Geopolítica, a hora do retorno

A geopolítica busca compreender as relações estabelecidas entre o Estado e suas formas de organização sociopolítica; o território e todos os seus componentes naturais e simbólicos; e a política, como expressão e modo de controle dos conflitos sociais. Ela oferece, portanto, um ‘arsenal’ teórico e prático para entender como esses três elementos se entrelaçam e conduzir ações e projetos das nações. Num momento em que assistimos à Rússia invadindo a Ucrânia, a geopolítica pode ser ferramenta essencial para criar mecanismos para conduzir à paz mundial.

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

Há discussões acadêmicas que, infelizmente, são colocadas em segundo plano até o momento em que ocorre um evento catastrófico e toda aquela bagagem teórico-conceitual é acionada para tentar entender o que o empírico impõe. Foi preciso, mais uma vez, que uma superpotência militar demonstrasse na prática que a geopolítica está viva, para que geógrafos e outros colegas voltassem para os debates que estavam cobertos por uma poeira empobrecedora.

Não somente na academia, mas é visível como o público em geral está buscando, nos últimos anos, literatura que o ajude a compreender algo que parecia distante no tempo e no espaço: superpotências que rivalizam, não somente no campo simbólico e comercial, mas também em conflitos territoriais, que, ou eram percebidos como distantes no tempo, circunscritos às aulas de história, ou em espaços mundiais periféricos, cuja atenção, em geral, é marginalizada pela grande mídia e intelectuais.

Livros como Os prisioneiros da geografia, do jornalista britânico Tim Marshall, e Ordem mundial, do diplomata norte-americano Henry Kissinger, tornaram-se best-sellers mundiais, rompendo os muros das universidades e dos centros de pesquisa, para alcançar discussões mais triviais.

 

A crise atual

O que está em jogo é a revalorização da geografia como modo de se pensar o Estado, em suas questões internas e, ao mesmo tempo, na formulação de políticas externas. Em outras palavras, a complexidade da localização é acionada para formular teorias e projetos de ação voltados às relações de poder entre os estados. Sob um olhar repaginado (às vezes nem tanto) do realismo político, o território é visto novamente como não apenas produto de relações de poder, mas também ‘fonte’ de poder.


SOB UM OLHAR REPAGINADO (ÀS VEZES NEM TANTO) DO REALISMO POLÍTICO, O TERRITÓRIO É VISTO NOVAMENTE COMO NÃO APENAS PRODUTO DE RELAÇÕES DE PODER, MAS TAMBÉM ‘FONTE’ DE PODER

A geopolítica sempre foi uma mistura de conhecimento e técnica, uma espécie de consciência geográfica do Estado, como afirmava a importante geógrafa brasileira Bertha Becker (1930-2013). Os elementos geográficos – posição, distâncias, recursos naturais, concentração e dispersão da população, massa territorial, fronteiras e limites, grau de conexão etc. – precisam ser levados em consideração, seja para interpretar os movimentos nesse jogo War do mundo real, seja para traçar estratégias aplicadas para o Estado-nação em sua constante e necessária (re)construção territorial. É nesse sentido que a crise atual pode ser entendida.

 

A caneta e a bomba

Em reportagem recente, publicada no dia 6 de abril de 2022 com o nome ‘A nova ordem mundial policêntrica’, o periódico Le Diplomatique Brasil afirmou que haveria dois movimentos históricos inequívocos para mudança de uma ordem mundial: a caneta e a bomba. Se, por um lado, o tom alarmista marginaliza os processos de longa duração, por outro, ajuda-nos a compreender o caso da Ucrânia com um olhar mais aguçado.

O que parece estar acontecendo é mais um passo – talvez o mais evidente e, por isso mesmo, o mais chocante – da reformulação da correlação de forças que envolve os Estados em uma escala global (o sistema mundial de Estados). É nesse contexto que antigas teorias são retiradas da gaveta, e um debate profícuo é fomentado, seja pela grande mídia seja por intelectuais da área.

