A inteligência artificial precisa da diversidade

A computação sempre fez parte da vida de Sandra Avila. Seus pais trabalhavam na área e a levavam para o campus da Universidade Federal de Sergipe desde a infância. Talvez por isso, a professora do Instituto de Computação da Unicamp não prestasse muita atenção a ser a única mulher nas turmas de várias disciplinas durante a graduação. “Anos depois, já no pós-doutorado, quando fui convidada pelo grupo IEEE WIE (Institute of Electrical and Electronics Engineers) para mentorear alunas de escola pública a criar um aplicativo, tive o estalo. Comecei a pensar nos problemas que tinha passado e no machismo”, relembra. Hoje, Sandra é comprometida com incentivar meninas e mulheres na computação. E mais que isso. Tem a certeza de que a diversidade – não só de gênero, mas racial e social – é fundamental para área em que trabalha: inteligência artificial. Sem isso, segundo ela, a tecnologia não resolverá os problemas de toda a população e aprofundará a desigualdade. Representante do Brasil Fórum de Jovens Cientistas do Brics (grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ela constatou que não está sozinha na meta de fazer a IA transformar para melhor a vida das pessoas. “Vi bastante gente jovem muito competente, com resultados bem impressionantes, dizendo: ‘Estou desenvolvendo uma solução para resolver os problemas do meu país’. Isso é inspirador”.

Ciência Hoje: A inteligência artificial (IA) pode mudar nossas vidas como a eletricidade ou a internet transformaram?

 

Sandra Avila: Sim, a IA tem sido vista como a tecnologia de propósito geral do momento. Outros exemplos de tecnologias de propósito geral são máquina a vapor, motor a combustão, eletricidade, computador e internet. A IA vai estar realmente presente na nossa vida de forma que não perceberemos que ela está ali. Mas falta muita coisa para isso acontecer, e o grande obstáculo são os dados. A ideia é que a IA resolva, a partir dos dados, problemas que a gente tem hoje. E o aprendizado das máquinas ocorre a partir dos dados de que dispomos. Se não tivermos dados representativos do problema que estamos procurando resolver, estaremos criando um problema maior. Nós, pesquisadores da área, já percebemos isso, e algumas pessoas já estão discutindo isso.


Geramos uma quantidade de dados absurda no mundo, e vamos produzir cada vez mais, e, quanto mais aprendermos com esses dados, a IA vai mudar a realidade.

Geramos uma quantidade de dados absurda no mundo, e vamos produzir cada vez mais, e, quanto mais aprendermos com esses dados, a IA vai mudar a realidade. Não estou falando só do futuro, ela está presente ao fazermos uma busca no celular, traduzirmos um texto usando o Google ou procurarmos o melhor trajeto num aplicativo. Tudo isso está sendo aprendido a partir de um conjunto de dados. Espero que a IA resolva vários problemas, mas como qualquer tecnologia pode ser usada para o mal.

 

CH: A IA vai provocar mudanças, principalmente, em que áreas?

SA: Na verdade, já tem causado e em diferentes áreas. As fake news, por exemplo, são difundidas de forma direcionada, não é broadcast, não são espalhadas para todos, chegam a quem tem mais propensão a acreditar numa informação falsa. Isso é aprendido a partir dos dados, a partir do conjunto de perfis das pessoas. Essa manipulação mostra como essa tecnologia pode mudar nossas vidas. Outra área que a gente também pode falar é a saúde, em que estamos produzindo dados o tempo todo, e tem informações que podem ajudar melhorar a vida das pessoas, mas nem sempre. Tem que funcionar para todo mundo, se não, vai aprofundar a desigualdade que já existe. A agricultura é outra área que já está sendo impactada.

Valquíria Daher

Jornalista
Instituto Ciência Hoje/RJ

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