Rede Ressoa Oceano
Pesquisas mostram como o contato com o oceano pode contribuir para melhorar a saúde mental em uma época marcada pela depressão
CRÉDITO: ADOBE STOCK

A saúde mental e física da sociedade tem sido impactada por fatores cada vez mais complexos. Um desses é a depressão, condição multifatorial, em crescimento entre os jovens, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais, inclusive relacionada à percepção que as pessoas têm do ambiente em que vivem. Um estudo chinês de 2025, por exemplo, avaliou a percepção ambiental, níveis de depressão e ansiedade, e grau de interação social de 1.752 pessoas da região do Delta do Rio Yangtzé na China. A conclusão foi que pessoas com percepção mais negativa do ambiente tendem a apresentar mais sintomas de depressão e ansiedade.
Embora a maioria dos estudos se concentre em áreas verdes (green spaces), que mostram que as populações de áreas com mais vegetação têm menor risco de depressão e ansiedade, o enfoque aqui é olhar as contribuições para o bem-estar humano dos ambientes aquáticos (blue spaces), como o oceano.
De fato, o oceano traz um fascínio com tanta imensidão, beleza e mistério. A porta de entrada da humanidade para o oceano é a praia, região costeira com faixa de sedimentos acumulados ao longo da margem de um corpo d’água, moldada pela ação de ondas, correntes e ventos. Essas regiões são muito escolhidas como destino de férias para relaxamento e tranquilidade, reduzindo o estresse e a ansiedade.
Uma das explicações possíveis para essa redução está na cor. Como uma das cores mais comuns e familiares na natureza, do vasto céu ao oceano profundo, o azul tem um impacto surpreendente nas emoções humanas, e é associado a tranquilidade e calma. A água também é um elemento fundamental porque os seres humanos sempre viveram perto dela, e a maioria das grandes cidades está localizada no litoral ou perto de grandes corpos d’água interiores.
O estudo Associations between green/blue spaces and mental health across 18 countries, publicado em 2021 pela Nature, mostrou que visitar ambientes costeiros (mar/oceano) está associado ao aumento do bem-estar psicológico e a diminuição do sofrimento mental. Olhar para o mar é descrito como uma experiência multissensorial e profundamente incorporada (sensações físicas, som das ondas, brilho da água, vento).
Surge, então, a questão de como vivenciar essa conexão com o oceano no cotidiano. Inicialmente, não é preciso morar de frente para o mar. Frequentar o oceano é mais importante do que apenas morar perto dele. Tem gente que mora pertinho, mas carece de conexão. Essa conexão pode ser estabelecida com a prática de algum esporte aquático, que une atividade física, contato com a natureza e uma experiência de liberdade.
Os esportes na água têm uma história milenar, que remonta às primeiras necessidades humanas para a sobrevivência. Eles podem ser praticados em água doce ou salgada, dentro ou fora da água, atendendo a diferentes perfis comportamentais, seja em busca de competição, performance, lazer, aventura ou mesmo terapia.
Quanto aos esportes marítimos, há modalidades olímpicas, radicais, náuticas e recreativas, como natação, canoagem, remo, vela, maratona aquática, esqui aquático, apneia, surfe, kitesurf, bodyboard, wakeboard, windsurf, mergulho autônomo e stand up paddle.
Os benefícios da prática de algum deles podem ser diversos, desde físicos, como melhora do condicionamento cardiovascular, fortalecimento muscular, baixo impacto nas articulações, aumento da flexibilidade e queima calórica eficiente, a mentais, como redução do estresse, melhora do foco e aumento da autoestima; e sociais, como integração, socialização e maior ligação com a natureza.
Mas é claro que também não podemos esquecer que todo esporte precisa ser praticado com segurança e responsabilidade. E há outro fator que não podemos ignorar: muitas modalidades ainda apresentam barreiras de acesso financeiro.
A prática de esportes aquáticos não se restringe ao bem-estar da alma, corpo e mente humanos. Os esportes são uma importante ferramenta de interação com o ambiente onde são praticados
A prática de esportes aquáticos não se restringe ao bem-estar da alma, corpo e mente humanos. Os esportes são uma importante ferramenta de interação com o ambiente onde são praticados. Antes de ir velejar, por exemplo, é preciso saber as condições do tempo, como do vento e da maré. Para nadar no mar, é preciso saber qual o sentido da corrente ou o que fazer em caso de uma câimbra.
Além de ampliar o conhecimento sobre os aspectos naturais do oceano, os esportes praticados no mar fortalecem a cultura oceânica, aumentando a percepção das pessoas sobre a influência do oceano em suas vidas. Uma pesquisa da Fundação Grupo Boticário denominada “Oceano sem Mistérios: Esporte e saúde à beira-mar” (2025), revelou que 91% dos praticantes de esportes costeiros no Brasil, como natação, surfe, kitesurf e remo, afirmam estar dispostos a agir pela conservação do oceano. Ou seja, o envolvimento com os esportes marítimos proporciona saúde, lazer e interesse em sustentabilidade.
Em um contexto de urbanização crescente, observa-se uma desconexão entre os seres humanos e os ambientes naturais. À medida que pesquisadores e formuladores de políticas reconhecem os impactos da perda de contato com a natureza, compreender o valor do mar para o bem-estar torna-se uma estratégia relevante para orientar ações urbanísticas, políticas públicas e programas de saúde.

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
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