada pelos potenciais receptores, uma vez que o enxerto hepático apresenta menor capacidade de desencadear mecanismos imunológicos de rejeição contra antígenos HLA do que o rim.
O conhecimento desses mecanismos imunológicos é extremamente importante para evitar o surgimento de rejeição dos órgãos transplantados, processo em que são desencadeadas diversas respostas imunológicas que culminam com a falência do enxerto. O desenvolvimento de medicações imunossupressoras como 6-mercaptopurina e azatioprina permitiram a realização de transplante utilizando apenas medicações, sem a necessidade de irradiação ou transplante da medula. Entre os anos 1969 e 1980, os efeitos colaterais das medicações utilizadas ainda eram muito frequentes, e a mortalidade dos receptores de transplante era bastante elevada, em virtude da elevada ocorrência de rejeição aguda. A perspectiva melhorou drasticamente na década de 1980, com a introdução clínica da ciclosporina e, na década seguinte, do tacrolimo, drogas imunossupressoras mais potentes que proporcionaram redução significativa da rejeição aguda, com preservação da função e sobrevida prolongada dos enxertos e pacientes.
Cenário brasileiro
O Brasil é referência mundial em transplantes, com mais de 90% dos procedimentos financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O transplante pode ser realizado a partir de um doador vivo, possível apenas para alguns órgãos como rim, parte do fígado e pulmão. Para o transplante a partir de doador falecido, é necessária a comprovação da morte encefálica do doador e o consentimento familiar. Nessa situação, os órgãos podem ser obtidos e distribuídos para os receptores em lista de espera, de acordo com a legislação vigente.
O Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, gerencia todas as informações sobre esses procedimentos no Brasil. Os candidatos a transplante são inscritos em uma lista de espera única e exclusiva para cada órgão. A captação e distribuição dos órgãos é realizada a partir de um sistema centralizado, com organização por regiões, de acordo com a localização de doadores e potenciais receptores.
Apesar de estar presente em todas as regiões do território brasileiro, há maior concentração de centros de transplante no Sudeste e no Sul. Além da desigualdade regional na distribuição dos centros, ainda existem outros entraves para o aumento do número de transplantes realizados no país, como a elevada taxa de recusa de doação por parte dos familiares e o cuidado inadequado com os doadores após o diagnóstico de morte encefálica, reduzindo ainda mais o número de órgãos disponíveis para transplantes.