Criaturas mágicas com forma de árvores humanoides combinam a lentidão das plantas com a consciência de animais e materializam a defesa da natureza e a crítica ambiental na obra O Senhor dos Anéis
Criaturas mágicas com forma de árvores humanoides combinam a lentidão das plantas com a consciência de animais e materializam a defesa da natureza e a crítica ambiental na obra O Senhor dos Anéis
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

Apesar da aparência vegetal, os ents, seres mágicos do universo de O Senhor dos Anéis, possuem características claramente animais, como olhos, mãos, voz e uma mente consciente
Você já parou para pensar em como diferentes seres vivos percebem o tempo? Para um mosquito, que vive apenas algumas semanas, um mês é uma vida inteira. Para uma criança humana, um ano é muito tempo. Já para um humano adulto, uma década passa voando.
Agora, imagine como deve ser a experiência do tempo para uma árvore. Uma árvore pode levar cinquenta anos apenas para crescer o suficiente para produzir sementes, possui metabolismo lento, permanece imóvel e pode viver por séculos ou até milênios.
E se esses seres do reino vegetal tivessem consciência e pudessem falar e caminhar, mas em um ritmo diferente dos animais? Imagine-os levando horas para caminhar uma curta distância, dias para ter uma conversa e séculos para tomar uma decisão. Não porque esses seres sejam lentos de raciocínio, mas porque seu corpo funciona em um ritmo completamente diferente do nosso.
Esse é exatamente o tipo de criatura que o autor J. R. R. Tolkien (1892-1973) imaginou quando criou os ents, os guardiões das florestas em seu universo de O Senhor dos Anéis. À primeira vista, parecem apenas seres mágicos, árvores humanoides, sem qualquer conexão com a realidade biológica. Mas podemos aprender muito sobre o mundo real a partir dessas criaturas.
Nesta série de textos, tenho abordado como as diferentes raças de O Senhor dos Anéis desenvolveram características biológicas que fazem sentido quando analisadas pelas lentes da evolução e da ecologia. Desta vez, os personagens principais serão os ents, que combinam a lentidão das plantas com a consciência de animais. Vamos descobrir como Tolkien descreve essas criaturas, explorar alguns conceitos da biologia vegetal que explicam sua lentidão, entender como as plantas se comunicam e, finalmente, compreender por que essa lentidão não é uma fraqueza, mas uma adaptação extremamente poderosa.
Na mitologia de Tolkien, os ents não surgiram do acaso. Foram criados pela deusa Yavanna, a Rainha dos Frutos, especificamente para proteger as florestas e as árvores contra a ganância e a destruição. Diferentemente de outras raças que evoluíram naturalmente ao longo das eras, os ents foram concebidos com um propósito claro: serem guardiões, defensores da natureza.
Fisicamente, os ents parecem árvores que ganharam vida. Seus corpos são feitos de casca, seus membros lembram galhos, e sua altura varia conforme a espécie de árvore à qual mais se assemelham. Alguns são altos e esguios como álamos; outros são robustos e largos como carvalhos. Mas, apesar dessa aparência vegetal, eles possuem características claramente animais: olhos que veem, mãos que manipulam objetos, voz que fala e uma mente que pensa.
A linguagem dos ents é uma das características mais marcantes dessa raça. Eles falam lentamente, levando horas para dizer uma frase simples. Não é que sejam incapazes de falar rápido, mas sim que sua natureza os leva a refletir profundamente sobre tudo o que vão dizer. Para um ent, pressa é um conceito praticamente incompreensível.
Essa lentidão pode até parecer uma limitação, mas é, na verdade, uma expressão de sua conexão íntima com o ambiente. Os ents não apenas vivem nas florestas, eles fazem parte delas. Conhecem cada árvore, cada arbusto, cada raiz. Sentem a saúde da floresta como se fosse sua própria saúde. E, quando a floresta sofre, eles sofrem também.
Essa relação profunda com o mundo vegetal é o que torna os ents únicos entre todas as raças da Terra Média (o mundo fictício de O Senhor dos Anéis). Eles não conquistam a natureza, não a dominam, não a exploram. Eles protegem-na, cuidam dela, preservam-na. E é justamente essa dedicação que explica por que sua lentidão é tão importante: para proteger algo, você precisa primeiro compreendê-lo. E compreender leva tempo.
