O imbróglio de um dinossauro

A descoberta de um novo dinossauro do Brasil expõe a precária situação do patrimônio paleontológico do país e graves problemas em instituições que deveriam atuar na proteção dos fósseis.

Ubirajara jubatus
Credito: Wikimedia Commons

O que poderia dar errado na descrição de um dinossauro? Por incrível que pareça, também podem ocorrer problemas na pesquisa de fósseis, o que ficou bem claro com a descrição de Ubirajara jubatus, publicada (e temporariamente removida) pela Cretaceous Research.

O achado é bem interessante: um novo dinossauro da Bacia do Araripe (no Nordeste do Brasil) com cerca de 120 milhões de anos que, apesar de incompleto, exibe estruturas de tecido mole muito raras no registro fóssil. Existem alguns problemas na parte científica, como a suposta presença de um par de estruturas filamentosas presas na região dos ombros do animal, o que seria único para qualquer réptil fóssil. Porém, essas estruturas são de difícil interpretação e, caso autênticas, poderiam estar ligadas a qualquer parte do corpo do animal, como a sua cauda. Sobre isso, uma resposta foi elaborada à Cretaceous Research por 25 paleontólogos brasileiros. Até aí, tudo bem, pois discussões baseadas em dados e evidências são fundamentais para que a ciência se desenvolva e se aperfeiçoe.

 

Questões legais

O problema que desencadeou uma discussão nacional e internacional foi o fato de que os autores do trabalho (ingleses e alemães) depositaram o exemplar no Museu Estadual de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha, alegando que o fóssil teria saído legalmente do Brasil, ludibriando, de certa forma, a revista. Pior: eles apresentaram uma suposta autorização emitida pelo que hoje corresponde à Agência Nacional de Mineração (ANM), o órgão governamental que atua nas questões do subsolo brasileiro e, assim, deveria zelar pela proteção dos depósitos fossilíferos. Esse tipo de autorização é totalmente ilegal e expõe a desagradável situação a que os pesquisadores que atuam especialmente na Bacia do Araripe são submetidos.

Primeiro, segundo a legislação vigente, todo fóssil brasileiro que se torna a base para a descrição de uma nova espécie (tecnicamente chamado de holótipo) tem que estar depositado em uma instituição pública do país. Segundo, o fiscal da ANM que teria assinado o documento não tinha a prerrogativa de permitir a saída de material paleontológico do país. Autorizações desse tipo precisam da anuência de outras instituições, entre elas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com a condição indispensável de que o material em questão tenha sido previamente registrado em uma instituição de pesquisa do país. No caso do Ubirajara, o procedimento correto seria, com orientação de um paleontólogo, registrar o exemplar em uma instituição brasileira e, em seguida, fazer o empréstimo oficial para pesquisa, com estabelecimento de prazo para devolução.

 

A atitude certa

Uma vez que tomou ciência da situação ilegal do exemplar, a Cretaceous Research agiu corretamente: retirou provisoriamente o trabalho de circulação. Agora, a maneira de resolver essa pendência é a devolução do exemplar para uma instituição brasileira, de preferência o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, situado em Santana do Cariri (na região da Bacia do Araripe), no Ceará. Nessa instituição, foi recentemente depositado o holótipo do dinossauro Aratasaurus museunacionali, que, assim como Ubirajara, também é proveniente da Bacia do Araripe. Essa seria a atitude correta que os autores da pesquisa e o museu da Alemanha deveriam tomar.

Toda essa situação ficou feia para os autores e, particularmente, para a ANM, que parece estar com problemas. A comunidade paleontológica brasileira está muito revoltada, e a sua representação poderia agir de forma mais firme nessa questão. Como já foi solicitado muitas vezes, deveria ser enviada uma carta de esclarecimento sobre as questões legais relacionadas aos fósseis no Brasil para as principais revistas científicas que publicam trabalhos em paleontologia, a exemplo do que já fizeram outras sociedades científicas no mundo, relatando ações irregulares com fósseis de diversos países. Essa ação simples poderia evitar fatos constrangedores como esse do Ubirajara.

Todos temos que ter a noção de que o mundo vive hoje um tempo de mudanças, com menos tolerância a comportamentos prejudiciais, como a corrupção. No que tange à paleontologia, é fundamental entender que trocar fósseis por cestas básicas, coautorias e outras benesses não é mais aceito e que isso prejudica o desenvolvimento da paleontologia nacional.