O que essas interpretações têm em comum é uma revisita às teorias tradicionais do pensamento geopolítico, especialmente as teses do geógrafo e político britânico Halford Mackinder (1861-1947). Interessante que já em 2020, antes portanto da invasão da Ucrânia, a rede de telecomunicações britânica BBC News havia feito uma reportagem com o título ‘Heartland: como um geógrafo do século 19 desenvolveu a teoria que rege a geopolítica atual’. Sem ser necessário voltar à discussão de seu importante artigo de 1904, no qual o conceito de ‘heartland’ (o qual influenciaria a política externa das potências mundiais desde então) foi apresentado, interessa pontuar brevemente seu desdobramento em 1943, quatro anos antes de sua morte.

Preocupado com a ascensão da União Soviética (URSS) como a principal potência do globo após a Segunda Guerra Mundial, Mackinder traçou uma estratégia na qual o Atlântico Norte se transforma na região de contenção (Midland Ocean) de uma possível expansão soviética e sua transformação em um poder anfíbio, isto é, um modo de impedir o império soviético de se expandir para além da sua evidente supremacia terrestre (à época, a URSS representava um sexto de toda a superfície terrestre da Terra) (figura 1).

Figura 1. A teoria do Midland Ocean (Atlântico Norte), formulada por Halford Mackinder em 1943, em tempos de guerra, identifica um cinturão natural que dividia o mundo: o Midland Ocean seria o conjunto dos países banhados pelo Atlântico Norte e suas zonas adjacentes. FONTE: HTTP://PAULJPIZZ.BLOGSPOT.COM/2015/09/THE-EVOLUTION-OF-MACKINDERSTHOUGHT. HTML

Retirar a sua supremacia terrestre parecia algo improvável para as potências ocidentais naquele momento; então, o importante era impedir a URSS de crescer em direção ao oceano. Foi, portanto, a discussão sobre o Midland Ocean que fomentou a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma das protagonistas no conflito atual.

 

Lição não esquecida

Nações antes massacradas no império russo e soviético viram na OTAN um modo de impedir futuras pretensões de retomadas de domínios territoriais. A história da Rússia sempre foi contada por meio da expansão de seu domínio territorial – lição que essas nações não se esqueceram.


NAÇÕES ANTES MASSACRADAS NO IMPÉRIO RUSSO E SOVIÉTICO VIRAM NA OTAN UM MODO DE IMPEDIR FUTURAS PRETENSÕES DE RETOMADAS DE DOMÍNIOS TERRITORIAIS

Ao mesmo tempo, aproveitando o contexto da evidente derrocada russa (soviética) pós-1991, a OTAN promoveu paulatinamente sua expansão para além dos limites preestabelecidos, com o objetivo tácito de isolar a grande potência adormecida (figura2).

Figura 2: Expansão da OTAN FONTE: HTTPS://WWW.CNNBRASIL.COM.BR/INTERNACIONAL/ARMAS-DOS-EUA-PARA-UCRANIA-E-EXPANSAO-DAOTAN- ACIRRAM-RELACAO-COM-A-RUSSIA/

Esse tabuleiro geopolítico se tensiona ainda mais a partir dos anos 2000, com a ascensão de Vladimir Putin ao governo russo e o crescimento de uma aliança que impulsionaria o poder terrestre a um nível inimaginável: a parceria Rússia-China imporia uma ordem mundial de evidente antagonismo entre a organização do mar (OTAN) e o bloco eurasiano.

Interessante notar que muito se discutiu e colocou atenção no crescimento vertiginoso chinês nas últimas décadas. Porém, eram constantemente ridicularizados aqueles que ainda apontavam a Rússia como a grande rival dos EUA, como aconteceu no debate presidencial de Barack Obama e Mitt Romney em 2012, quando o candidato à reeleição, discordando da posição belicosa do republicano contra a Rússia, denominou o país de “potência regional”.

Depois do que ocorreu no Quirguistão em 2005 (a revolta popular que destituiu o então presidente) e sua evidente consequência em 2010 (protestos que teriam sido incentivados pelo governo russo, levando à renúncia do presidente), na Geórgia em 2008 (conflito armado com a Rússia), na guerra civil da Síria a partir de 2010, na Crimeia em 2014, quando a invasão russa acabou recuperando o território ucraniano, e na fatídica invasão ucraniana atual, ninguém pode mais secundarizar a Rússia na compreensão do atual sistema internacional.

