A percepção comum sobre as cidades é que são locais desprovidos de natureza, onde só conseguem viver humanos, bem como animais considerados pragas. Ambientes naturais são realmente diferentes de centros urbanos, mas, nestes últimos, também vivem e coexistem muitos animais.
Na verdade, é possível dizer que as cidades funcionam como ‘filtros’, que permitem que apenas uma minoria de espécies sobreviva e se estabeleça nesses ambientes urbanos altamente modificados (figura 1).
Esse filtro não é aleatório: certos grupos animais incluem várias espécies frequentes em cidades. Exemplo disso são as diversas espécies do grupo das pombas (família Columbidae) que encontramos em centros urbanos: a pomba-doméstica (Columba livia), a asa-branca (Patagioenas picazuro), a avoante (Zenaida auriculata) e a rolinha-de-asa-canela (Columbina minuta).
Em contraste, outros grupos quase nunca são observados nas cidades: dificilmente, encontraremos, em nossa janela, um gavião-real (Harpia harpyja) ou veremos um tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) andando na calçada.
O impacto mais imediato do processo de urbanização é a extinção local da maior parte das espécies que ocupavam aquela região, restando ali uma minoria delas que tolera as condições artificiais tão diferentes do ambiente natural.
Na maioria dos casos, ainda não sabemos exatamente o que confere a um animal capacidade de tolerar um ambiente urbano. Estudos sugerem que características generalistas – por exemplo, a capacidade de viver em diversos ambientes, bem como utilizar vários recursos e comer diferentes tipos de alimento – poderiam ser importantes. Mas cada grupo animal também pode ter características específicas, relevantes para sua ocorrência nas cidades.
Observação interessante: espécies que ocupam áreas urbanas, muitas vezes, vivem melhor em cidades do que em ambientes naturais, atingindo maior tamanho corpóreo e maior densidade populacional.
Uma vez que a população de certo animal ocorre em uma cidade, ela está sujeita a diversas pressões seletivas, ou seja, ao conjunto de condições ambientais que filtram, por meio da seleção natural, quais características em uma população serão disseminadas para as próximas, a partir de seu efeito na reprodução e sobrevivência dos indivíduos naquele contexto ecológico específico.