Marie Curie no Brasil: 100 anos

Departamento de Química
Universidade Federal do Paraná

Em 1926, o maior ícone até hoje da representação feminina na ciência visitou o Brasil: a franco-polonesa Marie Curie. A única pessoa na história a ganhar prêmios Nobel nas áreas de Física (1903) e Química (1911) veio acompanhada de Irène, sua filha mais velha, também cientista. Pesquisa reconstitui os passos da cientista – também a única mulher laureada com dois Nobel – no país, mostra a ampla cobertura da imprensa de suas palestras e das vastas atividades sociais, culturais e políticas, além de destacar a importância do movimento feminista brasileiro na organização da visita.

CRÉDITO: CEDIDO PELA AUTORA

Na década de 1920, a França e o Brasil haviam estabelecido um acordo de cooperação que previa o intercâmbio de cientistas entre os dois países. Nesse cenário, a pesquisadora franco-polonesa Marie Curie (1867-1934) é convidada, pelo Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, criado em 1923, para uma temporada de trabalho em nosso país.

A principal agenda da cientista contemplava a realização de um curso – organizado a partir de um ciclo de conferências científicas – na cidade do Rio de Janeiro. Em 15 de julho de 1926, Marie Curie desembarca no cais do porto do Rio de Janeiro (então, capital do Brasil), na companhia de sua filha mais velha e também cientista, Irène Curie (1897-1956), sendo recepcionadas por lideranças científicas, políticas e sociais.

A repercussão da visita era justificada. Marie Curie foi a primeira mulher a ganhar um Nobel (o de Física, em 1903). Em 1911, receberia um segundo, na categoria Química. Ela é a única pessoa a ter conquistado o prêmio nessas duas categorias. Irène, à época, já era doutora em ciências e, em 1935, também receberia um Nobel de Química, por resultados no mesmo campo em que sua mãe trabalhava: radioatividade.

Até hoje, Marie Curie é a única mulher a receber dois Nobel; e ela e Irène são o único caso de mãe e filha ganhadoras desse prêmio.

Desde sua chegada até sua partida, Marie Curie, ao longo daqueles 44 dias, teve a companhia, em todas suas atividades, de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e representantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) – a primeira fundada em 1916; a segunda, em 1922.

Essa presença constante revela o importante papel dessas instituições na visita das duas cientistas. Para a recepção, a ABC formou uma comissão de sete cientistas renomados. As representantes da FBPF somavam 11 mulheres, entre cientistas, militantes do movimento feminista, intelectuais e integrantes da alta sociedade.

Notícias sobre a visita de Marie e Irène mostram que era bastante comum mãe e filha estarem rodeadas de pessoas de grande prestígio social, assim como serem recebidas para jantares, festas e homenagens em circunstâncias glamurosas.

Irène Curie veio na condição de assistente de Marie, contribuindo com a parte experimental do curso, além de participar de todas as atividades da agenda de sua mãe, como sua acompanhante.

A agenda cumprida por Marie e Irène envolveu compromissos de toda ordem, de visitas a chefes de Estado até presenciar o acender da iluminação pública da cidade. A seguir, apresentamos detalhes das visitas de Marie Curie a três estados brasileiros.

No Rio de Janeiro, Marie Curie ministrou curso na Escola Politécnica, da então Universidade do Rio de Janeiro, e proferiu palestras na ABC e na Academia Nacional de Medicina (ANM). Sua agenda de visitas foi ampla: esteve no Palácio do Catete, no Senado, na Câmara dos Deputados, no Instituto Oswaldo Cruz, no Serviço Geológico e Mineralógico, no Museu Nacional, no Jardim Botânico, no Corcovado, no Pão de Açúcar e na sede do Clube Fluminense, por exemplo.

Na cidade de São Paulo, suas atividades foram igualmente diversificadas: fez conferência na Faculdade de Medicina, visitou o Instituto Butantan, o Palácio do Governo, a Secretaria do Interior, as fontes de águas termais de Águas de Lindoia, a Estação Biológica do Alto da Serra, em Paranapiacaba, entre outros locais. Recebeu vários títulos acadêmicos: membra honorária da Sociedade de Química de São Paulo, da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Farmácia e de Química.

Em Minas Gerais, visitou o Instituto do Rádio de Belo Horizonte, a Câmara dos Deputados, a prefeitura da capital mineira e várias secretarias estaduais. Foi também ao Palácio da Liberdade (sede do governo), ao Instituto Ezequiel Dias, à sede do Automóvel Clube, entre outras. Proferiu palestra na Faculdade de Medicina e conheceu as cidades de Sabará, Lagoa Santa e Nova Lima.

Registros da visita

Marie Curie esteve em mais de dez municípios brasileiros. Em alguns, ficou dias; em outros, esteve só de passagem, para traslado ou hospedagem. Mas em todos, independentemente da duração da estada, houve vários registros nos jornais, porque a população, sempre à sua espera, teve muito interesse em saudar a cientista.