Para entender melhor a lentidão dos ents, vamos começar analisando como as plantas funcionam.
As plantas são organismos autotróficos, o que significa que produzem seu próprio alimento por meio da fotossíntese. Diferentemente dos animais, que precisam se mover para encontrar comida, as plantas capturam energia diretamente da luz solar e a convertem em moléculas que usam para crescer e se manter vivas.
Outra característica muito importante das plantas é o crescimento indeterminado. Enquanto os animais crescem até atingir um tamanho específico, as plantas continuam crescendo ao longo de toda a vida, desde que possuam recursos disponíveis para tal. Isso acontece graças a estruturas especiais chamadas meristemas, que são regiões de células que se dividem continuamente, gerando novos tecidos.
Mas essas capacidades têm um custo. Se uma planta precisasse se mover para encontrar luz, água e nutrientes, gastaria tanta energia que não teria recursos para crescer. Por isso, as plantas evoluíram para ser sésseis, ou seja, enraizadas no solo. Estão presas ao local onde germinaram. Não podem fugir de predadores, não podem procurar água ou nutrientes em outro lugar, não podem escapar de condições adversas. Tudo o que uma planta precisa deve estar disponível no local onde ela cresce.
Essa imobilidade é o preço necessário para manter um crescimento contínuo e uma autotrofia eficiente. Investir em raízes profundas, em resistência estrutural e em defesas químicas é mais eficiente do que gastar energia em movimento.
Agora imagine a situação dos ents: seres que combinam características fundamentalmente vegetais com capacidades animais. Um corpo que funciona como uma planta – com crescimento lento, metabolismo baseado em fotossíntese, estrutura de madeira e casca –, mas que consegue se mover, pensar e tomar decisões. Essa combinação representa um imenso desafio energético. É como tentar alimentar um animal grande e pesado com a taxa metabólica de uma árvore – biologicamente, seria uma combinação devastadora.
Talvez seja por isso que os ents são tão lentos. Sua lentidão não é uma fraqueza, mas a consequência inevitável de tentar manter vivo um ser que combina habilidades que não coexistem na natureza. Cada movimento, cada palavra, cada ação consome recursos que um corpo vegetal simplesmente não foi feito para gastar rapidamente.

No mundo real, as plantas se comunicam por meio de uma grande rede subterrânea, formada por suas raízes e fungos que interconectam toda a floresta
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO
A obra de Tolkien é recheada de elementos fantasiosos que não têm qualquer paralelo com o mundo real. Árvores que andam e falam certamente são um desses elementos. Mas, se podemos tirar algo de realista desses seres, é que, no mundo real, as árvores conseguem sim se comunicar!
Sob o solo, as raízes das plantas estão conectadas a uma rede de fungos microscópicos chamada micorriza. Uma árvore em uma floresta forma relações com muitos fungos diferentes, e um mesmo fungo se conecta a muitas árvores. Isso cria uma grande rede que interconecta toda a floresta. Através dessa rede, as plantas trocam recursos e informações.
Uma árvore atacada por insetos libera compostos químicos que viajam pela rede fúngica, alertando árvores vizinhas para que aumentem suas defesas antes mesmo de serem atacadas. Estudos mostram que árvores mais velhas também transferem carbono através dessa rede para árvores jovens demais para fotossintetizar adequadamente – um tipo de cuidado parental que desafia nossa compreensão tradicional de como as plantas funcionam.
Acima do solo, as plantas se comunicam através de moléculas voláteis – compostos químicos que evaporam e fluem pelo ar. Aquele cheiro agradável que sentimos da grama cortada é, na verdade, um pedido de socorro na forma de compostos químicos. Quando uma planta é atacada por uma lagarta, libera substâncias que atraem insetos predadores da lagarta – é como pedir ajuda aos vizinhos. Cada espécie vegetal tem sua própria mistura especial de compostos voláteis, uma assinatura química única.
Recentemente, cientistas descobriram que muitas espécies diferentes de plantas (como tomates e cactos, entre outras) emitem sons ultrassônicos quando estão estressadas. Esses sons podem ser detectados por insetos, morcegos e camundongos. É como se as plantas gritassem em uma frequência que nós não conseguimos ouvir naturalmente, mas que o resto do mundo biológico consegue captar.
