Sucesso de audiência em produções recentes, tema resgata relação do público com seu passado, sua família e o sertão nordestino
Sucesso de audiência em produções recentes, tema resgata relação do público com seu passado, sua família e o sertão nordestino

Cangaço Novo: série conquistou elogios e audiência
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO
Um século depois do auge de influência e poder do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938), e de Maria de Déa, a Maria Bonita (1910-1938), o cangaço continua vivo, ao menos no audiovisual brasileiro. Da exaltação da cultura nordestina ao resgate de mitos ora vistos como heróis e justiceiros, ora como ladrões e bandidos sociais, produções recentes como Cangaço Novo (em sua segunda temporada, no Amazon Prime), Guerreiros do Sol (GloboPlay e TV Globo) e Maria e o Cangaço (Disney+), comprovam a aposta no tema e o interesse do público, que responde com boa audiência.
O cangaço marcou o sertão nordestino entre o fim do século 19 e a primeira metade do século 20. Os representantes desse fenômeno social, os cangaceiros, eram vistos como criminosos por fazendeiros poderosos e pelo Estado. Para boa parte da sociedade camponesa, porém, eram rebeldes vingadores que lutavam contra a desigualdade e a pobreza, homens a serem admirados, ajudados e sustentados – praticamente uma versão sertaneja de Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres, na análise do historiador Eric Hobsbawm (1917-2012).
A oferta de produções sobre cangaço não é coincidência: mostra uma identificação da sociedade com um Brasil rural. Desde a década de 1920, o tema aparece na produção cinematográfica brasileira e ganha força com as duas maiores companhias de cinema da época, Atlântida e Vera Cruz, que produziu o premiado O Cangaceiro (1953), dirigido pelo cineasta Lima Barreto (1906-1982).
“Isso marcou a consolidação do gênero de filmes de cangaço, que lá nas décadas de 1950 e 1960 vai ser chamado de nordestern. É o nosso bangue-bangue, o faroeste do Nordeste brasileiro, só que o cowboy é um cangaceiro. E esse gênero explode com todas as contradições desse fenômeno social liderado por Lampião”, diz Caroline Lima, professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb-Eunápolis).
A pesquisadora lembra que Lampião “profissionalizou” a imagem do cangaço. Permitiu que o fotógrafo Benjamin Abrahão (1890-1938) acompanhasse, fotografasse e filmasse o bando, o que ajudou na construção de um mito com estética própria e roupas customizadas que fortalecem esse universo. A difusão do estilo de vida cangaceiro também tomou os cordéis, se espalhou na tradição oral pelo sertão nordestino e ficou marcado na mente das pessoas.
Essa visão mais histórica do cangaço dá o mote de Guerreiros do Sol, uma livre adaptação do livro homônimo do historiador Frederico Pernambucano de Mello, publicado em 1985. Na novela, Lampião e Maria Bonita são a inspiração para os personagens principais, Josué (Thomás Aquino) e Rosa (Isadora Cruz).
“Da mesma forma que o personagem Josué, de Guerreiros do Sol, Lampião é um homem ‘imorrível’, como se diz no sertão. O tempo todo as pessoas acham que ele não morre, que tem o corpo fechado, como achavam de Lampião, ou ainda de Corisco (1907-1940). Há um imaginário mítico em torno do bando”, conta Caroline, recordando ainda o papel de padre Cícero (1844-1934) na exaltação da imagem de Lampião.
A época das primeiras produções audiovisuais sobre o cangaço coincide também com a migração de nordestinos para o Sudeste por conta dos ciclos da seca. E essas pessoas, lembra a pesquisadora, consumiam o cinema presente nos centros urbanos.
“O grande cineasta Lima Barreto reivindica a ideia de um Brasil original a partir do cangaço e do Nordeste. A questão central é: o que mudou da década de 1950 para cá no imaginário do povo brasileiro? Pouca coisa. O sertão, o rural, ainda está presente em nossas vidas, como se ainda pertencêssemos àquele lugar, mesmo sem estar mais nele. Há pessoas que não nasceram no interior, no campo ou na roça, mas têm essa referência como parte da origem delas”, afirma Caroline. “E as plataformas de streaming, quando produzem temas nacionais, uma exigência da legislação brasileira, investem no cangaço porque faz sucesso”.
O destino trágico de Lampião e seu bando é outro ponto que aproxima as pessoas dessa história, acrescenta a pesquisadora. O desfecho trouxe comoção social, mesmo que parte da população, no final das décadas de 1930 e 1940, achasse que o cangaço tinha que acabar.
“Não houve enfrentamento entre os cangaceiros e as volantes (a polícia formada pelo governo local para combater o cangaço), houve extermínio. A forma violenta com que eles morreram, com a exibição das cabeças como se fossem um troféu, entre elas uma foto de Maria Bonita estampada na primeira página com a manchete ‘Degolada ainda viva’, ficou na memória das pessoas”, diz a pesquisadora. “Para alguns, rever o cangaço é uma espécie de revanche. Podem tentar apagar, mas ele continua presente na memória coletiva e na construção desse mito que as pessoas querem conhecer e ter acesso”.
A importância do pertencimento regional, acrescenta Caroline, é outro marco das produções contemporâneas, que tratam a presença de atores e atrizes nordestinos praticamente como exigência. Não à toa, na época de lançamento de Maria e o cangaço, gerou rebuliço e críticas o fato de a atriz que interpreta Maria Bonita, Isis Valverde, não ser do Nordeste. A repercussão da série não foi tão grande como em Cangaço Novo, por exemplo, formado com um destacado elenco local.
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