Ciência em prol da saúde global

A pesquisa translacional tem contribuído muito para o desenvolvimento de produtos e estratégias para prevenir, diagnosticar e tratar doenças de maior impacto social e reduzir as desigualdades entre as diversas populações do mundo na área da saúde.

A grande disparidade no padrão de saúde e doença no mundo é um chamado urgente para ações que visem à melhoria das condições e da qualidade de vida das populações vulneráveis. Estimativas atuais mostram que uma criança que nasce em Serra Leoa, na África, por exemplo, tem hoje uma expectativa média de vida 40 anos menor que a de uma criança que nasce no Japão. As taxas de mortalidade infantil nos países ao sul do deserto do Saara, na África, chegam a ser 50 vezes maiores que as dos países mais desenvolvidos da Europa.

Essa diferença inaceitável está associada ao subdesenvolvimento e a determinantes sociais, ambientais, insegurança alimentar e baixa educação, além de acesso limitado e qualidade precária dos serviços de saúde. A área de trabalho e pesquisa denominada saúde global visa reduzir a desigualdade em saúde para as populações em todo o mundo. A saúde global enfatiza questões e soluções transnacionais, envolve muitas disciplinas dentro e fora das ciências da saúde e promove a colaboração e o fortalecimento institucional. As atividades em saúde global estão diretamente alinhadas com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, um plano de ação da Organização das Nações Unidas que indica metas e objetivos para erradicar a pobreza e promover vida digna para todos.


A pesquisa científica em saúde global busca acelerar a incorporação de inovações para a proteção ou recuperação da saúde, preferencialmente por meio dos sistemas públicos de saúde com acesso universal

A atividade científica se insere nesse contexto buscando a descoberta, o desenvolvimento e a aplicação de novos métodos e produtos mais eficientes para prevenção, diagnóstico e tratamento dos principais problemas de saúde. A pesquisa científica em saúde global busca acelerar a incorporação de inovações para a proteção ou recuperação da saúde, preferencialmente por meio dos sistemas públicos de saúde com acesso universal.

Apesar do grande crescimento da área de saúde global nos últimos anos, um estudo recente, que analisou 10 anos de publicação científica nesse campo, apontou marcado protagonismo dos países mais desenvolvidos (principalmente, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá) e uma limitada participação (menos de 20%) de pesquisadores dos países de baixa e média rendas, expressando um desequilíbrio científico, mesmo quando os problemas estudados são de interesse primário dos países de menor renda.

Inovações para a saúde

A pesquisa translacional contribuiu de forma relevante no desenvolvimento de produtos e estratégias para o controle das doenças infecciosas de interesse da saúde global. Destacam-se as estratégias de uso profilático de medicamentos em massa para as filarioses e geohelmintíases (doenças causadas por parasitas); o reposicionamento e a combinação de fármacos para o tratamento da malária resistente à cloroquina; a terapia multidroga para encurtar o tratamento e evitar resistência na tuberculose, hanseníase e HIV/AIDS; os testes rápidos de diagnóstico para leishmaniose, HIV e sífilis, para uso em unidades de atenção primária; além do desenvolvimento de mosquitos modificados geneticamente para controle de transmissão da malária e dengue.

O desenvolvimento da vacina contra o papiloma vírus humano (HPV), indicada para prevenção do câncer cérvico-uterino, e de tratamentos personalizados para o câncer baseados em biomarcadores moleculares são bons exemplos da aplicação da pesquisa translacional em problemas de saúde global que afetam todos os países.

A epidemia de Zika e a atual pandemia de covid-19 trouxeram grandes lições e desafios para a ciência e a gestão em saúde global: (i) a comunidade científica, em colaboração com os serviços de vigilância epidemiológica, precisam estar atentos, preparados e responsivos à emergência e reemergência de novos agentes infecciosos; (ii) a transparência, o compartilhamento de dados, a documentação e a aderência ao Regulamento Sanitário Internacional são fundamentais em situações de emergência; (iii) o esforço científico coletivo multiprofissional e agendas de pesquisa relevantes para a saúde pública são condições necessárias para a rápida resposta e a soberania dos países; (iv) as lideranças nacionais e internacionais devem informar, orientar e educar a população de forma harmonizada em relação às medidas preventivas e ao atendimento médico; e (v) a mídia e as redes sociais têm um papel fundamental na comunicação do conhecimento baseado em evidências científicas, evitando a polarização e a politização de condutas e opiniões sobre as questões de saúde.

As epidemias em tempos de globalização, internet e redes sociais desnudam as inequidades e o despreparo das estruturas política e de serviços públicos para enfrentar a ameaça biológica. Lamentavelmente, também propiciam que gestores inescrupulosos se apropriem da coisa pública em um momento de vulnerabilidade e fragilidade institucional. O mundo observa chocado aos eventos e espera por um despertar social de maior compromisso com o coletivo e o bem-estar da humanidade no imprevisível período pós-pandemia.

Fabio Zicker

Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde,
Fundação Oswaldo Cruz

Matéria publicada em 17.12.2020

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