Os impactos das cidades sobre os lagartos

Departamento de Biologia
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo
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Você, dificilmente, já viu um gavião-real na janela de seu apartamento. E, certamente, nunca se defrontou com um tamanduá passeando na calçada de sua casa. Mas é muito provável que já tenha observado animais que vivem e coexistem nos ambientes urbanos. Entre eles, os lagartos – incluindo as populares lagartixas –, que toleram tão bem as características artificiais das cidades. Para a biologia, ainda há uma questão em aberto: o que confere a um animal a capacidade de tolerar um ambiente urbano?

CRÉDITO: ADOBE STOCK

A percepção comum sobre as cidades é que são locais desprovidos de natureza, onde só conseguem viver humanos, bem como animais considerados pragas. Ambientes naturais são realmente diferentes de centros urbanos, mas, nestes últimos, também vivem e coexistem muitos animais.

Na verdade, é possível dizer que as cidades funcionam como ‘filtros’, que permitem que apenas uma minoria de espécies sobreviva e se estabeleça nesses ambientes urbanos altamente modificados (figura 1).

Esse filtro não é aleatório: certos grupos animais incluem várias espécies frequentes em cidades. Exemplo disso são as diversas espécies do grupo das pombas (família Columbidae) que encontramos em centros urbanos: a pomba-doméstica (Columba livia), a asa-branca (Patagioenas picazuro), a avoante (Zenaida auriculata) e a rolinha-de-asa-canela (Columbina minuta).

Em contraste, outros grupos quase nunca são observados nas cidades: dificilmente, encontraremos, em nossa janela, um gavião-real (Harpia harpyja) ou veremos um tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) andando na calçada.

O impacto mais imediato do processo de urbanização é a extinção local da maior parte das espécies que ocupavam aquela região, restando ali uma minoria delas que tolera as condições artificiais tão diferentes do ambiente natural.

Na maioria dos casos, ainda não sabemos exatamente o que confere a um animal capacidade de tolerar um ambiente urbano. Estudos sugerem que características generalistas – por exemplo, a capacidade de viver em diversos ambientes, bem como utilizar vários recursos e comer diferentes tipos de alimento – poderiam ser importantes. Mas cada grupo animal também pode ter características específicas, relevantes para sua ocorrência nas cidades.

Observação interessante: espécies que ocupam áreas urbanas, muitas vezes, vivem melhor em cidades do que em ambientes naturais, atingindo maior tamanho corpóreo e maior densidade populacional.

Uma vez que a população de certo animal ocorre em uma cidade, ela está sujeita a diversas pressões seletivas, ou seja, ao conjunto de condições ambientais que filtram, por meio da seleção natural, quais características em uma população serão disseminadas para as próximas, a partir de seu efeito na reprodução e sobrevivência dos indivíduos naquele contexto ecológico específico.

Na maioria dos casos, ainda não sabemos exatamente o que confere a um animal capacidade de tolerar um ambiente urbano

As pressões seletivas em uma cidade podem ser muito diferentes daquelas vivenciadas nos ambientes naturais. Pense em como as cidades, geralmente, são mais quentes do que uma floresta ou mata; em como os centros urbanos têm maior concentração de superfícies duras e poluição sonora e química, além de menor densidade de árvores e superfícies naturais.

Essas pressões podem ser bem intensas. Por exemplo, uma ave que não consegue identificar e fugir de gatos domésticos tem chance muito menor de sobreviver e se reproduzir em um bairro em que vivem gatos domésticos que passeiam pelo quintal, em comparação com uma ave que evita bem esse tipo de predador. Isso faz com que a evolução em ambientes urbanos seja frequentemente muito rápida.

Exemplo clássico desse fenômeno são as mariposas-de-bétula (Biston betularia): no começo da Revolução Industrial, no século 18, cidades inglesas foram cobertas pela fuligem que vinha da poluição das fábricas e ficaram com as paredes e os telhados mais escuros.

Figura 1. O número de espécies vai se tornando menor à medida que nos aproximamos de centros urbanos

CRÉDITO: CEDIDO PELOS AUTORES/IMAGEM GERADA COM AUXÍLIO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (CHATGPT)

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