Alexander W. A. Kellner

Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Academia Brasileira de Ciências

Matéria publicada em 20.01.2021

COMENTÁRIOS

  • George

    Chega a ser cômico um paleontólogo falar isso! Principalmente um que deveria ter interditado o museu nacional e exigido os reparos mínimos necessários! Um, que a gente sabe ter levado peças do araripe, muitas das quais hoje são cinzas.
    Enfim, a hipocrisia.
    Trabalhem em paz, e deixem de lutar por essas panelinhas, dizendo que luta por patrimônio paleontológico. Isso sim, é ridículo.

    Publicado em 4 de fevereiro de 2021 Responder

  • Antônio Álamo Feitosa Saraiva

    Esse artigo da Ciência Hoje faz um histórico perfeito dessa situação vexatória por que passa a paleontologia brasileira, abandonada e ignorada pelos gestores e legisladores. Tudo que nós paleontólogos podemos fazer agora é tentar deixar as diferenças de lado e nos unirmos na defesa do patrimônio fossilífero nacional. Por sorte podemos contar com a vigilância da imprensa em torno desse tema. # fósseis do Araripe, no Araripe.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Dion Teixeira Saraiva Confirma

    Agradeço ao professor Kellner por tratar de forma brilhante esse assunto. Não tenho dúvidas de que ele conseguirá a reconstrução do museu nacional.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Huanda Pontes

    Vejo que todos estão empenhados em trazer de volta para o Brasil os fósseis da bacia do araripe que foram contrabandeados. Só não estou entendendo é o silêncio da Agência nacional de mineração- ANM em torno desse assunto.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Marina

    Tem gente que deveria se informar melhor antes de sair por aí caluniando um cientista do calibre do Dr. Alexander Kellner, responsável pela descrição de mais de 60 novas espécies de vertebrados fósseis, sendo a maior parte delas do Araripe. Não existe no país pesquisador que mais tenha contribuído para a divulgação do patrimônio fossilifero brasileiro do que ele. Por isso, merece toda nossa admiração!
    Há apenas seis meses no cargo de Diretor do Museu Nacional, tinha providenciado treinamento de incêndio para todo corpo social e fechado convênio com o BNDES, exatamente para projeto de segurança.contra incêndio. Mas não deu tempo. O descaso de décadas para com o MN, por parte de todos os governos, não esperou…. Só que graças à liderança dele como diretor lutando bravamente, com toda a sua equipe, o Museu Nacional vive! E já está sendo reconstruído para voltar a ser o.maior museu de história natural da América do Sul. Por isso, merece toda nossa gratidão!

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Patrícia

    Muito bom artigo! Temos que preservar o que é nosso e guardar para a humanidade aqui no Brasil, onde o fóssil foi encontrado .
    Importante também se fazer uma campanha de informação para a população entender que esse patrimônio pertence a todos. Assim evitaríamos os descasos acima mencionados.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Patrícia

    Muito bom artigo! Temos que preservar o que é nosso e guardar para a humanidade aqui no Brasil, onde o fóssil foi encontrado .
    Importante também se fazer uma campanha de informação para a população entender que esse patrimônio pertence a todos. Assim evitaríamos os descasos acima mencionados.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Victor

    Obrigado Alexander, pelo artigo e pelo alerta sobre o tema da saída ilegal de fósseis do país. Obrigado também por suas contribuições em prol da preservação deste patrimônio do Brasil

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Andréa

    Excelente artigo, completo e esclarecedor. Muito obrigada

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Katielly Lanzini

    Alexander Kellner, sempre preciso, cirúrgico e competente nas suas abordagens com linguagem jornalística, defendendo o patrimônio nacional. Parabéns.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Doris

    O Brasil tem muitas riquezas, como este fóssil, que já foram e continuam sendo perdidas. Há muitos motivos para isso, como ganância, incompetência, oportunismo ou a certeza da impunidade, mas talvez a falta de transparência e a enorme burocracia nos processos, aliados à falta de fiscalização, devem ser os principais. Artigos como este do Sr. Kellner são extremamente importantes para alertar e esclarecer a população sobre o que está acontecendo. O meio não justifica o fim, e justamente no meio acadêmico isso não deveria ser esquecido. É preciso abordar abertamente os problemas e juntos tentar solucioná-los. A Alemanha tem muita expertise neste assunto e não tenho dúvidas que pode ajudar muito o Brasil, como já vem fazendo em outras áreas há vários anos.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • KarenC

    Marina, no comentário acima, reflete exatamente o meu ponto de vista no assunto sobre o nosso querido Museu Nacional e o magnífico trabalho de Alexander Kellner. Parabéns Alexander.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Victor K

    Valeu George, pelo comentário corajoso e necessário! O bom é que depois de seu comentário, o que segue são vários comentários das panelinhas que você menciona.
    E a perda do nosso museu aqui passou sim por ingerências. Várias!

