Combate à poluição, desafio pela saúde coletiva

Mapear fontes terrestres e marítimas de poluentes e seus impactos potenciais na saúde humana e nos ecossistemas oceânicos, apresentando soluções para mitigá-los ou removê-los é o desafio nº 1 da Década do Oceano.

Praia para descansar, mar limpo para velejar e nadar, peixes e frutos do mar saudáveis e adequados para consumo, clima ameno que garanta o desenvolvimento das plantas, oxigênio para respirar. Simples e básicos, esses benefícios estão relacionados com o oceano – um oceano limpo, saudável e produtivo, que atualmente encontra-se ameaçado por um problema crescente e complexo: a poluição. Ela atinge todas as regiões do planeta, incluindo locais remotos como o fundo do mar.

Milhões de toneladas de poluentes chegam diariamente ao oceano. A maior parte é originada em áreas continentais e carreada para o mar pelos rios. Sim, a poluição do mar começa na sua casa, nas áreas agrícolas e mesmo nas indústrias mais distantes da costa. Depois, ela se soma à poluição gerada pelas atividades humanas realizadas na zona costeira e no próprio mar, que não são poucas.

Há diversas fontes e tipos de poluentes no oceano, que, sem evidentes barreiras físicas, são distribuídos amplamente. Em áreas urbanas, industriais e portuárias muitos dejetos são lançados sem tratamento, como esgoto e resíduos sólidos. Há ainda a poluição sonora, que gera ruídos subaquáticos, e a luminosa. A produção animal e os cuidados com a saúde humana utilizam medicamentos que são eliminados no ambiente pela urina; a agricultura pode ser fonte de fertilizantes e agrotóxicos, importantes contaminantes químicos; a mineração na terra e no mar altera o solo e também contribui com resíduos químicos, assim como a exploração e o uso de combustíveis fósseis e seus derivados – todas essas atividades geram poluentes no mar e na atmosfera com potencial para permanecer no ambiente por dezenas e até centenas de anos, causando graves impactos para a saúde do ecossistema do planeta, incluindo a saúde humana.

Os efeitos da poluição são variados. Poluentes orgânicos e metais pesados, por exemplo, podem agir sobre o sistema nervoso, endócrino e reprodutivo, alterando a formação e desenvolvimento de embriões, a capacidade de defesa contra patógenos, a manutenção de conexões nervosas e o funcionamento de sistemas vitais, como o respiratório e o cardíaco. A gravidade é ampliada nos poluentes químicos orgânicos que têm transferência materna e chegam em grande quantidade aos filhotes e às crianças. Filhotes de golfinhos com deformidades ou que morrem logo após o nascimento são mais comuns em populações com altos níveis de contaminação química, sendo o mesmo observado para camundongos em experimentos em laboratório. Estudos atuais também relacionam os poluentes orgânicos como responsáveis pelo aumento de processos de alergia e doenças respiratórias em crianças, assim como alterações na fertilidade de mulheres e aumento de predisposição ao desenvolvimento de vários tipos de câncer. Entre os metais, o mercúrio vem sendo registrado em tecidos de vários animais marinhos e em altas quantidades em seres humanos, nos quais está relacionado ao aumento de casos de debilidades neurológicas e de suicídio.

A maioria dos contaminantes chega a nós pelo ar ou pelo alimento. Nos animais, não é diferente. Na água, os contaminantes são absorvidos ao longo da cadeia alimentar e muitos se acumulam nos predadores, incluindo peixes e outros organismos que consumimos como alimento. Ou seja, comemos os contaminantes que nós mesmos geramos.

A complexidade desse problema explica por que a Década do Oceano, proposta pela ONU para o período de 2021-2030, tem como um de seus desafios a construção coletiva e integrada de um oceano limpo, com fontes de poluentes identificadas, reduzidas ou removidas. Isso passa pelo desenvolvimento de sistemas mais eficientes de tratamento de resíduos e água; pelo consumo mais consciente e responsável de plásticos de uso único, medicamentos e alimentos; pelo incentivo às práticas de logística reversa; pela valorização da economia circular e do consumo de produtores locais; assim como pela redução do uso de combustível fóssil.

Muitos desses poluentes são produzidos e utilizados globalmente. Para alguns há legislações que visam a restrição de uso, mas muitos ainda não têm seus efeitos conhecidos e, portanto, estão fora de programas de monitoramento, normativas ou legislações de controle ambiental. Cabe mencionar ainda que alguns poluentes estão relacionados com demandas básicas de saúde pública bastante defasadas em países em desenvolvimento como o Brasil, criando uma polarização global quanto aos efeitos dessa poluição sobre o meio ambiente e à qualidade de vida humana.

O mar está doente porque a sociedade está doente e vice-versa. A meta é interromper esse ciclo vicioso.

Camila Domit
Laboratório de Ecologia e Conservação – Centro de Estudos do Mar
Universidade Federal do Paraná

A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo.

Matéria publicada em 22.03.2021

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