As plantas também conseguem detectar parentes e não-parentes por meio dessas substâncias e mudam seu comportamento de acordo com essa identificação. Elas detectam sua própria prole e a ajudam a crescer (em vez de competir com ela por recursos). É uma forma de reconhecimento familiar que revela uma complexidade de comunicação tão grande nas plantas quanto nos animais.
Os ents, portanto, não são tão fantasiosos quanto parecem. As plantas do mundo real não vocalizam, mas se comunicam muito bem e com toda a floresta – através de redes subterrâneas, de sinais químicos que viajam pelo ar, de sons ultrassônicos, de um sistema de compartilhamento de informações que conecta toda a floresta.
Os ents foram criados por Tolkien em meados do século 20, justamente quando a Revolução Industrial se intensificou, devastando florestas no mundo inteiro. Mais do que seres fantásticos, eles materializam as críticas e o desgosto do autor ao comportamento destrutivo dos seres humanos com a natureza no auge da industrialização.
Na obra, esses seres representam a voz da floresta (literalmente). Eles falam lentamente porque vivem em escalas de tempo que nós, humanos, não conseguimos compreender. Uma árvore leva séculos para crescer. Uma floresta leva milênios para se estabelecer. Mas humanos conseguem destruir tudo isso em anos.
Em O Senhor dos Anéis: as duas torres, quando o mago e vilão Saruman destrói a floresta de Fangorn para alimentar suas fornalhas de guerra, ele não está apenas cortando árvores. Está destruindo um ecossistema que levou milhares de anos para se formar. Os ents então despertam para a guerra e marcham para Isengard. Não por agressividade, mas por necessidade de sobrevivência. É uma resposta à destruição de seu mundo.
Portanto, os ents de Tolkien não são apenas criaturas de fantasia. Eles têm diversos paralelos com o mundo real. Sua lentidão reflete o metabolismo vegetal. Sua comunicação remete às redes reais que conectam as florestas. E sua sabedoria materializa a consciência ecológica e a compreensão de que tudo está interconectado.
A cientista franco-polonesa, duas vezes ganhadora do prêmio Nobel e ícone da representação feminina na ciência, esteve no Brasil em 1926. Pesquisa mostra como a imprensa cobriu amplamente a agenda da pesquisadora e destaca a participação de lideranças do movimento feminista do país na organização da visita
Tabuleiros insistem em ser os protagonistas desta coluna. Desta vez, esses ambientes lúdicos sofrem uma ‘quebra’ proposital e, ao se juntarem a peças de dominós, revelam uma relação inesperada entre ferramentas matemáticas aparentemente distintas
Diante da ameaça de um mundo devastado pela extração desenfreada de recursos naturais, como o cenário dos filmes Mad Max, o reaproveitamento de um resíduo da produção de aço se destaca como alternativa sustentável para a infraestrutura ferroviária
A explosão de popularidade de séries, filmes e podcasts sobre assassinatos e outros atos criminosos que chocaram a sociedade reflete o lado sombrio da curiosidade e do comportamento humanos e desperta importantes dilemas éticos
O cinema e a mídia costumam retratar o continente africano como um grande país exótico e selvagem, associado a miséria, guerras e doenças. Essa imagem distorcida não reflete a pluralidade cultural, a riqueza e os avanços da região em vários setores
Tema abordado na série Adolescência, sucesso recente da Netflix, expõe a crescente disseminação de ódio, preconceito e violência contra mulheres nas redes sociais e traz à tona reflexões importantes sobre valores e vulnerabilidades dos jovens e da sociedade atual
A mídia propaga imagens distorcidas e preconceituosas dos muçulmanos, em geral associados a fanatismo religioso, autoritarismo, violência, misoginia e ameaça a direitos básicos, sem levar em conta a diversidade existente no Islã
| Cookie | Duração | Descrição |
|---|---|---|
| cookielawinfo-checkbox-analytics | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Analytics". |
| cookielawinfo-checkbox-functional | 11 months | The cookie is set by GDPR cookie consent to record the user consent for the cookies in the category "Functional". |
| cookielawinfo-checkbox-necessary | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookies is used to store the user consent for the cookies in the category "Necessary". |
| cookielawinfo-checkbox-others | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Other. |
| cookielawinfo-checkbox-performance | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Performance". |
| viewed_cookie_policy | 11 months | The cookie is set by the GDPR Cookie Consent plugin and is used to store whether or not user has consented to the use of cookies. It does not store any personal data. |