Pandemia e repressão à migração na América Latina

A pandemia de covid-19 exigiu da maioria dos países do mundo restrições ao trânsito internacional. O lado perverso dessas medidas de segurança sanitária são o recuo da hospitalidade e as hostilidades territoriais com os migrantes vulneráveis. Na contramão da livre circulação presente nas narrativas da globalização, países da América Latina fecharam suas fronteiras terrestres e aéreas, ignorando as milhares de pessoas que ficaram em situação de insegurança social, sem o apoio dos governos e dependendo da ajuda de ONGs ou caridade. Os episódios lembram o Rio de Janeiro do fim do século 19, em que imigrantes europeus foram isolados longe do centro da cidade em decorrência da febre amarela.

Crédito imagens: Foto Adobe Stock

O final do século 19 assistiu a um significativo fluxo de migrantes vindos da Europa em direção ao Brasil. A livre circulação dessa mão de obra, em substituição ao trabalho dos escravizados, defrontou-se com um conjunto de variáveis endógenas: a alta mortalidade causada pela epidemia da febre amarela colocava em risco o projeto migratório nacional.

Na década de 1880, a cidade do Rio de Janeiro destacava-se como o principal ponto de conexão e distribuição dos migrantes europeus na América do Sul. Em maio de 1883, no auge da epidemia, foi fundada a Hospedaria Ilha das Flores, na entrada da baía que dá acesso à cidade – onde hoje se localiza o município de São Gonçalo. A edificação se justificou, em parte, como método de isolamento preventivo para os migrantes europeus recém-chegados e para mantê-los espacialmente distanciados dos moradores e frequentadores das áreas centrais da cidade, especificamente, dos cortiços. Só para contextualizar, em 1893, a estalagem carioca ‘Cabeça de porco’, no centro da cidade, foi destruída com a justificativa de zelar pela higiene urbana, como conta Sidney Challoub no livro Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial (Companhia das Letras, 1996).

Gislene Santos
Núcleo Interdisciplinar dos Estudos Migratórios,
Programa de Pós-Graduação em Geografia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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