No álbum pessoal de fotografias da família Curie, há diversos registros fotográficos sobre a viagem ao Brasil – especialmente, dos passeios que Marie e Irène fizeram. Há destaque para as paisagens da cidade do Rio de Janeiro, de Barra do Piraí, da Ilha de Paquetá, de Lagoa Santa, do Alto da Serra, além de imagens capturadas de dentro do ‘Pincio’ e ‘Lutetia’ – respectivamente, navios de chegada e partida.

Figura 1. Montagem com fotografias do álbum da família Curie da viagem ao Brasil

CRÉDITO: CEDIDO PELA AUTORA/A PARTIR DO ACERVO DA FAMÍLIA CURIE/REPRODUÇÃO AUTORIZADA

Centenas de notícias foram veiculadas pela imprensa do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais e pela de outros estados, como Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul, Rondônia e Santa Catarina.

Figura 2. Mosaico de notícias de jornais brasileiros sobre a visita de Marie e Irène ao Brasil.

CRÉDITO: CEDIDO PELA AUTORA/A PARTIR DO ACERVO DA HEMEROTECA DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL

Os registros atestam o interesse da mídia sobre os assuntos tratados nas conferências, as percepções de Marie sobre o Brasil, suas impressões sobre os locais visitados e curiosidades sobre a vida pessoal e profissional da cientista.

Essas notícias permitem não só identificar os locais onde Marie e Irène estiveram, mas também pessoas com quem interagiram e os principais compromissos de ambas.

Uma leitura geral das notícias nos permite afirmar que, além da fama de Marie Curie, outros elementos pautaram a vasta cobertura da imprensa: a importância da divulgação científica e, especialmente, o protagonismo das mulheres na ciência.

Divulgação para a população

A primeira conferência feita por Marie no Brasil foi em 20 de julho de 1926, uma terça-feira, no Rio de Janeiro, às 17 horas, no Anfiteatro da Escola Politécnica. Teve ampla cobertura da imprensa e foi anunciada com antecedência (figura 3).

Ao todo, Marie proferiu 15 palestras, em três capitais brasileiras: 13, na cidade do Rio de Janeiro; uma, em São Paulo; uma em Belo Horizonte. Estas duas últimas tiveram maior foco nas aplicações da radioatividade no campo da saúde e ocorreram nas faculdades de medicina.

Figura 3. Anúncio no jornal O Paiz, de 20 de agosto de 1926, de conferência de Marie Curie na Escola Politécnica da Universidade do Rio de Janeiro

CRÉDITO: ACERVO DA HEMEROTECA DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL.

Jornais também apontaram a atuação de Irène como responsável pela operação de equipamentos e execução de experimentos, contribuindo com Marie na dimensão prática das conferências.

Comumente, os jornais transcreviam ou faziam síntese dos conceitos científicos abordados pela cientista nas conferências, trazendo, para seus leitores, por exemplo, noções sobre os elementos químicos rádio, tório, actínio e polônio; sobre o fenômeno da radioatividade induzida; sobre aplicações da radioterapia.

A divulgação das conferências na cidade do Rio de Janeiro foi impulsionada por uma tecnologia recente à época: houve transmissão delas pela Rádio Sociedade, que, fundada poucos anos antes (1923), vinha cumprindo papel importante na popularização científica.

Lançada naquele 1926, a revista Electron – publicação quinzenal de divulgação científica da Rádio Sociedade – dedicou espaço para o conteúdo da quarta conferência de Marie Curie (figura 4).

Figura 4. Texto, em duas páginas, da revista Electron, sobre a quarta conferência de Marie Curie na Escola Politécnica da Universidade do Rio de Janeiro

CRÉDITO: RÁDIO SOCIEDADE/ACERVO FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ

A Electron também destacou o fato de Marie Curie ter sido a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Ciências (ABC), sendo eleita membra correspondente e recebido a honraria no contexto de sua visita ao Brasil.

Na ocasião da entrega do título à visitante, o médico psiquiatra Juliano Moreira (1873-1933) – então presidente da ABC – frisou, em seu discurso, a importância de as mulheres ocuparem todos os espaços sociais.

A cobertura das palestras de Marie Curie em jornais e revistas, bem como na única rádio nacional, possibilitaram que os eventos ultrapassassem os espaços dos auditórios, alcançando público bem mais amplo, democratizando, assim, o acesso ao conhecimento científico.

Como dissemos, essas estratégias de comunicação indicam o impacto social da visita de Marie Curie ao Brasil e o interesse de tornar o conhecimento por ela transmitido acessível ao grande público.

Impressões sobre o Brasil

Em sua estada no Brasil, Marie Curie enviou cartas para sua filha mais nova, Ève Curie (1904-2007), que ficou na França. Ève já era pianista de concertos nesta época e se tornaria escritora, jornalista e diplomata renomada.