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Richard Hedler

    E’ preocupante que fosseis saiam irregularmente do pais, e a etica na ciencia e’ um assunto muito bem tratado pelo Alexander Kellner. Meus votos para que seu extraordinario trabalho para reerguer o museu tenha mais apoios publicos e privados.

    Publicado em 5 de fevereiro de 2021 Responder

  • Cláudia Testa Baena

    Ótimo alerta que o pesquisador Alexander Kellner nos faz sobre a saída irregular de fósseis do Brasil.
    Importante ter uma voz que se empenhe para defender a permanência do nosso patrimônio no país.

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Rainer

    Alexander, agradeço o seu alerta de levar a público o que acontece de forma silenciosa. Certamente não é a primeira vez, muito menos será a última. O seu empenho ( e dos seus apoiadores) é inspirador e insista no que é certo. Não é um caminho fácil, mas certamente é a sua missão como excelente profissional que é.

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Naomi

    Artigo muito interessante, realidade triste. Fósseis achados no Brasil devem permanecer no nosso país!!

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Martha Frohmuller

    Importantíssimo a divulgação e esclarecimento a respeito dessas estratégias que contam com a cumplicidade e desinteresse de autoridades nacionais no desrespeito ao nosso patrimônio científico. Caberia uma campanha de divulgação das regras de pesquisa paleontológica no país, de maneira que nenhum cientista possa alegar desconhecimento. Igualmente importante é se investigar o acontecido para que se possa atribuir responsabilidades.

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Martha Frohmuller

    Importantíssimo a divulgação e esclarecimento a respeito dessas estratégias que contam com a cumplicidade e desinteresse de autoridades nacionais no desrespeito ao nosso patrimônio científico. Caberia uma campanha de divulgação das regras de pesquisa paleontológica no país, de maneira que nenhum cientista possa alegar desconhecimento. Igualmente importante é se investigar o acontecido para que se possa atribuir responsabilidades.

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • suyan

    Texto muito bem escrito! Uma vergonha esta situação, mas é como tudo neste país: com um “dimdim” consegue-se o que quer. Deveríamos dar mais valor e cuidar do que é nosso, também. Obrigada pela valiosa informação, assim nos tornamos menos ignorantes quanto ao nosso patrimônio histórico.

    Publicado em 6 de fevereiro de 2021 Responder

  • Eduardo

    Ótimo texto, elucidativo! Triste saber o que acontece com nosso patrimônio científico! Somos ludibriados por nossas instituições e pelas internacionais, também. Obrigada pela esclarecedora explanação.

    Publicado em 7 de fevereiro de 2021 Responder

  • Eduardo

    Ótimo texto, elucidativo! Triste saber o que acontece com nosso patrimônio científico! Somos ludibriados por nossas instituições e pelas internacionais, também. Obrigada pela esclarecedora explanação.

    Publicado em 7 de fevereiro de 2021 Responder

  • Felipe Machado

    Basta uma pequena pesquisa no net para se perceber o quanto os implicados no caso tentam tirar o corpo fora de suas responsabilidades. A primeira qualidade do texto do professor Kellner é esclarecer de uma vez por todas o fato de que nenhum dos implicados possuía as devidas autorizações para levar ou deixar sair o nosso Ubirajara jubatus do território nacional. Sendo assim as responsabilidades e a má fé estão estabelecidas.

    Publicado em 7 de fevereiro de 2021 Responder

  • Luiz Felippe Ozorio

    Importantíssima a divulgação de fatos como esse. A cumplicidade e desinteresse de autoridades nacionais no desrespeito ao nosso patrimônio científico fica evidente. Nesse caso especifico, ao menos a informacao dos requisitos e escopo de autoridade aos agentes de fronteira. Os envolvidos deveriam ser exemplarmente punidos e os cientistas infratores, banidos/severamente sensurados por suas respectivas instituicoes.
    …e o brasileiro acha que picaretagem só existe aqui…

    Publicado em 8 de fevereiro de 2021 Responder

  • Sueli P. Souza

    Em se tratando de um artigo de opinião, penso que um paleontólogo não pode estar falando assim dos outros. O Brasil todo sabe que o autor do artigo, por exemplo, como uma ampla maioria, usa dos mesmos métodos. A diferença é que o material sai do local de origem e permanece no Brasil, geralmente na sua instituição de vínculo. É um meio muito hipócrita, como predomina na academia! O que vocês defendem são interesses particulares. Triste isso!

    Publicado em 9 de fevereiro de 2021 Responder

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