As barreiras que (ainda) impedem o avanço feminino na ciência

“São seus belos olhos”. Foi assim que um colega de universidade justificou uma grande conquista da química Maria Domingues Vargas, no início dos anos 1990. Com um currículo recheado de premiações, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, a pesquisadora relembra: “Fiquei muito brava, tinha feito um esforço tão grande para conseguir o financiamento para um projeto”. A professora aposentada da UFF, que passou também pela Unicamp e lecionou na Universidade de Cambridge, acredita, no entanto, que como mulher branca, filha de cientista, sofreu menos com a desigualdade de gênero na ciência do que pessoas com outros perfis. É uma das integrantes do Grupo de Trabalho Mulheres na Ciência, da UFF, que trabalha para aumentar a representatividade feminina na ciência, criar políticas de apoio às pesquisadoras mães e combater o viés implícito e a ameaça pelo estereótipo. Nesta entrevista, ela, que é jurada do programa Para Mulheres na Ciência, da L’Oréal, Unesco e ABC, diz o quanto ainda precisamos avançar para encontrar a equidade de gênero em ensino superior e pesquisa.

CIÊNCIA HOJE: Levantamentos recentes mostram que as mulheres são 54% das estudantes de doutorado, mas grande parte delas não chega a posições de liderança. Por que isso acontece?

Maria Vargas: Embora a participação das mulheres seja, em média, majoritária em vários cursos de pós-graduação, ela diminui drasticamente à medida que a carreira progride níveis mais altos. Este fenômeno é conhecido como “efeito tesoura” em referência ao formato das duas curvas no gráfico da evolução da carreira científica em função da participação dos dois sexos que, no Brasil, se cruzam em 50% após o doutorado. O que era maioria se torna minoria, por quê? Para avançar na carreira de cientista é essencial fazer pós-doutorado, de preferência fora do país, estabelecer redes de pesquisa no exterior e no Brasil, conhecer e ser conhecida… E muitas mulheres estão casadas, ou constituindo família, o que dificulta esses movimentos nessa fase crucial.

Valquíria Daher

Jornalista, ICH

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