Nesses registros, ela compartilha detalhes sobre a hospedagem no Hotel dos Estrangeiros, no bairro do Catete, na cidade do Rio de Janeiro; menciona o barulho dos bondes cariocas; elogia a comida; conta de seus mergulhos e dos de Irène no mar; cita características do solo e das plantas; fala do clima.

A correspondência menciona ainda a contribuição de Irène ao curso dado por ela no Brasil; as recepções e os jantares que teve na companhia de personalidades; o passeio ao Pão de Açúcar e ao Corcovado; enaltece as mulheres da FBPF.

Também escreve contando sobre os dias no estado de São Paulo, mencionando em detalhes a vegetação característica do Alto da Serra de Paranapiacaba, com base numa expedição que fez à região. Atualiza a filha sobre a escala em Belo Horizonte, antes de retornar ao Rio de Janeiro.

No dia de sua partida, em 28 de agosto daquele ano, logo depois de embarcar no navio ‘Lutetia’, Marie Curie envia um radiograma à bióloga e ativista feminina brasileira Bertha Lutz (1894-1976), para ser reproduzido na imprensa brasileira. O texto continha suas impressões sobre os dias vividos no Brasil.

A mensagem de Marie Curie foi transcrita e divulgada, entre outros veículos de imprensa, no jornal O Paiz, na página 4 de sua edição de 29 de agosto de 1926. De seu conteúdo, deduz-se que a visitante levou consigo imagem favorável do Brasil:

“Sou sensivelmente grata à recepção que me fizeram no Brasil. Desde as altas autoridades do país, professores das escolas superiores, jornalistas, pessoas de destaque e o povo, todos se mostraram cheios de amabilidade para comigo, cercando-me da maior e da mais distinta consideração.

A natureza admirável e talvez sem par, do Brasil, maravilhou-me, como tem maravilhado a todos os estrangeiros.

As conferências que fiz se realizaram num meio científico dos mais distintos. Os professores e alunos das escolas superiores e todas as pessoas que me deram a honra de assistir às minhas conferências cercaram-me sempre da maior consideração, ouvindo-me, com grande atenção, demonstrando uma elevada cultura.

O que me sensibilizou foi o modo profundamente gentil e carinhoso por que fui tratada pela comissão de senhoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que está desempenhando importante papel na vida pública do país e não poupou sacrifícios para tornar a minha estadia aqui a mais agradável possível e evitar todas as fadigas. Eu e minha filha regressamos sinceramente agradecidas às distintas brasileiras que nos homenagearam e nos cercaram de todas as atenções possíveis.

Não quero deixar de consignar o agradecimento aos governos dos prósperos estados de S. Paulo e Minas Gerais, onde estivemos a convite dos mesmos. Em ambos fui recebida com a maior consideração e cercada de todo o conforto. Aos cientistas e autoridades daqueles adiantados estados, que me cumularam de grandes gentilezas, quero deixar bem expressos os meus agradecimentos.”

Logo que a cientista desembarca na França, em 11 de setembro de 1926, ela declara seu encantamento com a visita ao Brasil ao diário francês Excelsior. O jornal Minas Geraes, de 20 de outubro, reproduz essa declaração, na qual Marie Curie cita que fez suas conferências científicas “perante auditórios numerosos e simpáticos”.

Maire Curie finaliza a declaração, dizendo que “os laços intelectuais entre o Brasil e a França são muito estreitos. Possa a minha visita contribuir para os estreitar ainda mais”.

Cem anos depois

Passados 100 anos, a visita de Marie Curie ao Brasil ainda continua instigando nossa curiosidade e provocando reflexões sobre o impacto que esse evento teve para a ciência no país e para o protagonismo das mulheres na vida pública.

No Brasil, de lá para cá, diversas instituições de pesquisa e de ensino foram criadas, e o número de pesquisadoras aumentou. A passagem de Marie Curie pelo país continuou reverberando na sociedade brasileira, mesmo após sua partida.

Resgatar os documentos históricos desse episódio tem se mostrado um caminho promissor para a produção de novas pesquisas científicas, para a criação de estratégias de divulgação científica, além de análises sobre o papel das mulheres no desenvolvimento científico.

A famosa cientista que aqui esteve segue abrindo caminhos para novas gerações de cientistas e ampliando seu legado.

BRAGA, João Pedro.; NASCIMENTO, Cássius Klay. A visita de Marie Curie ao Brasil. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2017.

MERCER, Polyana Batista; SOUSA, Khawanny Nathaly Chagas de; SILVEIRA, Camila. Marie Curie em Minas Gerais: potencialidades de documentos históricos para educação, divulgação e popularização científica. História da Ciência e Ensino: Construindo Interfaces, v. 33, n. 1, p. 510-538, 2026. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/75087

NAKONETCHNEI, Alessandra; SILVEIRA, Camila. A visita de Marie Curie ao Brasil: potencialidades para o ensino de física. A Física na Escola, v. 24, n. 1, p. e250365, 2026. Disponível em: https://www.fisicanaescola.org.br/index.php/revista/article/view/365

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