O que parece que está se construindo é uma ordem mundial que alguns denominam como ‘policêntrica’, outros como tripolar, mas que, de um modo ou de outro, opõem os Estados reunidos sob a OTAN e os dois gigantes asiáticos.


O QUE PARECE QUE ESTÁ SE CONSTRUINDO É UMA ORDEM MUNDIAL QUE ALGUNS DENOMINAM COMO “POLICÊNTRICA”, OUTROS COMO TRIPOLAR, MAS QUE, DE UM MODO OU DE OUTRO, OPÕEM OS ESTADOS REUNIDOS SOB A OTAN E OS DOIS GIGANTES ASIÁTICOS [RÚSSIA E CHINA]

O caso russo-ucraniano

O caso atual russo-ucraniano coloca em observação uma perspectiva universalista-globalista das relações internacionais. Em outras palavras, para muitos pensadores, o mundo globalizado dispensaria a ideia de uma geopolítica tradicional sob o realismo político. Há correntes que defendem que problemas comuns uniriam Estados, como no caso das questões ambientais; outros buscam nas organizações supranacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), uma espécie de regramento para dirimir a anarquia internacional. Há, ainda, um grupo que acredita que uma rede de conexões entre indivíduos e organizações civis estariam se sobrepondo à territorialidade do Estado, visto que este é refém de suas fronteiras.

Essas defesas de superação de uma geopolítica sob os auspícios do realismo político se tornam fragilizadas quando assistimos às guerras oriundas do desmantelamento da antiga Iugoslávia e a intervenção desastrosa da OTAN/EUA; quando a maior cidade global é atingida em cheio por dois aviões camicases em plena luz do dia 11 de setembro de 2001; e, agora, quando a Rússia invade a Ucrânia. Isso para ficarmos apenas nos conflitos na core area (área geopoliticamente mais central) do planeta, já que, muitas vezes, aqueles que ocorrem, por exemplo, na África ao sul do Saara, não geram o mesmo nível de atenção.

 

Encruzilhada geopolítica

Esse movimento se traduz em uma verdadeira encruzilhada geopolítica, uma vez que coloca para os Estados nacionais a vontade de querer participar mais intensamente de um movimento que amplia a circulação de ideias, técnicas, mercadorias entre eles e, ao mesmo tempo, cria movimentos de resistências a determinadas formas de integração global, como os nacionalismos e símbolos que formam uma comunidade ávida por conservar valores e tradições. No contexto da globalização, a geopolítica tradicional não é coadjuvante: está – e sempre esteve – na ordem do dia.


NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO, A GEOPOLÍTICA TRADICIONAL NÃO É COADJUVANTE: ESTÁ – E SEMPRE ESTEVE – NA ORDEM DO DIA

Este ramo do conhecimento denominado geopolítica surge na virada do século 19 para o século 20 com um objetivo explícito de ser um guia de poder para os Estados nacionais. A busca pela hegemonia mundial nesse período foi demonstrada por meio de obras que indicavam os caminhos do poderio mundial: de controle de rotas de navegação e de áreas dotadas de recursos naturais. O acirramento das disputas de poder na Europa entre Inglaterra, França e Alemanha culminou com duas guerras mundiais e restou para a geopolítica o estigma de máquina de guerra ou de uma ciência de vertente nazista.

A geopolítica, acusada de renunciar a todo espírito científico, vivenciou um ostracismo na academia de cerca de 30 anos, iniciados após a Segunda Guerra Mundial. Passou a ser de bom-tom não usar a expressão geopolítica – na URSS, por exemplo, o ex-líder soviético Josef Stalin (1879-1953) baniu o termo.

O saber geopolítico, restrito aos porões dos círculos militares, ressurge na década de 1970 para dar voz aos movimentos anticolonialistas. A partir daí, retira-se o manto naturalista que até então conduzia os estudos da relação existente entre o Estado e o território para ressaltar os fundamentos geográficos dos eventos políticos.

Nesse sentido, é válido salientar que a posição de uma nação no globo, embora fixa no território, pode mudar em virtude de novas relações estabelecidas por outros atores na escala global, tornando-se mais central ou mais periférica. As distâncias, por exemplo, são comprimidas a cada avanço tecnológico aplicado aos meios de transporte e comunicação; os recursos naturais, cuja característica é existir num ponto da Terra, como as jazidas de minérios, bacias hidrográficas, luz solar etc., são fontes de pesquisa para potencializar seu uso.


