Na busca por embasar ações de controle da enfermidade no Brasil, Lileia Diotaiuti pesquisa para ampliar o conhecimento sobre os barbeiros e suas adaptações às mudanças ambientais
Na busca por embasar ações de controle da enfermidade no Brasil, Lileia Diotaiuti pesquisa para ampliar o conhecimento sobre os barbeiros e suas adaptações às mudanças ambientais
CRÉDITO: FOTO LILEIA/ACERVO PESSOAL

Considerada uma Doença Tropical Negligenciada (DTN) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença de Chagas afeta de 1,9 milhões a 4,6 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Apesar dos avanços significativos desde a década de 1970, o controle da infecção e de seu principal transmissor, o inseto barbeiro, permanecem um obstáculo na saúde pública brasileira, intrinsecamente ligado à desigualdade social. Mudar essa realidade, integrando a ciência ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), é o propósito da carreira da bióloga Lileia Diotaiuti, parasitologista e pesquisadora sênior da Fiocruz. Referência na área há mais de 40 anos, a cientista foca no estudo da dinâmica das espécies de barbeiros entre o ambiente silvestre e as casas das pessoas. Tudo isso, diz, tentando sempre conciliar o interesse científico à busca por justiça social.
Diagnosticada pela primeira vez por Carlos Chagas (1879-1934) em 1909, a doença de Chagas é transmitida principalmente por meio das fezes contaminadas pelo parasita Trypanosoma cruzi depositadas na pele logo após a picada do barbeiro. No Brasil, por muito tempo, a principal espécie de barbeiro responsável pela contaminação era o Triatoma infestans, que não é brasileira: “Foi um estrago impressionante, porque chegou a haver uma média de três mil barbeiros em uma casa, mantidos pelo sangue das pessoas que viviam ali e dos animais domésticos”. Mas, a partir do final da década de 1970, e em especial na década de 1990, houve um esforço nacional de controle do vetor. “Conseguiu-se reduzir muito a transmissão da doença de Chagas no Brasil”, afirma.
Em 2006, foi declarada a eliminação da transmissão do T.cruzi pelo Triatoma infestans no Brasil. O marco, explica a bióloga, criou a falsa ideia de que a doença de Chagas havia sido erradicada. “Essa comemoração excessiva contaminou o pensamento das pessoas, inclusive de órgãos públicos, de que não havia mais transmissão vetorial da doença no país”, conta. Mas a biodiversidade brasileira de barbeiros é grande, explica a cientista: “Os barbeiros saem das palmeiras, saem das árvores e de seus ocos, das rochas, onde eles estão associados com reservatórios silvestres. E são atraídos para as casas. O trabalho de vigilância é estar atento para que esse ingresso de barbeiros não se transforme em colônias”.
Para realizar a vigilância da maneira certa, Lileia explica que é preciso entender o comportamento dos barbeiros, seus hábitos e quais condições promovem o fluxo desses insetos. Esse estudo é chamado de eco-epidemiologia: “Estudamos os barbeiros brasileiros e entendemos como eles existem na natureza e como é o seu fluxo. Estudamos as fontes de alimentação e o que muda no ambiente silvestre, fazendo com que sejam atraídos para as casas das pessoas”.
Foi um estrago impressionante, porque chegou a haver uma média de três mil barbeiros em uma casa, mantidos pelo sangue das pessoas que viviam ali e dos animais domésticos
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