O vírus ebola pode causar uma pandemia?

Laboratório de Genética e Imunologia das Infecções Virais
Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Laboratório de Resposta Celular à Infecções Virais
Instituto de Microbiologia Paulo de Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Desde que grandes surtos de ebola ganharam destaque internacional, especialmente durante as epidemias na África Ocidental na última década, pessoas se perguntam se esse vírus poderia se espalhar globalmente e causar uma pandemia, como vimos com o SARS-CoV-2 em 2020.

A resposta é que o risco de uma pandemia é baixo, uma vez que a transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas. Essa característica reduz a capacidade de disseminação quando o comparamos com outros vírus, como o Influenza, o vírus sincicial respiratório (VSR) e o próprio SARS-CoV-2, que podem ser transmitidos por gotículas ou aerossóis. Apesar disso, surtos de ebola podem atingir milhares de pessoas e são um problema de saúde pública pela gravidade da doença que esse vírus causa.

O ebola representa seis espécies de vírus diferentes, e quatro delas causam doenças em humanos. No organismo, o vírus ebola infecta e se multiplica inicialmente em células do sistema imune (macrófagos e células dendríticas, por exemplo). Isso leva ao desequilíbrio e à disfunção dessas células, interferindo nos mecanismos de defesa do hospedeiro e dificultando a ação de interferons, moléculas antivirais que o nosso corpo produz. Como consequência, uma grande quantidade de vírus é produzida rapidamente e se espalha por diferentes órgãos.

Os sintomas iniciais da infecção por ebola incluem febre, fadiga, dores musculares e de cabeça que podem evoluir para episódios de vômitos, diarreia, e até hemorragias intensas. Porém, embora alterações da coagulação sanguínea e lesões vasculares sejam frequentemente associadas à infecção por esse vírus, nem todos os pacientes apresentam quadro hemorrágico. A gravidade da doença é devido ao comprometimento do funcionamento de diferentes órgãos, somado à intensa inflamação sistêmica. Dependendo da espécie de ebola, a letalidade da doença varia entre 25 e 90%.

Durante muito tempo, o tratamento para infecção por ebola era direcionado aos sintomas, por meio de suporte clínico, como hidratação. Atualmente, terapias baseadas em anticorpos que neutralizam o vírus, aumentam as chances de sobrevivência quando administradas precocemente. Além disso, vacinas demonstraram alta eficácia na prevenção da infecção e têm sido utilizadas para controlar surtos, com a imunização de civis e profissionais de saúde na região. Vale ressaltar que essas terapias foram desenvolvidas contra espécies de ebola diferentes das que causam o surto observado atualmente na República Democrática do Congo e Uganda. Ainda assim, elas têm servido de base para o desenvolvimento de novas vacinas e tratamentos contra outros tipos de ebola, incluindo o responsável pelo surto atual.

Com essas novas terapias, o cenário atual é mais otimista quando comparado àquele observado há algumas décadas. Além do desenvolvimento de vacinas e tratamentos específicos, a otimização de sistemas de vigilância tornou possível responder mais rapidamente aos surtos. Assim, a ciência dispõe hoje de ferramentas capazes de reduzir significativamente o impacto dessa ameaça apesar de novos casos.

De volta à pergunta inicial, embora o ebola continue sendo uma ameaça importante à saúde pública, suas características de transmissão e os avanços recentes em prevenção, tratamento e vigilância tornam improvável que esse vírus provoque uma pandemia global semelhante a outras observadas ao longo da história.

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