É VÁLIDO SALIENTAR QUE A POSIÇÃO DE UMA NAÇÃO NO GLOBO, EMBORA FIXA NO TERRITÓRIO, PODE MUDAR EM VIRTUDE DE NOVAS RELAÇÕES ESTABELECIDAS POR OUTROS ATORES NA ESCALA GLOBAL, TORNANDO-SE MAIS CENTRAL OU MAIS PERIFÉRICA

A população como elemento geográfico pode ser compreendida a partir de sua cultura e de como as variáveis demográficas – natalidade, mortalidade e migração – tornam-se fonte de poder. Enfim, as fronteiras e os limites estão sempre sendo colocados em xeque ou em choque, ora quando os países relaxam as fronteiras formando grupos ou blocos com determinada unidade, ora quando se fortificam as fronteiras na forma de muros, cercas e vigilância, filtrando o quê e quem pode passar e quem não pode (figuras 3 e 4).

Figura 3. Muro em Belém, Palestina (esquerda) FONTE: FOTO DE DANIEL A. DE AZEVEDO
Figura 4. Fronteira ‘virtual’ entre Eslováquia/Ucrânia (direita) FONTE: RANCIÈRE, 2021

Por último, cabe trazer a geopolítica como ferramenta importante para se compreender as contradições internas aos Estados nacionais, como são, por exemplo, os movimentos separatistas. Com forte potencial conflitivo, existem inúmeras minorias étnicas que reivindicam autonomia e território próprio para ter voz junto à comunidade internacional.

Talvez o caso mais emblemático e de maior repercussão midiática seja o da relação entre a Espanha e a Catalunha. Entretanto, há dezenas de movimentos separatistas pelo mundo que provocam tensões territoriais colocando em disputas áreas de valor estratégico ou histórico e sentimentais.

Seja como técnica, seja como conhecimento, a geopolítica tem como fundamento maior a compreensão das relações estabelecidas entre o Estado e suas formas de organização sociopolítica; o território e todos os seus componentes naturais e simbólicos (vê-se a importância do controle de Chernobyl nessa guerra); e a política, entendida como expressão e modo de controle dos conflitos sociais. A geografia, portanto, como saber institucionalizado, matriz do pensamento geopolítico, oferece um ‘arsenal’ teórico e prático que permite não apenas entender como estes três elementos se entrelaçam, mas, utilizando-se das ferramentas de mapeamento, da escala, da precisão da localização das coisas, pode conduzir ações e projetos dos Estados e suas relações de poder e prosperidade para a sociedade.

Mesmo que o fenômeno da globalização tenha projetado um mundo mais integrado e fraterno, o sistema mundial de Estados, sempre em movimento de correlações de força, pode surpreender com a emergência de pensamentos de líderes voltados mais à dominação que à solidariedade. Afinal, o uso que se faz da geopolítica não pode ser a razão de seu abandono (o que seria das tecnologias nucleares se assim fosse…): a geopolítica pode, antes de mais nada, gerar subsídios para a paz.

Daniel A. de Azevedo
Departamento de Geografia
Universidade de Brasília

Ricardo Nogueira
Departamento de Geografia
Universidade Federal do Amazonas

Leia mais

AZEVEDO, D. A.; CASTRO, I. E.; RIBEIRO, R. W. Os desafios e os novos debates na Geografia Política contemporânea. Rio de Janeiro: Editora Terra Escrita, 2021.
COSTA, W. M.; GARCIA, T. S. L. América do sul: geopolítica, arranjos regionais e relações internacionais. São Paulo: editora USP, 2022.
FONT, Joan Nogué; RUFI, Joan Vicente. Geopolítica, identidade e globalização. São Paulo: Annablume, 2006.
HAESBAERT, R.; Gonçalves, C. W. A nova des-ordem mundial (2a edição). 2. ed. Sâo Paulo: Editora UNESP, 2012.
KAPLAN, Robert D. A vingança da Geografia: a construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. São Paulo: Editora Campos, 2013.
VESENTINI, J. W. Novas geopolíticas. São Paulo: Oficina de Texto, 2016.

Matéria publicada em 08.06.2022

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