A inutilidade da literatura

Em tempos tão terríveis, carecemos muito mais da utilidade das coisas inúteis, que só a arte, a natureza e a filosofia podem nos fornecer

O livro Vamos comprar um poeta do escritor português Afonso Cruz – recentemente lançado no Brasil pela Dublinenese – me remeteu à leitura de Utilidade do Inútil, do filósofo italiano Nuccio Ordine, que por sua vez me fez lembrar da cruel fábula de Esopo A cigarra e as formigas, recontada também por La Fontaine e revista por Monteiro Lobato e José Paulo Paz, que resgatam a pobre cigarra e reconhecem o dom que ela tem de alegrar, e, desse modo, suavizar o trabalho árduo das diligentes e egoístas formiguinhas.

Nuccio Ordine nos fala da inutilidade da arte, da literatura, da filosofia, áreas do saber que não podem e não devem ser quantificadas, mas qualificadas, pois são desvinculadas de fins utilitaristas, mas que são fundamentais para nos tornarmos melhores. Reflexão de extrema importância para os nossos dias, em que disciplinas como filosofia, sociologia e, quiçá, literatura sofrem o risco constante de serem banidas das escolas por desempenharem um papel importante no desenvolvimento do espírito livre e na

formação de seres humanos solidários e críticos. Tudo o que não interessa ao capital.

Georgina Martins
Curso de Especialização em Literatura Infantil e Juvenil, Faculdade de Letras
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escritora de livros para crianças e jovens

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