A química para além da tabela periódica

Centro de Ciências Naturais e Humanas
Universidade Federal do ABC

Entre a autobiografia e a ficção, livro traz 21 contos em que elementos químicos alinham as narrativas de um dos grandes escritores do século 20

A tabela periódica
Primo Levi
Companhia das Letras, 2025

No universo das letras, a trajetória de Primo Levi (1919-1987) é uma das mais impressionantes e inusitadas. Impressionante porque o judeu italiano, após ingressar na resistência antifascista, foi capturado e deportado para os campos de extermínio em Auschwitz, onde sobreviveu por quase um ano, saindo de lá determinado a narrar os horrores a que assistiu e por que passou. Inusitada porque, antes de assumir integralmente o ofício de escritor, atuou principalmente como químico, área em que se diplomou em 1941, em plena vigência das leis de segregação racial na Itália.

Se a química aflora em segundo plano em É isto um homem? – sua obra mais difundida, que descreve a (sobre)vivência de Levi a partir da literatura de testemunho –, a situação se inverte em A tabela periódica. Lançada em 1975, recebeu uma primeira edição brasileira em 1994, cuja capa, talvez como alerta aos desavisados, incluía inapropriadamente, abaixo do título, a palavra “Romance”. Ora, nem Levi se vincula exatamente ao romantismo, nem o livro merece essa descrição, compondo-se como uma coletânea de 21 contos, todos nomeados como elementos químicos.

Em 2025, a Companhia das Letras apresentou uma tradução atualizada do livro, cuja edição anterior se esgotara, permitindo que novos e antigos leitores do Brasil possam se aproximar da prosa do químico-escritor. O caráter vital da química, instrumento de sobrevivência no cativeiro (valendo-se de sua formação, Levi atendeu ao recrutamento dos oficiais alemães para o trabalho num dos laboratórios do complexo, prolongando sua existência ali, como relata em É isto um homem?), alcança o paroxismo em A tabela periódica.

A nova tradução, de Maurício Santana Dias, colabora para isso, não apenas retificando imprecisões conceituais da edição anterior, mas também adaptando melhor ao contexto brasileiro determinadas palavras e expressões. No mais, permanece o estilo peculiar do autor, que colore até os trechos mais “científicos” de humor, ironia e ricas imagens.

Tida pelos estudantes como matéria complicada e enfadonha, alicerçada mais na memorização de nomenclaturas e fórmulas e menos na vida, a química da obra de Levi contradiz essa visão empobrecida

CONTEÚDO EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Para acessar este ou outros conteúdos exclusivos por favor faça Login ou Assine a Ciência Hoje.

Outros conteúdos desta edição

725_480 att-101113
725_480 att-100931
725_480 att-101126
725_480 att-100923
725_480 att-101015
725_480 att-101025
725_480 att-100937
725_480 att-101020
725_480 att-100999
725_480 att-100993
725_480 att-100988
725_480 att-100983

Outros conteúdos nesta categoria

725_480 att-78503
614_256 att-59492
614_256 att-32085
614_256 att-32068
614_256 att-42602
614_256 att-36266
614_256 att-27930
614_256 att-52663
614_256 att-46816
614_256 att-43679
614_256 att-40238
614_256 att-39337
614_256 att-33330
614_256 att-29552
614_256 att-56636