A história da colonização do Brasil tem sido contada quase sempre sob o signo da ruptura e da desqualificação dos povos indígenas. Mesmo com o avanço das pesquisas em outra direção, ainda vale a consideração do historiador brasileiro John Monteiro (1956-2013): “O interesse pela história dos índios se choca com posturas historiográficas arraigadas desde longa data, que desqualificam os índios como atores legítimos ou, quando muito, os deslocam para um passado remoto”.
Essa narrativa ignora que os povos indígenas persistem e que suas memórias, práticas e identidades foram negociadas diante das novas condições sociais e econômicas ao longo das gerações e das linhagens familiares que transmitiram saberes até o presente. A cerâmica paulista é tomada, assim, como testemunho material de uma continuidade invisibilizada, um fio que conecta as práticas de mulheres Tupiniquim de antes da chegada dos europeus à vida cotidiana de comunidades ceramistas contemporâneas no interior e no litoral paulista, a exemplo do Alto Vale do Ribeira (SP).
Tal perspectiva contrasta com a tradição historiográfica e arqueológica que dividia o passado em pré-história (indígena) e história (europeia/colonial), o que implicava, na prática, a exclusão dos indígenas do tempo histórico após o chamado ‘contato’. Ao propor uma arqueologia da persistência, busca-se compreender a presença indígena como uma história ininterrupta, reconhecendo que as pessoas e coletivos encontraram maneiras específicas de resistir ao colonialismo.