Cantora e pianista, a pesquisadora Julie Wein também se dedica a estudar fenômenos raros e sutis da neurociência, como a intuição
Cantora e pianista, a pesquisadora Julie Wein também se dedica a estudar fenômenos raros e sutis da neurociência, como a intuição
CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

O que a neurociência, a música e a pesquisa de fenômenos sutis e raros, como a intuição, têm em comum? A princípio áreas tão diversas, elas se unem na carreira de Julie Wein sob o mesmo elo da curiosidade. Enquanto a cantora, compositora e pianista lança seu segundo álbum (Piano e canções, pelo selo Biscoito Fino), a também neurocientista faz os últimos ajustes de um artigo escrito com colegas que busca responder se a intuição, um dos fenômenos da chamada “ciência de fronteira”, pode ser medida cientificamente.
“A ligação entre tudo isso está na curiosidade pela vida. Na curiosidade de entender o que fazemos aqui, na busca por conhecimento, por coisas que me movem e me mantêm viva. Para mim, a música e a pesquisa fazem isso”, explica Julie, pesquisadora do Instituto D´Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) desde 2011 e, desde 2023, apoiada pela iniciativa IDOR Ciência Pioneira.
Na neurociência, Julie usa a programação na criação de metodologias e protocolos de pesquisa rigorosos para o estudo de fenômenos raros e sutis ainda pouco explorados pela ciência, seja pela dificuldade de medição ou pela polêmica que ainda provocam no meio.
“Como podemos medir, por exemplo, a intuição humana, que é algo super subjetivo? O próprio conceito de intuição ainda é algo que tentamos definir cientificamente. Então estamos desenhando um protocolo capaz de avaliar objetivamente esse fenômeno. É um tipo de desafio que nos leva à fronteira da metodologia, a ponto de ser muito criteriosa e com controle rigoroso de falsos positivos e falsos negativos”, diz a curitibana, especialista na área de neuroimagem, com ênfase em neurociência computacional, emoções e música.
Seu grupo de pesquisa desenvolveu um software interativo no qual os participantes entram num jogo online de exploração espacial e devem achar um minério escondido num planeta. Por meio dessa tarefa aparentemente simples, a equipe de pesquisa recebe uma avaliação sobre erros e acertos, se as pessoas estavam distantes ou próximas do ponto, por pura intuição, sem nenhuma dica. Mais de seis mil pessoas participaram, e cada uma delas tinha cem tentativas para a mesma missão. Com isso, os pesquisadores geraram uma boa amostra e base de dados.
“Desenvolvemos o software com um programador de jogos, e programamos as estatísticas em Python. Primeiro modelamos um milhão de interações com o computador, para chegar a uma curva de referência do que seria esperado em erros e acertos a partir dessas jogadas completamente aleatórias, sem que nada indicasse a localização do ‘alvo’”, explica, destacando seu gosto pela matemática e modelagem computacional na pesquisa.
“Depois comparamos com os resultados dos participantes. Nossa questão era: ‘Será que existem pessoas com uma intuição fora da curva?’ Falamos sempre dos sentidos de audição, visão, e aqui estamos explorando algo que as pessoas não se perguntam cientificamente”, conta Julie.
No piloto do estudo, observamos um resultado que não foi replicado estatisticamente na coleta oficial, com grande número de participantes. “É o processo natural da ciência, precisamos investigar o que ainda está num campo desconhecido. Utilizar metodologias avançadas e rigorosas é essencial para abordar essas questões”, afirma Julie.
Como podemos medir, por exemplo, a intuição humana, que é algo super subjetivo? O próprio conceito de intuição ainda é algo que tentamos definir cientificamente. Então estamos desenhando um protocolo capaz de avaliar objetivamente esse fenômeno
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