Na década de 1920, a França e o Brasil haviam estabelecido um acordo de cooperação que previa o intercâmbio de cientistas entre os dois países. Nesse cenário, a pesquisadora franco-polonesa Marie Curie (1867-1934) é convidada, pelo Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, criado em 1923, para uma temporada de trabalho em nosso país.
A principal agenda da cientista contemplava a realização de um curso – organizado a partir de um ciclo de conferências científicas – na cidade do Rio de Janeiro. Em 15 de julho de 1926, Marie Curie desembarca no cais do porto do Rio de Janeiro (então, capital do Brasil), na companhia de sua filha mais velha e também cientista, Irène Curie (1897-1956), sendo recepcionadas por lideranças científicas, políticas e sociais.
A repercussão da visita era justificada. Marie Curie foi a primeira mulher a ganhar um Nobel (o de Física, em 1903). Em 1911, receberia um segundo, na categoria Química. Ela é a única pessoa a ter conquistado o prêmio nessas duas categorias. Irène, à época, já era doutora em ciências e, em 1935, também receberia um Nobel de Química, por resultados no mesmo campo em que sua mãe trabalhava: radioatividade.
Até hoje, Marie Curie é a única mulher a receber dois Nobel; e ela e Irène são o único caso de mãe e filha ganhadoras desse prêmio.
Desde sua chegada até sua partida, Marie Curie, ao longo daqueles 44 dias, teve a companhia, em todas suas atividades, de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e representantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) – a primeira fundada em 1916; a segunda, em 1922.
Essa presença constante revela o importante papel dessas instituições na visita das duas cientistas. Para a recepção, a ABC formou uma comissão de sete cientistas renomados. As representantes da FBPF somavam 11 mulheres, entre cientistas, militantes do movimento feminista, intelectuais e integrantes da alta sociedade.
Notícias sobre a visita de Marie e Irène mostram que era bastante comum mãe e filha estarem rodeadas de pessoas de grande prestígio social, assim como serem recebidas para jantares, festas e homenagens em circunstâncias glamurosas.
Irène Curie veio na condição de assistente de Marie, contribuindo com a parte experimental do curso, além de participar de todas as atividades da agenda de sua mãe, como sua acompanhante.
A agenda cumprida por Marie e Irène envolveu compromissos de toda ordem, de visitas a chefes de Estado até presenciar o acender da iluminação pública da cidade. A seguir, apresentamos detalhes das visitas de Marie Curie a três estados brasileiros.
No Rio de Janeiro, Marie Curie ministrou curso na Escola Politécnica, da então Universidade do Rio de Janeiro, e proferiu palestras na ABC e na Academia Nacional de Medicina (ANM). Sua agenda de visitas foi ampla: esteve no Palácio do Catete, no Senado, na Câmara dos Deputados, no Instituto Oswaldo Cruz, no Serviço Geológico e Mineralógico, no Museu Nacional, no Jardim Botânico, no Corcovado, no Pão de Açúcar e na sede do Clube Fluminense, por exemplo.
Na cidade de São Paulo, suas atividades foram igualmente diversificadas: fez conferência na Faculdade de Medicina, visitou o Instituto Butantan, o Palácio do Governo, a Secretaria do Interior, as fontes de águas termais de Águas de Lindoia, a Estação Biológica do Alto da Serra, em Paranapiacaba, entre outros locais. Recebeu vários títulos acadêmicos: membra honorária da Sociedade de Química de São Paulo, da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Farmácia e de Química.
Em Minas Gerais, visitou o Instituto do Rádio de Belo Horizonte, a Câmara dos Deputados, a prefeitura da capital mineira e várias secretarias estaduais. Foi também ao Palácio da Liberdade (sede do governo), ao Instituto Ezequiel Dias, à sede do Automóvel Clube, entre outras. Proferiu palestra na Faculdade de Medicina e conheceu as cidades de Sabará, Lagoa Santa e Nova Lima.